O orçamento previsto para a Força-Tarefa Conjunta chega a aproximadamente US$ 9,9 milhões, enquanto o Paraguai enfrenta questionamentos sobre os resultados de uma operação criada em 2013 para combater grupos armados no norte do país.
O Paraguai prevê destinar 63,9 bilhões de guaranis à Força-Tarefa Conjunta (FTC) em 2027, aproximadamente US$ 9,9 milhões, para manter as operações contra organizações criminosas armadas, especialmente o autodenominado Exército do Povo Paraguaio (EPP). O valor representa um aumento de 8,5% em relação a 2026 e reacende uma discussão que acompanha a força desde sua criação, há 13 anos: quanto o Estado já gastou e por que o grupo que motivou sua formação continua sendo uma preocupação para as autoridades?
A proposta consta do Orçamento Geral da Nação (PGN) de 2027 e prevê um acréscimo de 5,01 bilhões de guaranis em comparação com o exercício anterior.
Segundo levantamento publicado pelo jornal paraguaio Última Hora, em 9 de setembro de 2026, o dinheiro será destinado ao Comando de Defesa Interna (CODI), responsável pelo programa de operações contra grupos criminosos dentro da estrutura do Ministério da Defesa Nacional.
A discussão ocorre em um momento sensível para a segurança paraguaia. Embora a FTC esteja mobilizada desde agosto de 2013, sua presença nas regiões operacionais ainda é questionada diante da continuidade de sequestros, ataques armados e atividades atribuídas a grupos criminosos.
O projeto orçamentário recebeu parecer da Comissão Bicameral em 29 de outubro, mas ainda depende da tramitação nas duas casas do Congresso paraguaio. Senado Paraguayo+1
O aumento de 8,5% vai principalmente para despesas com pessoal
O crescimento do orçamento da FTC chama atenção por um detalhe: a maior parte do acréscimo previsto está relacionada à remuneração de pessoal, e não à aquisição de novos equipamentos.
De acordo com os números apresentados pelo Última Hora, as despesas com serviços pessoais passarão de 25,569 bilhões de guaranis em 2026 para 30,580 bilhões em 2027, aumento de aproximadamente 19,5%.
Na prática, o crescimento dessa rubrica corresponde praticamente à totalidade da ampliação orçamentária prevista para a operação.
Outras áreas apresentam mudanças bem menores. A previsão para investimentos físicos passa de 9,8 bilhões para 9,94 bilhões de guaranis, enquanto os recursos destinados a bens de consumo e insumos sofrem redução.
O orçamento também reserva aproximadamente 7,089 bilhões de guaranis para combustíveis e lubrificantes e outros 9,54 bilhões para aquisição de equipamentos militares e de segurança.
Essa distribuição é um dos pontos centrais da controvérsia. A ampliação dos recursos para pessoal acontece sem aumento proporcional dos investimentos em equipamentos, apesar da natureza operacional das missões realizadas no norte do Paraguai.
Criada em 2013 para combater o EPP, a FTC chega aos 13 anos sob críticas aos resultados
A Força-Tarefa Conjunta foi criada em 24 de agosto de 2013, durante o governo do então presidente Horacio Cartes.
Sua implantação ocorreu após mudanças na legislação de defesa e segurança interna, especialmente com a aprovação da Lei nº 5.036/2013, que alterou a Lei nº 1.337/1999 e ampliou as possibilidades de emprego das Forças Armadas em operações de segurança interna.
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A estrutura passou a reunir integrantes das Forças Armadas paraguaias, policiais e agentes da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad).
O objetivo era enfrentar grupos armados que operavam principalmente no norte do Paraguai, com destaque para o EPP e organizações surgidas a partir de suas divisões.
Treze anos depois, a continuidade dessas atividades criminosas mantém o debate sobre a eficácia da operação.
Um dos episódios citados pela imprensa paraguaia aconteceu em fevereiro de 2026, quando o produtor rural Almir de Brum foi sequestrado na região entre os departamentos de Caaguazú e Canindeyú. Ele permaneceu em cativeiro durante 103 dias, até escapar em 4 de junho.
Também permanecem como casos emblemáticos os desaparecimentos de Edelio Morínigo, Félix Urbieta e do ex-vice-presidente paraguaio Óscar Denis, sequestrados em diferentes circunstâncias ao longo dos anos.
Esses episódios ajudam a explicar por que o debate orçamentário ultrapassou a discussão sobre valores e passou a envolver os resultados concretos das políticas de segurança adotadas no país.
Força já recebeu dezenas de milhões de dólares e especialistas questionam o modelo
O levantamento do Última Hora aponta que a FTC recebeu aproximadamente US$ 68 milhões no período acumulado considerado pela reportagem, com uma média anual de US$ 8,5 milhões e parte expressiva dos recursos destinada a remunerações.
Para o criminólogo paraguaio Juan Martens, ouvido pelo jornal, o enfrentamento dos grupos criminosos deveria ser prioritariamente uma atribuição da Polícia Nacional.
O especialista critica a manutenção de uma estrutura militarizada para operações permanentes de segurança interna e defende que os recursos sejam direcionados ao fortalecimento policial.
Sua avaliação contrasta com a posição de setores do Congresso que defendem a continuidade do financiamento da FTC como instrumento de enfrentamento às organizações armadas.
O senador Silvio Ovelar aparece entre os parlamentares que sustentam a necessidade de preservar recursos para a operação, embora também tenha defendido a revisão de despesas consideradas desnecessárias no orçamento público.
A discussão expõe um problema recorrente em operações prolongadas de segurança: a permanência de uma força no território não significa, por si só, que os objetivos originais tenham sido alcançados. Ao mesmo tempo, a existência de crimes na região não permite medir isoladamente todas as ações realizadas pelos agentes ao longo desses anos.
Congresso paraguaio ainda precisa definir o orçamento de 2027
O projeto do Orçamento Geral da Nação de 2027 foi encaminhado pelo Poder Executivo ao Congresso em 1º de setembro, com previsão global de aproximadamente 166,3 trilhões de guaranis.
Em 29 de outubro, a Comissão Bicameral de Orçamento concluiu sua análise e emitiu parecer com modificações na distribuição de recursos, principalmente para saúde e educação, preservando o valor global inicialmente proposto.
Segundo o Senado do Paraguai, o próximo passo será o exame pela Câmara dos Deputados, previsto para 9 de novembro de 2026. Depois, a proposta seguirá para o Senado. Senado Paraguayo
A previsão de 63,9 bilhões de guaranis para as operações de defesa interna permanece como referência da proposta apresentada pelo governo, mas seu valor definitivo depende da conclusão do processo legislativo.
Para a FTC, o debate envolve mais do que a autorização de despesas para o próximo ano. Após 13 anos de funcionamento, a força continua no centro de uma discussão sobre o custo de manter operações militares e policiais prolongadas e a dificuldade de neutralizar definitivamente os grupos armados que motivaram sua criação.