Uma diferença de dezenas de milhões de dólares por aeronave deveria favorecer o caça russo, mas a concorrência com o F-35 envolve muito mais que preço: sanções americanas, capacidade de produção e acordos de transferência de tecnologia influenciam as decisões dos compradores.
O caça russo Su-57 apresenta uma vantagem que, à primeira vista, deveria torná-lo um concorrente de peso para o americano F-35: seu custo de produção pode ser até 2,5 vezes menor. Mesmo assim, a aeronave desenvolvida pela Rússia permanece com participação limitada no mercado internacional de caças de quinta geração, enquanto o modelo dos Estados Unidos acumula compradores em diversos países.
Uma análise publicada pelo portal especializado Defense Arabic, em 25 de outubro de 2026, mostra que o problema não está exclusivamente nas características da aeronave. Para Moscou, transformar o Su-57 em um produto de exportação envolve superar obstáculos industriais, políticos e comerciais que não desaparecem com uma redução no preço.
Su-57 pode custar US$ 35 milhões, enquanto o F-35 americano ultrapassa US$ 90 milhões
O contraste financeiro ajuda a explicar por que a Rússia acredita que existe espaço para seu caça no mercado internacional.
Segundo os valores apresentados pelo Defense Arabic, o custo de produção do Su-57 destinado às forças russas fica entre US$ 35 milhões e US$ 45 milhões por unidade. Com equipamentos adicionais, as estimativas podem alcançar aproximadamente US$ 65 milhões.
Nos Estados Unidos, a situação é diferente. O F-35A apresentou custo aproximado de US$ 82,5 milhões nos lotes de produção 15 a 17. Para o lote 18, o valor estimado subiu para cerca de US$ 92 milhões, considerando inflação e atualizações tecnológicas.
A diferença também aparece entre as versões americanas:
- F-35A: aproximadamente US$ 92 milhões no lote mais recente citado.
- F-35B: cerca de US$ 109 milhões, com capacidade de decolagem curta e pouso vertical.
- F-35C: aproximadamente US$ 102,1 milhões, desenvolvido para operar em porta-aviões.
Existe, porém, um detalhe decisivo nessa comparação. O custo de fabricação de um caça não equivale ao valor de uma aquisição internacional completa.
Um contrato pode envolver armamentos, treinamento, peças de reposição, infraestrutura, manutenção e suporte técnico. Por isso, uma aeronave mais barata de produzir não necessariamente resulta em uma operação proporcionalmente mais econômica para o país comprador.
Argélia aparece como primeiro grande passo da Rússia na exportação do Su-57
A Rússia começou a transformar seu projeto em uma oportunidade concreta de exportação por meio da versão Su-57E.
De acordo com o Defense Arabic, a fabricante russa United Aircraft Corporation (UAC) confirmou a entrega de duas aeronaves Su-57E a um cliente estrangeiro, sem identificar oficialmente o destinatário na declaração citada.
Imagens que supostamente mostram o caça sobrevoando a Argélia reforçaram as informações de que o país africano seria o primeiro operador estrangeiro do modelo.
Reportagens mencionadas pela publicação apontam a possibilidade de a Argélia receber 14 aeronaves até 2030, embora o cronograma detalhado e a quantidade final não tenham sido oficialmente apresentados.
Para a Rússia, essa movimentação representa algo mais importante do que a venda inicial de duas unidades. Trata-se da oportunidade de demonstrar que o Su-57 pode deixar de ser um programa voltado predominantemente às necessidades domésticas e conquistar operadores internacionais.
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Índia pode mudar o futuro comercial do caça russo com produção local e acesso à tecnologia
Se a Argélia representa uma porta de entrada, a Índia aparece como uma oportunidade de expansão industrial muito maior.
A Rússia apresentou aos indianos uma proposta que ultrapassa a simples entrega de aeronaves prontas. Segundo a publicação, o pacote inclui transferência de tecnologia, acesso a códigos-fonte de sistemas envolvidos no acordo e possibilidades de fabricação e montagem no território indiano.
