O avião militar fabricado pela Embraer no interior de São Paulo acaba de ganhar uma função em discussão entre dois vizinhos europeus. Em 21 de outubro, Portugal publicou uma autorização para concluir um acordo técnico com a Espanha envolvendo operações de reabastecimento em voo realizadas com KC-390 portugueses. Não se trata de comprar mais aviões, nem de anunciar que caças espanhóis já receberam combustível de uma aeronave portuguesa. A novidade é a preparação formal de uma cooperação que pretende certificar e capacitar o KC-390 para essa missão conjunta.
O documento é o Despacho nº 12800/2026, do Ministério da Defesa Nacional português. Foi assinado em 14 de outubro pelo ministro Nuno Melo, publicado no Diário da República no dia 21 e entrou em vigor no dia seguinte. Ele aprova a minuta de um arranjo técnico entre os ministérios da Defesa dos dois países e delega competência para sua assinatura ao chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas de Portugal, general João Guilherme Rosado Cartaxo Alves. A sequência pode parecer administrativa, mas tem significado operacional: antes de colocar um avião-tanque a serviço de outra força aérea, é preciso combinar procedimentos, responsabilidades e etapas de capacitação.
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Um avião feito no Brasil pode abastecer caças espanhóis, mas o teste ainda precisa acontecer
O texto oficial cita expressamente a cooperação para a certificação e capacitação do KC-390 português em atividades de reabastecimento ar-ar. Em linguagem direta, os países querem criar condições para que uma aeronave portuguesa transporte combustível e o transfira, durante o voo, a outra aeronave compatível. O procedimento permite que um caça continue sua missão sem pousar para abastecer, aumentando o alcance ou o tempo de permanência na área de operação.
Quem lê a autorização à procura de modelos espanhóis encontrará um limite importante: o despacho não identifica quais caças receberiam combustível nem marca datas para os ensaios. A imprensa especializada, incluindo o Poder Aéreo, lembra que a Espanha utiliza Eurofighter Typhoon e EF-18 Hornet com sistema de sonda para reabastecimento. São candidatos tecnicamente plausíveis em função do método de transferência de combustível, não participantes oficialmente confirmados nessa operação. Cada combinação entre avião-tanque, aeronave receptora e procedimentos de voo precisa passar pelas verificações aplicáveis.
O método empregado pelo KC-390 utiliza um conjunto que pode ser explicado sem siglas: sob as asas do avião-tanque ficam equipamentos que liberam uma mangueira, terminada numa cesta. O piloto do caça aproxima a aeronave e encaixa sua sonda na cesta para receber combustível em movimento. Há outro sistema internacional, no qual uma haste rígida é orientada pelo operador do avião-tanque. A distinção importa porque um caça preparado apenas para um método não se torna compatível com o outro pelo simples fato de estar voando ao lado da aeronave abastecedora.
Certificação significa comprovar, em condições definidas, que o avião, as tripulações e os procedimentos permitem a transferência segura. A cooperação reúne dois integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, mas isso não elimina os testes de compatibilidade.

Em janeiro, a Embraer entregou a Portugal o kit que abriu uma missão inédita
Há uma história recente por trás do novo despacho. Em 23 de janeiro de 2026, a Força Aérea Portuguesa recebeu, nas instalações da Embraer em Gavião Peixoto, a quarta unidade do KC-390 e um kit de reabastecimento aéreo. Um dia depois, o avião chegou à Base Aérea nº 11, em Beja, sede da Esquadra 506, os “Rinocerontes”. Segundo a própria força portuguesa, o pacote permitiu à instituição dispor, pela primeira vez, de capacidade própria de reabastecimento aéreo.
O conjunto entregue não se resume a uma mangueira instalada no avião. Ele inclui depósitos adicionais de combustível colocados no interior da fuselagem e equipamentos de transferência montados sob as asas, chamados pods. A solução permite adaptar aeronaves da frota para a função de avião-tanque quando necessário, preservando a vocação de transporte em outras missões. A instituição portuguesa informou que essa configuração pode ser instalada rapidamente em qualquer KC-390 da frota, conforme a necessidade operacional.
O quarto avião atravessou o Atlântico após passar pelo Recife. A Força Aérea Portuguesa descreveu a travessia sem escalas até Beja, com cerca de oito horas de voo. Era demonstração de autonomia, não prova de que outro avião já havia recebido combustível em voo.
