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Marinha lançou míssil brasileiro de 70 km pelo ASTROS em 2024, mas quase 2 anos depois ainda falta dinheiro para concluir integração e reforçar defesa do litoral

Alisson Ficher
Por Alisson Ficher 26/10/2026 às 18:59
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Marinha lançou míssil brasileiro de 70 km pelo ASTROS em 2024, mas quase 2 anos depois ainda falta dinheiro para concluir integração e reforçar defesa do litoral
Míssil MANSUP é disparado de uma viatura ASTROS durante teste da Marinha realizado em dezembro de 2024; integração operacional do sistema ainda depende de novos trabalhos. Crédito: SIATT/Divulgação.

Em dezembro de 2024, a Marinha lançou um míssil antinavio brasileiro a partir de uma viatura ASTROS e demonstrou uma nova possibilidade de defesa do litoral. Quase dois anos depois, o projeto ainda depende de recursos para concluir a integração, segundo informações publicadas pelo Zona Militar em 23 de outubro.

O lançamento ocorreu na Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro, com participação de militares e engenheiros da indústria nacional de defesa. Na ocasião, o Míssil Antinavio Nacional de Superfície (MANSUP), desenvolvido para combater embarcações, foi disparado de uma plataforma terrestre do Corpo de Fuzileiros Navais.

A demonstração abriu uma possibilidade para a Marinha: utilizar um sistema originalmente projetado para lançar foguetes como plataforma móvel de mísseis antinavio. O passo seguinte seria adaptar os controles e os equipamentos da viatura para que ela pudesse operar o novo armamento.

Em outubro de 2025, uma lançadora ASTROS chegou às instalações da empresa brasileira SIATT para passar por esse processo de modernização. A novidade divulgada agora, porém, mostra que ainda existem etapas técnicas pendentes e dificuldades para financiar a continuidade dos trabalhos.

Marinha lançou o MANSUP em 2024 e enviou viatura para modernização no ano seguinte

O disparo de dezembro de 2024 foi coordenado pela Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha (DSAM), com apoio do Centro de Avaliações do Exército e da SIATT, uma das empresas responsáveis pelo desenvolvimento do míssil.

Na época, a Infodefensa noticiou que o lançamento havia comprovado a viabilidade de utilizar o ASTROS como base para uma futura bateria de defesa costeira. A própria Marinha informou que ainda seria necessário estabelecer os requisitos operacionais e as especificações técnicas para colocar o sistema em serviço.

A ideia era aproveitar a mobilidade das viaturas dos Fuzileiros Navais para transportar e disparar armamentos contra alvos no mar, sem depender exclusivamente de navios de guerra.

O projeto teve outro avanço em outubro de 2025, quando a SIATT recebeu a primeira viatura ASTROS destinada à modernização para operar o MANSUP e sua versão de alcance estendido, o MANSUP-ER.

Conforme reportagem publicada pela Infodefensa em 13 de outubro daquele ano, os trabalhos previstos incluíam modificações estruturais, integração dos sistemas eletrônicos e preparação dos controles necessários ao lançamento.

A entrega marcou a passagem da demonstração inicial para uma nova fase de adaptação do veículo. Ainda faltava, entretanto, executar e validar as modificações necessárias ao emprego operacional.

Falta de recursos dificulta a integração completa do míssil

A atualização publicada pelo Zona Militar em 23 de outubro de 2026 trouxe novos detalhes sobre os obstáculos enfrentados pelo projeto.

De acordo com fontes consultadas pelo portal, a demonstração realizada anteriormente envolveu uma adaptação mecânica para permitir a instalação do MANSUP na lançadora ASTROS.

Na configuração experimental, o console responsável pelo disparo permanecia fora da cabine e não estava conectado aos sistemas internos da viatura.

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A solução permitiu testar o lançamento, mas não representava um sistema de armas completamente integrado.

Para chegar a essa condição, é necessário fazer com que os controles do veículo e os equipamentos de lançamento funcionem de maneira coordenada, além de realizar ensaios para verificar a segurança e a confiabilidade do conjunto.

O desafio vai além de acomodar o míssil na estrutura do ASTROS. Envolve componentes eletrônicos, interfaces de controle e testes que precisam ser concluídos antes da utilização regular pelas unidades militares.

