Um veterano da Guerra das Malvinas afirmou que 30 jovens identificados por ele como filhos de oficiais ficaram fora do contingente enviado ao combate, enquanto outros 150 soldados seguiram para as ilhas. O relato é de Miguel Jerónimo Brito, argentino convocado aos 18 anos e enviado à guerra de 1982 depois de uma instrução que havia começado apenas duas semanas antes da ocupação argentina do arquipélago.
Em entrevista publicada nesta segunda-feira, 19 de outubro de 2026, pela Agência de Notícias de San Luis, Brito também contou que havia disparado somente três vezes com um fuzil FAL antes de receber a ordem de embarcar. A denúncia sobre a escolha dos convocados é apresentada como memória pessoal do ex-combatente, sem confirmação documental independente.
De 180 recrutas, 150 seguiram para a guerra, segundo o veterano
Brito fazia parte de um grupo de 180 jovens que prestavam serviço militar obrigatório. Segundo sua recordação, 30 eram filhos de militares ou de famílias economicamente favorecidas. Quando os recrutas foram reunidos no Regimento de Infantaria 3, em La Tablada, na região de Buenos Aires, a quantidade destinada às Malvinas havia caído para 150.
Na entrevista, o ex-combatente foi categórico ao relatar sua versão: “Dos 180, ficamos 150; os outros 30, que eram filhos de oficiais, não iam para a frente de batalha”, em tradução do depoimento original. Ele não identificou nominalmente esses jovens nem apresentou uma relação oficial dos embarcados.
O testemunho integra uma série de entrevistas publicadas 44 anos depois da guerra com argentinos que estiveram nas ilhas. Brito recorda que a maioria dos colegas vinha de famílias humildes e que alguns choravam à noite, ainda no treinamento, por estarem longe de casa.
Aos 18 anos, havia usado o fuzil FAL apenas três vezes
Nascido em Villa Larca, na província argentina de San Luis, Brito cresceu na região de La Matanza, próxima a Buenos Aires. Ele foi convocado pelo sorteio do serviço militar: seu número foi 363, apenas 13 acima do limite que, conforme sua lembrança, permitiria escapar da convocação.
O treinamento começou em 20 de março de 1982, em Ezeiza. Em 2 de abril, militares argentinos ocuparam as Malvinas. Brito e os colegas ainda estavam em instrução e, inicialmente, acreditavam que não seriam enviados porque mal conheciam o armamento.
Ele afirmou que nunca havia disparado uma pistola e sequer reconheceu uma granada presa ao equipamento de um cabo quando embarcou. A chegada às ilhas ocorreu em 11 de abril, menos de um mês depois do início de sua formação.

Soldado conta que recusou três oportunidades de ficar fora do combate
Antes da partida, os superiores distribuíram uniformes, fuzis e funções. Brito recebeu o posto de primeiro atirador, mas um oficial mandou transferir seu equipamento a outro militar, da classe de 1962, considerado mais preparado para aquela função.
Era a primeira chance de permanecer fora do grupo. Em vez de aceitar, Brito procurou um colega que chorava porque sua namorada estava grávida e temia a viagem. Os dois trocaram de posição, e ele passou a carregar uma metralhadora que descreveu como antiga.
Uma segunda ordem também o retirou do posto. Brito encontrou outro recruta assustado e voltou a trocar de lugar. Quando tentaram afastá-lo pela terceira vez, protestou com o superior. Segundo seu relato, insistia em embarcar para que companheiros com medo pudessem ficar.
Despedida da mãe, viagem de avião e trincheiras sob chuva e frio
Na última despedida, a mãe de Brito foi até a área militar. Levou comida preparada pela família, enquanto o filho pediu cigarros. Ele recorda ter partido naquela noite com a mãe chorando do outro lado da cerca.
O trajeto passou por El Palomar e Río Gallegos, no sul da Argentina, antes do voo final para as ilhas. Brito lembra que, durante a transferência, havia comido apenas um prato de polenta. Nas Malvinas, encontrou vento gelado, escuridão e chuva.
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Sua unidade cavou trincheiras na região entre Sapper Hill e monte William. Ele atuou como auxiliar de uma metralhadora MAG. O local também aparece no histórico dos últimos combates divulgado pelo Ministério da Defesa argentino, que registra a atuação do Regimento 3 naquela área.
Em maio, os bombardeios começaram; um companheiro não voltou
O veterano lembra que, em 1º de maio, um integrante do grupo avistou navios britânicos ao longe. Vieram então bombardeios e ataques que marcaram a rotina dos soldados, já afetados por fome, umidade e temperaturas baixas.
Entre as lembranças mais difíceis está a história de um recruta chamado Soria. O rapaz falava sobre preparar, quando voltasse para casa, uma sobremesa feita pelos pais, que eram padeiros. Soria morreu durante a guerra e nunca realizou o plano.
Brito afirma que passou anos tentando lidar com a perda. No encerramento dos combates, recebeu a ordem de recuar em direção ao aeroporto e depois entregar as armas. A rendição o deixou revoltado pelos companheiros mortos e pelos sacrifícios enfrentados.
Depois de ser prisioneiro, regressou ao continente e levou anos para falar
Após alguns dias como prisioneiro dos britânicos, Brito foi levado no navio SS Canberra até Puerto Madryn. Mais tarde, em Campo de Mayo, passou por avaliação médica e tomou o primeiro banho morno de que se lembrava em quase três meses.
O veterano conta que demorou a conversar sobre os acontecimentos. A ajuda da mãe, do irmão, da esposa e de outros ex-combatentes permitiu que ele começasse a compartilhar a experiência, anos depois, em encontros de veteranos.
Hoje, Brito vive novamente em Villa Larca, junto à família. A guerra terminou em 14 de junho de 1982, mas ele segue transmitindo suas lembranças ao filho e ao neto. O depoimento divulgado em 19 de outubro expõe a perspectiva de um soldado que entrou no conflito com pouca formação e carrega, quatro décadas depois, a memória de quem não retornou.