Os números são expressivos: a proposta contempla a possibilidade de produzir até 100 caças localmente, além de montar entre 36 e 60 aeronaves.
Para Nova Délhi, a discussão envolve não apenas o desempenho militar do avião, mas a possibilidade de fortalecer sua própria indústria de defesa e preservar autonomia tecnológica.
É justamente nesse ponto que a disputa muda de natureza. Um país que pretende operar caças avançados durante décadas não compra somente aeronaves. Ele também precisa avaliar o acesso à manutenção, às atualizações e às tecnologias necessárias para sustentar sua frota.
A Índia continua avaliando alternativas, incluindo aeronaves ocidentais como o F-35. As propostas russas, portanto, representam possibilidades de negociação, não contratos de aquisição já concluídos.
Rússia contratou 76 caças Su-57 para suas próprias forças e precisa atender também aos compradores estrangeiros
Outro obstáculo identificado na análise é a capacidade industrial.
Em 2019, Moscou assinou um contrato para fornecer 76 unidades do Su-57 às forças aeroespaciais russas, com entregas previstas no cronograma apresentado pela publicação até 2027 e 2028.
Isso significa que eventuais encomendas estrangeiras precisam disputar capacidade de fabricação com compromissos assumidos dentro da própria Rússia.
A questão é simples: anunciar interesse internacional não equivale a ter aeronaves disponíveis para entrega.
O ritmo da produção e a capacidade de sustentar simultaneamente encomendas internas e externas serão determinantes para a expansão comercial do programa.
Uma ressalva sobre o número de aeronaves: a fonte consultada documenta o contrato russo de 76 unidades, mas não apresenta comprovação específica de que mais de 50 caças já tenham sido efetivamente produzidos. Essa quantidade, presente no título inicialmente proposto, deve ser tratada como não confirmada pela fonte utilizada nesta reportagem.
Sanções americanas podem transformar um caça mais barato em uma decisão política cara
O preço competitivo do Su-57 encontra outro obstáculo fora das fábricas russas.
A legislação americana conhecida como CAATSA, voltada ao enfrentamento de adversários dos Estados Unidos por meio de sanções, permite a aplicação de medidas contra determinadas transações relacionadas ao setor de defesa russo.
Na prática, países interessados em armamentos avançados fabricados pela Rússia precisam considerar as possíveis consequências de suas aquisições sobre as relações econômicas, militares e tecnológicas com Washington.
Esse risco amplia o custo político de uma compra que, olhando exclusivamente o valor da aeronave, poderia parecer vantajosa.
O F-35, por sua vez, beneficia-se de uma rede internacional consolidada de operadores, programas de modernização e acordos de cooperação entre países aliados.
A vantagem americana não pode ser medida apenas pela quantidade de dólares necessária para adquirir cada avião.
Ela envolve a estrutura internacional que acompanha o equipamento durante sua vida operacional.
O desafio do Su-57 não é apenas vender um caça barato, mas garantir décadas de operação
O caso do Su-57 revela uma característica importante do mercado de aviação militar: tecnologia, preço e desempenho não são suficientes para determinar o sucesso comercial de uma aeronave.
A Rússia oferece um caça com custo de produção estimado consideravelmente inferior ao do F-35 e tenta compensar os obstáculos comerciais com propostas de transferência de tecnologia e industrialização local.
A entrada da versão Su-57E no mercado estrangeiro demonstra que existe espaço para essas negociações. Entretanto, a consolidação internacional dependerá da capacidade russa de transformar propostas em contratos, manter a produção e garantir suporte aos compradores.
No fim, o maior desafio comercial do Su-57 talvez não esteja em convencer outros países de que ele é barato, mas de que a Rússia conseguirá sustentá-lo operacionalmente durante décadas.