Embora a SIATT tenha recebido uma viatura para modernização em 2025, a reportagem de outubro de 2026 não detalha quanto dessas modificações já foi executado.

O Corpo de Fuzileiros Navais continua responsável pela condução do projeto e busca viabilizar os recursos necessários para dar continuidade à integração e aos ensaios técnicos.

Não há, até o momento, um cronograma público confirmado para a conclusão dos trabalhos ou para a entrada em serviço da configuração terrestre.

Ministério da Defesa registra 84,46% de desenvolvimento do MANSUP

A falta de recursos já havia afetado outras etapas do programa brasileiro de mísseis.

Iniciado em 2008, o MANSUP passou por diferentes fases de desenvolvimento, incluindo a fabricação de componentes, testes de subsistemas e lançamentos experimentais realizados pela Marinha.

Um relatório oficial de monitoramento do Plano Plurianual 2024-2027, disponibilizado pelo Ministério da Defesa, permite acompanhar parte dessa trajetória e os resultados alcançados até o encerramento de 2025.

Segundo o documento, o desenvolvimento geral do MANSUP chegou a 84,46% em 31 de dezembro de 2025, contra 81,32% registrados no fim de 2024.

O resultado ficou próximo da meta revisada para aquele exercício, estabelecida em 84,53%.

O mesmo relatório registra que um lançamento de qualificação previsto para o fim de 2025 precisaria ser repetido em 2026. Em avaliações anteriores, a Marinha também havia relatado cortes orçamentários que provocaram renegociações de contratos e atrasos na contratação de componentes importantes para o armamento.

Os percentuais divulgados pelo Ministério da Defesa correspondem ao desenvolvimento do MANSUP como um todo, incluindo seus subsistemas e etapas de qualificação.

Já a adaptação para lançamento a partir do ASTROS constitui uma aplicação específica, que exige trabalhos adicionais de engenharia, financiamento e validação.

Míssil de 70 km poderia reforçar a proteção do litoral brasileiro

O interesse do Corpo de Fuzileiros Navais no MANSUP está diretamente relacionado à possibilidade de deslocar lançadores conforme as necessidades de defesa da costa.

Com alcance projetado de até 70 quilômetros, o míssil foi desenvolvido para atingir embarcações de superfície. Instalado em uma plataforma terrestre móvel, poderia ser posicionado em diferentes regiões litorâneas, oferecendo mais alternativas de emprego à Marinha.

Essa flexibilidade foi um dos pontos destacados durante a apresentação do projeto na Operação Formosa de 2024.

Na ocasião, a SIATT explicou que a configuração inicial permitiria transportar e lançar um míssil por viatura ASTROS. Estudos posteriores poderiam avaliar a instalação de dois ou quatro armamentos na mesma plataforma.

Outro aspecto considerado era a possibilidade de reconverter o veículo à sua função original de lançamento de foguetes.

Em entrevista ao portal GBN Defense, o sócio-diretor da SIATT, Robson Duarte, estimou inicialmente em cerca de quatro horas o tempo necessário para realizar essa reversão.

A estimativa foi apresentada durante a fase de desenvolvimento e ainda dependeria dos resultados dos trabalhos técnicos para se confirmar em uma configuração operacional.

Parceria com os Emirados Árabes Unidos ajudou a financiar o desenvolvimento do míssil

Em abril de 2023, a Marinha firmou um protocolo de intenções com o grupo EDGE, dos Emirados Árabes Unidos, buscando viabilizar a conclusão do programa MANSUP.

O acordo também abriu caminho para o desenvolvimento conjunto do MANSUP-ER, versão de maior alcance do armamento brasileiro.

O monitoramento oficial de 2025 confirma que a EDGE assumiu, como interveniente pagadora, compromissos financeiros relacionados aos contratos mantidos com a SIATT e a Omnisys, empresas participantes do desenvolvimento do míssil.

Já os serviços de gerenciamento complementar prestados pela Fundação Ezute permaneceram sob responsabilidade financeira da Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha. Segundo o documento, os trabalhos contratados com a fundação em 2025 incluíram relatórios trimestrais de acompanhamento e assessoria técnica sobre propriedade intelectual e royalties do programa MANSUP.

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