A encomenda portuguesa envolve seis KC-390 e um simulador. A Esquadra 506 utiliza a aeronave no transporte de pessoal, cargas e apoio a missões no exterior. A possibilidade de configurar parte da frota para reabastecimento acrescenta uma opção de emprego, especialmente quando operações conjuntas exigem deslocamentos longos. Isso ajuda a explicar por que Lisboa passou a tratar do tema com Madri poucos meses depois da entrega do kit.
A ligação brasileira não é só a fábrica: FAB e Portugal também discutem treinamento
O novo movimento interessa ao Brasil porque a aeronave é fruto do programa da Embraer e porque a Força Aérea Brasileira participa do amadurecimento de suas capacidades. Em novembro de 2025, Embraer e Saab anunciaram a conclusão de uma campanha de ensaios de certificação do reabastecimento do caça F-39E Gripen pelo KC-390, em Gavião Peixoto, sob coordenação do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial da FAB. O fato não significa que todos os aviões de outros países estejam automaticamente certificados: demonstra que o conjunto foi ensaiado com sucesso para aquela combinação específica.
Em 25 de setembro de 2026, Portugal publicou outro despacho, de número 11770/2026, aprovando a minuta de cooperação técnica diretamente com o Brasil para formação e treinamento no sistema KC-390. O texto menciona reabastecimento aéreo e atividades no simulador integral de missão. São dois instrumentos distintos e complementares: um aproxima a força portuguesa da experiência brasileira no avião; o outro organiza a cooperação portuguesa com os espanhóis para possíveis operações de reabastecimento.
Essa conexão ajuda a entender como uma venda de aeronave se transforma em relações duradouras de defesa. Além de adquirir o equipamento, o operador precisa desenvolver pilotos, mecânicos, simuladores, procedimentos e equipes que deem sustentação às missões. Para a indústria brasileira, o KC-390 deixa de ser apenas um avião de carga exportado: torna-se parte de redes de treinamento, manutenção e capacidades compartilhadas por diferentes forças aéreas. O ganho industrial concreto depende de contratos e serviços efetivamente firmados; não se pode calcular novos pedidos apenas a partir de uma minuta.
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O calendário português concentra outras decisões sobre a família KC-390. Em 22 de outubro, o governo autorizou despesas para a aquisição de três aeronaves destinadas à Grécia, em um esquema de contratação governo a governo ainda sujeito às etapas cabíveis. É um expediente diferente daquele divulgado no dia anterior com a Espanha. Misturar as duas medidas produziria uma notícia enganosa: a cooperação de reabastecimento não é a compra das aeronaves gregas nem acrescenta, por si só, três unidades à força aérea espanhola.
O que falta para ver um KC-390 português abastecendo um caça da Espanha
A cooperação ainda precisa sair do texto para a prática. O despacho dá base à assinatura do arranjo técnico, mas não publica a agenda de voos, os modelos receptores, as tripulações participantes ou as etapas específicas de ensaio. A confirmação de reabastecimento realizado exigiria registros operacionais posteriores. Há também procedimentos de segurança, comunicação e compatibilidade a harmonizar para que aeronaves de forças diferentes possam aproximar-se a pequena distância enquanto transferem combustível.
Existe uma razão para que Portugal dê atenção a esse desenvolvimento: o KC-390 já cumpre missões de transporte, e o kit entregue em janeiro lhe permite assumir, quando configurado, uma tarefa antes ausente na capacidade própria da força. A Espanha, por sua vez, dispõe de aeronaves que podem utilizar o método de sonda e cesta. Se a cooperação avançar e for certificada, a dupla poderá ampliar opções de apoio aéreo entre aliados próximos geograficamente, sem depender exclusivamente de aeronaves-tanque de terceiros.
O fato novo permanece bem delimitado: em outubro, o governo português abriu o caminho formal para a cooperação com a Espanha em reabastecimento com KC-390. O avião nasceu no Brasil, o kit de reabastecimento chegou à frota portuguesa em janeiro e as duas forças ainda precisarão mostrar, em testes e documentos operacionais, como a nova capacidade funcionará em conjunto. Para a Embraer e para a FAB, acompanhar essa etapa significa observar um produto brasileiro ganhar novas funções no exterior, desta vez não por uma nova compra, mas pelo modo como será empregado.