Imagine passar 45 dias em uma instalação militar cercada por montanhas, neblina e mar agitado, sem uma cidade nas proximidades. Para a Marinha argentina, não é um teste de sobrevivência: é uma missão real de vigilância no extremo sul.
Em 1º de outubro de 2026, a Armada confirmou que o patrulheiro ARA Contraalmirante Cordero realizou uma operação para substituir equipes e entregar alimentos, combustíveis e equipamentos a dois postos remotos, na Ilha dos Estados e na Península Mitre, próximos à Terra do Fogo.
Uma ilha a 240 quilômetros de Ushuaia, com apenas um local habitado
O posto naval Comandante Luis Piedrabuena funciona em Puerto Parry, na Ilha dos Estados, localizada a aproximadamente 240 quilômetros de Ushuaia. É o único assentamento habitado da ilha, mantido pela Armada desde 1978.
O território possui cerca de 534 quilômetros quadrados e 65 quilômetros de comprimento. Fica separado da ilha principal da Terra do Fogo pelos 24 quilômetros do Estreito de Le Maire, uma passagem conhecida por suas correntes e condições difíceis de navegação.
Ao redor do posto, não existe uma cidade: há costas recortadas, enseadas estreitas e picos rochosos que ultrapassam 600 metros de altitude. É um dos cenários mais remotos do extremo austral sul-americano.

Frio de -6°C, ventos persistentes e até dois metros de chuva por ano
Segundo uma publicação oficial argentina, as temperaturas características da Ilha dos Estados ficam entre aproximadamente -6°C e 10°C. Esse intervalo descreve o clima regional, não uma medição específica dos dias da operação de outubro.
Órgãos ambientais argentinos também descrevem precipitações anuais em torno de 2.000 milímetros — o equivalente a dois metros de chuva acumulada ao longo de um ano. Ventos constantes, névoa e mudanças rápidas no tempo completam a paisagem.
As montanhas chegam a mais de 800 metros de altitude. A entrega de mantimentos pode depender de uma breve melhora nas condições meteorológicas.
Isolamento de 45 dias não é exercício: a vigilância continua funcionando
A Armada informou que militares permanecem por períodos de 45 dias no posto de Puerto Parry antes de serem substituídos. Não se trata de um treinamento de sobrevivência, mas de serviço operacional em uma instalação permanente.
O trabalho inclui observar o movimento de embarcações, identificar navios por rádio, informar sua procedência e destino e manter as instalações em condições de uso. As equipes também podem auxiliar navegantes em dificuldades.
Quatro militares e água captada de uma lagoa: como é viver em Puerto Parry

Um relato oficial de dezembro de 2019 ajuda a dimensionar o isolamento. Naquela missão, apenas quatro militares haviam passado 45 dias no posto antes da chegada dos substitutos.
A água utilizada vinha de um pequeno curso ligado à Laguna Dufour. Era recolhida em recipientes e conduzida por tubulações até um reservatório que abastecia as instalações.
Os militares também cuidavam da manutenção e recolhiam resíduos para preservar a reserva natural. Esses detalhes pertencem à missão de 2019; a Marinha não informou que a equipe de outubro de 2026 tinha exatamente a mesma composição.
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Bahía Buen Suceso: outro posto entre mar perigoso, montanhas e animais silvestres
O segundo posto está em Bahía Buen Suceso, no extremo oriental da Península Mitre, na própria ilha principal da Terra do Fogo. Ali, a vigilância se concentra nas embarcações que transitam por rotas próximas ao Estreito de Le Maire e ao Cabo Horn.
Um documento da Armada descreve uma praia com menos de dois quilômetros de extensão, cercada por montanhas e vegetação baixa. Guanacos, castores e lobos-marinhos fazem parte da fauna observada no entorno.
Em 2019, a água dessa instalação também era obtida de um curso alimentado pelo degelo e passava por filtragem antes de chegar ao sistema interno.

Quando 70% dos suprimentos já estavam desembarcados, o tempo fechou
A dependência das condições do mar ficou evidente numa operação de 2019 em Bahía Buen Suceso. Depois de transferir cerca de 70% da carga, a tripulação precisou suspender o desembarque porque o mau tempo tornou inseguro o uso das embarcações menores.
O navio aguardou um dia. Somente depois, durante uma janela de aproximadamente duas horas de condições favoráveis, os militares conseguiram completar a entrega de alimentos, gás, combustível e materiais de construção.
Patrulheiro oceânico navegou até os dois postos para substituir as equipes
Na missão divulgada em outubro de 2026, o ARA Contraalmirante Cordero partiu da Base Naval Ushuaia, seguiu primeiro para Puerto Parry e depois para Bahía Buen Suceso, passando pelas proximidades do histórico Farol San Juan de Salvamento.
O desembarque contou com embarcações menores e integrantes do Batalhão de Infantaria de Marinha nº 4. A operação garantiu a continuidade da vigilância em uma região estratégica do Atlântico Sul.
Para quem fica, porém, a dimensão mais impressionante é humana: semanas de serviço longe dos centros urbanos, esperando que o mar permita a chegada de alimentos e da próxima equipe.