Militares franceses percorreram quase 600 quilômetros por rios e selva até a tríplice fronteira com o Brasil e o Suriname. Em uma operação de 15 dias pela Guiana Francesa, o grupo avançou até um marco que representa o encontro de três territórios, mas que permanece no centro de uma disputa de fronteiras entre franceses e surinameses.
A missão Trijonction foi divulgada pelo Ministério das Forças Armadas da França em 6 de agosto de 2026. Soldados do 9º Regimento de Infantaria de Marinha (9e RIMa) viajaram por rios estreitos, enfrentaram troncos que impediam a navegação e concluíram o trajeto caminhando durante quatro dias pela mata fechada.
A equipe chegou ao marco na região em que se encontram Brasil, França e Suriname. Todo o deslocamento informado ocorreu na Guiana Francesa, território francês da América do Sul. A área de delimitação contestada envolve França e Suriname; as fontes consultadas situam o percurso da patrulha em solo francês.
Militares franceses navegaram 540 quilômetros em quatro dias para chegar perto do marco
A primeira etapa da operação exigiu aproximadamente 540 quilômetros de navegação, por quatro dias, ao longo dos rios Maroni, Alawa e Litani. O objetivo era alcançar o igarapé Koule-Koule e continuar até a chamada borne Trijonction, um dos marcos mais isolados daquela região amazônica.
Para percorrer rios com trechos estreitos, o regimento reuniu pirogueiros bushinengues especializados na navegação local. A tropa contou ainda com pessoal de comunicações, integrantes da primeira companhia, comandos e instrutores do Centro de Formação do Rio e da Floresta, conhecido pela sigla C3F.
Profissionais do serviço de saúde militar completaram a equipe, que dependia de seus próprios suprimentos. O deslocamento por água exigia interpretar as condições de cada trecho e adaptar a progressão conforme a vegetação e a presença de árvores caídas no leito dos rios.

Oito horas com motosserras não foram suficientes para vencer trecho bloqueado do rio
Em um dos igarapés, troncos e galhos derrubados bloquearam a passagem. Os franceses tentaram abrir caminho com motosserras, mas oito horas de trabalho renderam apenas 1,8 quilômetro de avanço. A velocidade calculada pela própria unidade foi de aproximadamente 225 metros por hora.
Com a rota fluvial comprometida, os militares passaram à segunda parte do plano: a marcha pela floresta. O grupo distribuiu entre seus integrantes comida para mais sete dias, três motosserras, 16 litros de combustível preparado para os equipamentos e duas cordas para transpor obstáculos.
Era uma carga adicional para soldados que já levavam equipamentos de campanha. A decisão de caminhar permitiu seguir viagem, embora a distância até o ponto final não pudesse ser medida apenas pelo traçado em linha reta de um mapa.
Marcha de 55 quilômetros acumulou 2.500 metros de subida em quatro dias de selva
O marco ficava a cerca de 20 quilômetros em linha reta do local de onde a tropa seguiu a pé. Entretanto, a rota terrestre efetiva somou 55 quilômetros, percorridos durante quatro dias, com aproximadamente 2.500 metros de desnível positivo acumulado.
O desnível positivo representa a soma das subidas enfrentadas, e não a altitude do marco em relação ao nível do mar. Com rios, igarapés, vegetação e terrenos difíceis entre os pontos, o deslocamento real foi bem maior do que a distância estimada em linha reta.
Os 540 quilômetros de navegação e os 55 quilômetros caminhando colocaram a jornada próxima de 600 quilômetros. A equipe precisou carregar os mantimentos e equipamentos por uma região em que uma visita curta a um marco fronteiriço exigiu quase duas semanas de preparação, transporte e permanência em campo.
Suriname contesta o traçado no setor onde França mantém presença militar
O destino da marcha era o marco Trijonction, usado pela França para assinalar o ponto de encontro de suas fronteiras com o Brasil e o Suriname. O local tem valor político porque os franceses e os surinameses divergem sobre o traçado de parte da fronteira meridional entre os dois territórios.
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Na interpretação francesa, o rio Litani participa da delimitação da área. O Suriname defende outro traçado, associado ao rio Marouini. A divergência existe desde antes de 1975, quando o Suriname conquistou sua independência dos Países Baixos e passou a negociar diretamente suas fronteiras.
Os militares franceses reconheceram a região, visitaram o marco e trabalharam para renovar sua sinalização. No comunicado oficial, a operação também tinha a finalidade de manter a capacidade de patrulhar zonas distantes e reafirmar a presença francesa em uma região de acesso extremamente difícil.
O Brasil faz parte da geografia do ponto triplo, mas a discordância territorial mencionada no episódio é entre França e Suriname. O percurso divulgado pelas autoridades francesas transcorreu inteiramente na Guiana Francesa, no entorno da fronteira brasileira.
Acordo de 2021 delimitou outra parte da fronteira, mas trecho sul segue em negociação
França e Suriname assinaram, em 15 de março de 2021, um protocolo sobre parte da delimitação de sua fronteira comum. O instrumento trata dos segmentos desde a foz do Maroni até a região da confluência entre Lawa, Litani e Marouini.
Em um relatório da Assembleia Nacional francesa de junho de 2026, os parlamentares informaram que Paris ratificou o documento em 2022, enquanto a ratificação pelo lado surinamês ainda estava pendente. Os trechos mais ao sul continuavam sujeitos a entendimentos posteriores.
O mesmo relatório menciona a cooperação entre os dois países no controle fluvial e no enfrentamento de atividades ilícitas. As diferenças sobre a linha divisória coexistem com iniciativas diplomáticas e de segurança, enquanto o marco no extremo sul continua sendo visitado por militares franceses.
Helicóptero Caracal retirou soldados após pouso preparado no meio da floresta
Mesmo depois de alcançar a Trijonction, a operação estava longe do fim. Os franceses passaram cerca de um dia e meio preparando uma zona de pouso para receber o comandante do 9e RIMa e o comandante superior das Forças Armadas na Guiana Francesa.
A visita das autoridades militares ocorreu depois do reconhecimento do local e da manutenção do marco. A extração da patrulha foi realizada por um helicóptero Caracal, encerrando o deslocamento de 15 dias que havia começado pelos rios da Guiana Francesa.
A missão também incluiu busca por possíveis indícios de garimpo ilegal e contatos com comunidades bushinengues e indígenas que vivem ao longo dos cursos d’água. Essas atividades aparecem no planejamento divulgado pelo Exército francês para a região amazônica.
Concluída a operação de agosto, a tropa retornou de helicóptero, e a controvérsia sobre o setor mais ao sul da fronteira entre França e Suriname continuou pendente de negociação. O Brasil permanece vizinho direto do território envolvido nessa disputa, no extremo norte da Amazônia.