O Exército dos Estados Unidos destinou US$ 4 milhões a quatro projetos de interceptadores de baixo custo para enfrentar drones e outras ameaças aéreas sem depender de mísseis muito mais caros. No Brasil, militares já testam radares capazes de detectar pequenos drones, bloqueadores eletrônicos e novos equipamentos de interceptação, em uma tentativa de adaptar a defesa antiaérea a um cenário de ataques cada vez mais baratos e numerosos.
Derrubar um pequeno drone pode custar muitas vezes mais do que o próprio equipamento utilizado no ataque. Essa diferença passou a preocupar os responsáveis pela defesa aérea americana, especialmente diante da possibilidade de enfrentar dezenas de aeronaves não tripuladas em uma mesma operação.
O problema foi resumido por Matt Willis, diretor do programa de inovação Army FUZE, durante um anúncio do Exército americano. Ele utilizou o exemplo de um míssil de US$ 10 milhões empregado contra um drone de US$ 5 mil para mostrar como a relação entre o preço do ataque e o custo da defesa pode se tornar desfavorável. Os valores foram apresentados como uma comparação ilustrativa, não como o preço dos novos sistemas.
Segundo a reportagem do portal Defesa em Foco, o Exército dos Estados Unidos decidiu acelerar o desenvolvimento de armamentos mais acessíveis, selecionando quatro propostas de interceptadores capazes de enfrentar drones e mísseis de cruzeiro.
A iniciativa também encontra paralelo no Brasil, onde o Exército realizou neste ano uma série de experimentos com equipamentos nacionais, incluindo sistemas de guerra eletrônica, radares de vigilância e drones desenvolvidos para interceptar outras aeronaves não tripuladas.
EUA selecionam quatro empresas e podem ampliar premiações para US$ 20 milhões
A seleção americana faz parte do programa xTech|Disrupt Fires, organizado pelo Exército dos Estados Unidos para identificar tecnologias que possam reduzir os custos da defesa antiaérea.
O anúncio oficial foi divulgado em 16 de outubro, durante a programação da feira militar Association of the United States Army (AUSA), realizada em Washington.
A competição recebeu 45 propostas, das quais dez avançaram às semifinais. Após avaliações técnicas e apresentações aos especialistas militares, quatro empresas foram selecionadas: Furientis, Singularity Defense Corporation, Wardstone e Zone 5 Technologies.
Cada uma recebeu US$ 1 milhão para continuar o desenvolvimento de seu projeto, totalizando os US$ 4 milhões anunciados nesta etapa.
As propostas incluem interceptadores de médio alcance projetados para enfrentar aeronaves não tripuladas e, dependendo das características técnicas, mísseis de cruzeiro. O objetivo é desenvolver equipamentos que possam ser integrados à estrutura americana de proteção contra ameaças aéreas, conhecida como Indirect Fire Protection Capability (IFPC).
O programa também prevê integração com sistemas de comando e controle e radares militares já utilizados pelos Estados Unidos, permitindo que os novos interceptadores sejam incorporados a uma rede de defesa mais ampla.
As empresas terão aproximadamente um ano para aperfeiçoar suas tecnologias. As demonstrações estão previstas para setembro de 2027, quando o Exército americano deverá avaliar o desempenho dos equipamentos e sua capacidade de integração.
A competição poderá distribuir até US$ 20 milhões em premiações totais. Após as demonstrações, até quatro vencedores poderão receber mais US$ 4 milhões cada, dependendo dos resultados apresentados.
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Brasil testa radares, bloqueadores eletrônicos e novas soluções para enfrentar drones
Enquanto os Estados Unidos selecionam empresas para desenvolver interceptadores mais baratos, o Exército Brasileiro vem experimentando diferentes maneiras de detectar e neutralizar aeronaves não tripuladas.
Um dos principais testes ocorreu durante o Exercício Sagitta Primus 2026, realizado entre julho e agosto no Campo de Instrução de Formosa, em Goiás.
A atividade reuniu mais de 500 militares de 23 organizações do Exército, além de integrantes e equipamentos da Força Aérea Brasileira. Durante os treinamentos, foram empregados radares, blindados antiaéreos, sistemas eletrônicos e armamentos convencionais.
De acordo com informações divulgadas pelo Exército Brasileiro, uma das novidades foi a primeira experimentação doutrinária de uma seção especializada no enfrentamento de Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas (SARP).
Os militares trabalharam com duas formas de combater essas ameaças. A primeira envolve a destruição física do drone, utilizando armamentos ou outros equipamentos de interceptação. A segunda procura neutralizar os sinais eletrônicos responsáveis pelo funcionamento ou controle da aeronave.
Nesse segundo grupo, foram utilizados os bloqueadores SCE 0100, da empresa brasileira IACIT, e SCJ 2000M, da AICOX, operados por integrantes do 1º Batalhão de Guerra Eletrônica.
