Entre as especialidades da Marinha do Brasil, poucas são tão desconhecidas e tão exigentes quanto a do faroleiro militar. Ao lado de outros técnicos de sinalização náutica, ele mantém faróis, faroletes, boias e balizas que orientam navios na costa e nos rios da Amazônia, muitas vezes em locais onde só se chega de lancha, de helicóptero ou caminhando na lama.
31 faróis guarnecidos do Pará ao Chuí
A autoridade técnica de sinalização náutica é o Centro de Auxílios à Navegação Almirante Moraes Rego (CAMR), em Niterói, que segue as normas da IALA. A Lista de Faróis da Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN), 40ª edição (2026 a 2027), registra 31 faróis guarnecidos, com pessoal permanente, do Farol de Salinópolis, no Pará, ao Farol do Chuí, no Rio Grande do Sul. Os demais funcionam de forma automática, com visitas de manutenção.
O que faz o faroleiro da Marinha
No edital das Escolas de Aprendizes-Marinheiros, o Faroleiro (FR) é definido como uma especialidade da área de eletroeletrônica, “responsável pela operação e manutenção dos faróis”.
Na Marinha do Brasil, o faroleiro é conhecido também como aquele que sabe tudo sobre energia solar, tamanha a familiaridade desses profissionais com a alimentação de equipamentos e instalações por meio dos paineis fotovoltaicos.
Da lente de Fresnel ao racon
O farol clássico usa a lente de Fresnel, criada pelo físico francês Augustin Fresnel na década de 1820 para concentrar a luz em feixes de longo alcance. A automação veio com a lâmpada a acetileno: o sueco Gustaf Dalén recebeu o Nobel de Física de 1912 pelos reguladores automáticos que permitiram iluminar faróis e boias com gás, sem guarnição.
Hoje, muitos sinais usam painéis solares e lanternas com fotocélula. A Lista de Faróis registra 15 racons na costa, como os de Abrolhos e São Tomé. O racon responde ao radar do navio e projeta na tela uma letra em código Morse, identificando o ponto mesmo sem visibilidade.
Padrão internacional da IALA
A manutenção da sinalização náutica em níveis de excelência fortalece a segurança da navegação e protege o meio ambiente. Na foz do Amazonas, por onde entram centenas de navios com combustível, esse resultado depende dos faroleiros e das equipes de hidrografia que fazem as sondagens. Segundo militares da região, nunca houve ali acidente de grande porte.
A sinalização brasileira precisa respeitar padrões internacionais. A qualidade é medida pelo Índice de Eficácia (IE), que avalia a rapidez no restabelecimento dos sinais. A NORMAM-601/DHN reproduz as metas da IALA, de 97% a 99,8% conforme a importância do sinal, e adota 95% como referência nacional.
O Brasil assinou em 2021 a Convenção que transformou a IALA em organização intergovernamental, em vigor desde 2024. No dia a dia, quem garante esses índices é o militar de sinalização náutica.
Três dias de lancha até um sinal
Um militar de sinalização náutica ouvido pela revista descreve as dificuldades: “Pouco pessoal e meios. Às vezes a lancha sai e demoramos dias só pra chegar em um sinal. Vamos inspecionando os outros, reparamos, e frequentemente quando voltamos outros já estão vandalizados.”
Ele cita também a evasão. “Temos cada vez menos gente, e com o salário que se paga pra um sargento, é melhor sair e ir pra iniciativa privada ou fazer concurso pra policial. O faroleiro arrisca a vida. Já experimentou subir em uma boia na Barra Norte do Rio Amazonas com o mar batendo? E não recebemos periculosidade, insalubridade, nada disso.”
As leis de remuneração militar (MP 2.215-10/2001 e 13.954 de 2019) não concedem esses adicionais. O de compensação orgânica, pago por desgaste em atividades especiais, alcança voo, paraquedismo, submarino, mergulho, controle de tráfego aéreo e radiação, mas não a sinalização náutica.
Concreto no convés e três horas de maré baixa no Rio Pará
Um dos trabalhos mais pesados do faroleiro é a reconstrução de sinais nos rios da região amazônica. A forma de madeira ou aço que vai receber o concreto da base do farolete precisa ser colocada no finalzinho da maré baixa, quando as pedras do leito do rio ficam expostas. Como a lancha balizadora não pode se aproximar do local raso, nas pedras, o concreto é levado até a forma em botes de borracha.
