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O Texas declarou nove ilhas do Rio Bravo como suas para patrulhar contra cartéis. O México responde que nenhum estado americano muda uma fronteira fixada em tratado de 1970

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 31/10/2026 às 18:45
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O Texas declarou nove ilhas do Rio Bravo como suas para patrulhar contra cartéis. O México responde que nenhum estado americano muda uma fronteira fixada em tratado de 1970
Lancha de patrulha passa por uma ilha de mata no Rio Bravo. Imagem gerada por IA.

O órgão de terras do Texas fala em 66 acres e admite não ter confirmado crime nas ilhas; a Chancelaria mexicana, segundo a Proceso, diz que só a CILA define o lado de cada uma.

A comissária de Terras do Texas, Dawn Buckingham, declarou propriedade do estado nove ilhas no Rio Bravo, chamado de Rio Grande nos Estados Unidos, que somam cerca de 66 acres, perto de 26,7 hectares. O comunicado do General Land Office (GLO), o órgão que administra as terras do Texas, datado de segunda-feira, 26 de outubro, diz que a decisão encerra anos de incerteza e permite que a polícia estadual e o Texas Military Department, que reúne a Guarda Nacional do Texas, entrem nas ilhas para monitorá-las e protegê-las.

O México respondeu pela Secretaria de Relações Exteriores (SRE). Segundo a revista Proceso, que publicou a reação na sexta-feira, 30, a Chancelaria afirma que a fronteira foi fixada por um tratado bilateral de 1970 e “no puede modificarse por decisión de un gobierno estatal”.

Cartas liberam a polícia estadual e a Guarda do Texas

Buckingham mandou cartas ao Departamento de Segurança Pública do Texas (DPS), a polícia estadual, e ao Texas Military Department, dizendo que os dois podem usar as ilhas em operações de segurança na fronteira. Segundo o GLO, a comissária também trabalha com forças estaduais e federais para entregar a elas as coordenadas de cada ilha.

“A terra do Texas nunca vai se tornar refúgio para cartéis, traficantes de pessoas, contrabandistas ou outras organizações criminosas”, disse Buckingham no comunicado. Na mesma nota vem a ressalva: “embora não tenhamos confirmado atividade criminosa nessas ilhas adicionais”, a comissária afirma que ilhas da fronteira já foram exploradas por cartéis e contrabandistas no passado.

As fontes não coincidem sobre quem entra primeiro. A NewsNation diz que a polícia estadual e a Patrulha de Fronteira, que é federal, vão às ilhas para definir os próximos passos e decidir se a vegetação será retirada, e a Proceso escreve que Buckingham autorizou a Patrulha de Fronteira a entrar.

Um pedido da CBP e números que não batem

A revisão partiu de uma dúvida federal. Segundo a reportagem de Jordan Elder no News 4 San Antonio, publicada na terça-feira, 27, a agência de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP) tinha perguntas sobre 28 ilhas do Rio Bravo consideradas sem dono ou de propriedade não estabelecida, e o GLO identificou nove delas como terra do Texas.

A emissora não diz quando a CBP fez o pedido nem a quem pertencem as outras 19 ilhas. Para chegar ao resultado, ainda segundo o News 4, o GLO revisou registros históricos, levantamentos topográficos e outras informações.

A NewsNation, em texto de Ali Bradley e Jeff Arnold, apresenta outra conta: as nove ilhas estariam entre 20 levantadas recentemente, e Buckingham acredita que as 11 restantes sejam mexicanas, pela posição no rio. O comunicado oficial do GLO não traz nenhum dos dois números.

Da região de Laredo até perto de McAllen

O mapa que acompanha o comunicado do GLO numera as nove ilhas ao longo do Rio Bravo, da região de Laredo até perto de McAllen, no sul do Texas, cada uma com um recorte de imagem de satélite. A maior tem 21,7 acres, cerca de 8,8 hectares, e as duas menores têm meio acre cada, uns 2 mil metros quadrados.

Em todos os recortes, o GLO desenhou a linha da fronteira internacional no canal entre a ilha e a margem mexicana, deixando a terra do lado americano. É justamente esse traçado que a Chancelaria mexicana diz caber a um órgão binacional, e não ao estado.

Juntas, as nove têm menos da metade da área da ilha Fronton, de 170 acres, cerca de 68,8 hectares, que o Texas declarou terra estadual em 2023. “É meio que fazer o Texas maior de novo”, disse Buckingham à NewsNation, que também registrou outra frase dela: “Só queremos ter certeza de que está tudo protegido”.

Fronton, a ilha que virou briga com Washington

Fronton fica no condado de Starr e não está entre as nove ilhas do anúncio de outubro. Depois da declaração de 2023, o DPS e o Texas Military Department retiraram a vegetação da ilha na Operação Flat Top, e o GLO diz que o crime no local caiu de forma dramática, sem apresentar números no comunicado.

O governo federal contestou a posse. Segundo a NewsNation, a seção americana da Comissão Internacional de Limites e Águas (IBWC, na sigla em inglês) afirmou em carta de abril de 2024 que Fronton é propriedade federal. Autoridades federais disseram depois que a cerca e a ponte construídas pelo Texas alteraram a planície de inundação, o que poderia ser “particularmente danoso” nas cheias, e o estado mantém que a ilha é sua.

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Sobre as nove ilhas de agora, a IBWC não tinha se manifestado publicamente até este sábado, 31. O Departamento de Estado também não comentou, e as reportagens do News 4 e da NewsNation não trazem resposta de Washington.

O tratado de 1970 e a linha no meio do rio

Segundo a Proceso, em texto de Mathieu Tourliere, a SRE lembrou que o tratado bilateral de 1970 põe a fronteira no meio do rio. A Chancelaria acrescentou que a Comissão Internacional de Limites e Águas, a CILA, é o órgão encarregado de aplicar o tratado e a única autoridade que pode determinar de que lado fica cada ilha.

A comissão é binacional, e a IBWC que contestou Fronton é a sua seção americana. A SRE citou ainda outra regra: “ningún país puede construir obras que, a juicio de la CILA, puedan desviar u obstruir el escurrimiento normal del río”. E avisou que “México dará seguimiento puntual a cualquier acción en la zona”.

São os mesmos dois pontos da briga de Fronton, a posse da terra e as obras que mexem com a água, agora levantados pelo outro lado do rio. Buckingham disse à NewsNation que autoridades mexicanas reagiram com força ao anúncio, mas a emissora não informa se houve protesto diplomático formal, e a Proceso não registra resposta americana à nota da SRE.

Coordenadas na mão, sem crime confirmado

Para o GLO, o anúncio fecha o pilar “Protect It” da iniciativa Texas Engine, que já incluiu a compra, em outubro de 2024, de um rancho de 1.402 acres, cerca de 567 hectares, no condado de Starr para o muro de fronteira. Em janeiro de 2025, o terreno recebeu 1,5 milha, cerca de 2,4 quilômetros, de painéis do muro, segundo o comunicado.

Agora a comissária repassa às polícias as coordenadas de nove pedaços de terra no meio do rio onde, nas palavras do próprio GLO, ainda não se confirmou atividade criminosa. Do outro lado, a Chancelaria mexicana sustenta que só a CILA pode dizer se esses pedaços de terra ficam no Texas.

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