Esses equipamentos atuam sobre comunicações e frequências utilizadas por sistemas não tripulados. Dependendo das características do drone, interferências eletrônicas podem dificultar seu controle ou impedir determinadas operações, sem a necessidade de utilizar um míssil para destruí-lo.
A possibilidade de neutralizar ameaças por meios eletrônicos representa uma alternativa importante para reduzir o consumo de munições, embora sua eficácia dependa do tipo de aeronave, dos sistemas de navegação empregados e das condições operacionais.
Exército brasileiro também avalia drones interceptadores e utiliza blindados Gepard e Guarani
Os testes realizados em Goiás não ficaram limitados aos bloqueadores de sinais.
Empresas da Base Industrial de Defesa brasileira participaram do Sagitta Primus apresentando tecnologias voltadas especificamente ao combate de drones. Entre os equipamentos demonstrados estavam fuzis de interceptação de frequência, torres de identificação de sinais e drones de combate destinados à interceptação física de outras aeronaves.
Essa última alternativa chama atenção porque permite empregar uma aeronave não tripulada para enfrentar outra. A proposta é oferecer um meio de interceptação adequado a determinadas ameaças, reduzindo a necessidade de recorrer a armamentos mais complexos.
O exercício também contou com equipamentos que já fazem parte da estrutura de defesa antiaérea brasileira.
Os militares realizaram disparos com os canhões de 35 mm dos blindados Gepard 1A2, além de utilizar metralhadoras calibre .50 instaladas nas viaturas blindadas Guarani.
Esses armamentos representam alternativas de resposta física contra ameaças aéreas em situações compatíveis com seu alcance e suas características operacionais. O emprego de canhões e metralhadoras pode preservar mísseis de maior valor para alvos que exijam esse tipo de interceptação.
O principal desafio é escolher qual equipamento utilizar diante de cada ameaça. Um drone pequeno e lento apresenta características muito diferentes das de uma aeronave de combate ou de um míssil de cruzeiro, exigindo sensores e respostas adequados.
Por isso, o treinamento brasileiro combinou armamentos convencionais, bloqueadores eletrônicos e tecnologias em demonstração, permitindo avaliar diferentes formas de proteger tropas e instalações militares.
Radar nacional SABER M200 detectou pequenos drones a até 8 quilômetros
Outra novidade brasileira surgiu nos experimentos realizados com o radar SABER M200 Vigilante, desenvolvido pelo Centro Tecnológico do Exército (CTEx) em parceria com a Embraer.
Durante o Sagitta Primus 2026, o equipamento conseguiu detectar drones da categoria 0 a distâncias de até 8 quilômetros, utilizando um novo modo de operação desenvolvido para melhorar a identificação de alvos pequenos.
Os testes envolveram aeronaves não tripuladas com peso máximo de decolagem de até 2 quilos, consideradas particularmente difíceis de localizar por radares convencionais devido ao tamanho reduzido e à baixa reflexão dos sinais emitidos pelos sensores.
O SABER M200 foi empregado em conjunto com o 12º Grupo de Artilharia Antiaérea, em experimentos destinados a avaliar o comportamento do radar diante dessas ameaças.
O resultado é relevante porque identificar um drone com antecedência amplia o tempo disponível para acompanhar sua trajetória, avaliar o risco e preparar uma eventual resposta.
Durante o exercício, o Exército também empregou radares SABER M60 e Centros de Operações Antiaéreas Eletrônicos, responsáveis por apoiar o monitoramento e a coordenação das ações de defesa.
A combinação desses sistemas permite que diferentes equipamentos participem da mesma operação, desde a identificação inicial do alvo até a decisão sobre como enfrentá-lo.
Reduzir o custo da interceptação tornou-se prioridade para a defesa antiaérea
A preocupação americana com os custos dos interceptadores ajuda a explicar por que tecnologias semelhantes passaram a receber atenção das Forças Armadas brasileiras.
Mísseis antiaéreos modernos podem oferecer capacidades indispensáveis contra aeronaves rápidas e ameaças de maior alcance. Entretanto, utilizá-los repetidamente contra pequenos drones pode consumir estoques difíceis e caros de substituir.
Bloqueadores eletrônicos, metralhadoras, canhões e drones interceptadores ampliam as alternativas disponíveis, permitindo selecionar respostas de acordo com o risco apresentado pelo alvo.
No caso brasileiro, os testes do Sagitta Primus representam uma etapa de avaliação de equipamentos e procedimentos. As demonstrações realizadas por empresas não significam, por si só, que todas as tecnologias tenham sido adquiridas ou incorporadas às unidades operacionais do Exército.
Os Estados Unidos também ainda precisam comprovar o desempenho dos quatro projetos selecionados. Além de funcionar contra as ameaças previstas, os novos interceptadores deverão atender aos requisitos militares de alcance, integração, produção e custo.
O calendário americano estabelece setembro de 2027 para as demonstrações práticas, seguidas das avaliações que poderão definir quais tecnologias continuarão recebendo investimentos e terão possibilidade de contratação pelo Exército dos Estados Unidos.