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O 1º Sargento Souza, hoje na reserva remunerada, descreve a operação, que na Marinha se chama faina:
“Tem coisas que a sociedade não sabe e dificilmente vai saber… às vezes a gente espera a maré baixar, monta uma forma, bate o concreto no convés de uma lancha balizadora e colocamos um acelerador na massa, geralmente Sika, aí a gente enche uma forma de meia tonelada de concreto sustentando uma torre que vai ser um farolete… temos pouco mais de 3 horas para fazer isso pois precisamos fazer quando afloram as pedras, onde o concreto será preso… é uma correria, se algo der errado perdemos todo o material… fazendo isso com a lancha balançando de um lado para o outro, às vezes a mais de 200 metros do local, carregando concreto em latas de 20 no botes de alumínio… nesse momento, nessa correria, muitas vezes suboficiais e até oficiais que estão ali têm que pegar na pá, virar concreto, pra não se perder o material.”
A cúpula de 3 toneladas que caiu sobre o caminhão da Vale
Os militares da sinalização náutica guardam histórias que pouca gente conhece. Uma delas aconteceu em 1998, no Farol do Rio Doce, também chamado de Farol de Regência, em Linhares (ES).
A Marinha mandou uma equipe desmontar a antiga torre metálica, que custava caro para manter. A comunidade lutava para preservar o farol como patrimônio histórico. Para evitar atrito com os moradores, ficou combinado que a cúpula seria retirada inteira, com os janelões de vidro e a porta de ferro fundido.

A tarefa era arriscada, porque a cúpula pesava mais de 3 toneladas. Os moradores conseguiram o apoio da então Companhia Vale do Rio Doce, que enviou um caminhão com guindaste de mais de 30 metros de altura.
A cúpula foi amarrada ao guindaste e os técnicos de sinalização náutica começaram os cortes. O plano era soltar a estrutura e descê-la devagar, inteira. Com 95% dos cortes feitos e tudo pronto para a descida, a equipe parou para almoçar num restaurante da vila. O motorista do caminhão foi junto.
Todos ainda estavam à mesa quando moradores chegaram correndo: o farol tinha caído em cima do caminhão.
Durante o almoço, o sistema hidráulico do guindaste foi cedendo aos poucos, até a cúpula tombar e partir as três hastes que ainda a prendiam. O peso desceu de uma vez, a estrutura balançou de um lado para o outro e despencou sobre o veículo. Segundo militares que participaram da operação, o prejuízo para a Vale chegou a centenas de milhares de reais.
Ninguém se feriu. Depois de alguns minutos de correria, a equipe decidiu usar o meterial velho pra reparar a cúpula, que foi desamassada do jeito que deu e levada para a praça principal.
O caso ficou entre os envolvidos. Para a Vale, segundo um chefão local teria dito, seria difícil explicar à seguradora um acidente numa atividade que nada tinha a ver com a rotina da empresa e que era, na prática, um favor. Para os militares, seria difícil explicar por que a cúpula caiu, e por sorte não havia ninguém embaixo.
O isolamento também ajudou. Por causa das chuvas fortes, Regência tinha pouquíssimos moradores e estava praticamente ilhada naquela época. Só se chegava lá de 4×4 ou no Uno velho de um militar da equipe, o Sargento artifice de sinalização Náutica, Wilson, hoje falecido, que era usado para buscar mantimentos na cidade mais próxima. Tudo contribuiu para a história ficar, como dizem os envolvidos, “entre a gente mesmo”.
Hoje a cúpula está exposta em frente ao Museu Histórico de Regência e passa por nova restauração da Prefeitura de Linhares e provavelmente pouca gente por lá sabe da forma inusitada que ela chegou até a parte de baixo do farol.
Salário do faroleiro militar vai de R$ 5 mil a R$ 10 mil
A profissão é uma das mais tradicionais, carrega histórias antigas, como a contada acima. Mas, por conta do isolamento as vezes inevitável para quem serve em um farol isolado e as dificuldades em lidar com materiais muito antigos, a remuneração é vista como pouco compensadora. Segundo militares da área, um faroleiro entre 3º Sargento e Suboficial recebe de R$ 5 mil a R$ 9 mil mensais.