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Argentina impõe segredo militar em compra de equipamentos para as forças armadas e mantém sigilo sobre destinação, valores e fornecedores enquanto tensões com o Reino Unido aumentam

Fernando B.
Por Fernando B. Atualizado em 19/10/2026 às 17:45·publicado em 19/10/2026
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Argentina impõe segredo militar em compra de equipamentos para as forças armadas e mantém sigilo sobre destinação, valores e fornecedores enquanto tensões com o Reino Unido aumentam
Navio patrulha oceânico: a Argentina tem ampliado seus investimentos em defesa. Foto: Divulgação

Em meio a uma escalada de tensões com o Reino Unido devido à disputa em torno da soberania das ilhas Malvinas (Falklands, para os britânicos), o governo de Javier Milei autorizou a aquisição de equipamentos para as Forças Armadas argentinas sob o regime de segredo militar, sem revelar valores, destinação, tipo de armamento ou material e fornecedores envolvidos.

A fundamentação oficial da Casa Rosada ampara-se em um decreto de 1963 que regula o segredo militar e nas leis de Defesa Nacional e de Reestruturação das Forças Armadas do país. Com um decreto publicado em 19 de outubro de 2026 assinado por Milei e pelo ministro da Defesa, Carlos Presti, as operações contratuais ligadas a essa transação ficarão totalmente dispensadas das regras habituais de publicidade em meios oficiais e difusão do Estado argentino.

Também não é possível identificar para qual ramo das forças do país o material será destinado. O principal argumento para esse tipo de transação é impedir que informações úteis a possíveis adversários sejam divulgadas antes, durante ou depois da aquisição de material estratégico de defesa.

O movimento também acontece em meio à maior modernização da história recente das Forças Armadas do país, com a chegada do segundo lote de caças F-16 Fighting Falcon adquiridos da Dinamarca para a Força Aérea Argentina (FAA), totalizando 12 de 24 aeronaves já recebidas em um acordo estimado em US$ 300 milhões.

Para justificar a classificação como sigilosa, o novo decreto de Milei cita a Lei de Defesa Nacional da Argentina, que estabelece a proteção da soberania nacional, da independência e da integridade territorial como objetivos fundamentais.

A Lei cita que a defesa nacional tem por finalidade “garantir, de forma permanente, a soberania e a independência da nação argentina, sua integridade territorial e capacidade de autodeterminação, bem como proteger a vida e a liberdade de seus habitantes“.

Sigilo foi usado para a compra dos F-16

Em 2024, o governo de Javier Milei, em um procedimento semelhante, declarou secreto o procedimento contratual para adquirir os caças F-16 junto à Dinamarca. O sigilo abrangeu detalhes técnicos, de armamentos e operacionais do contrato principal de US$ 300 milhões, que o governo descreve como o investimento militar mais importante em 50 anos para a Argentina.

Outras etapas do programa dos F-16 argentinos também fora colocadas sob sigilo posteriormente, como a exportação de componentes que precisariam sair do país para manutenção e atualização junto à fabricante norte-americana, por meio de novo decreto publicado em agosto de 2026.

Segundo o jornal La Nacion, não está claro se a nova medida de sigilo imposta pelo governo argentino em outubro de 2016 tem relação com os desdobramentos do programa de modernização da Força Aérea Argentina por meio dos F-16.

Aumento das tensões sobre as Malvinas

A tensão entre Argentina e Reino Unido escalou nas últimas semanas com a disputa antiga pela soberania das Ilhas Malvinas/Falklands, passando de declarações diplomáticas para medidas jurídicas e econômicas do governo Milei contra um projeto bilionário de exploração de petróleo no Atlântico Sul.

Buenos Aires solicitou medidas provisórias ao Tribunal Internacional do Direito do Mar para tentar interromper as atividades petrolíferas autorizadas pelo Reino Unido na Bacia Norte das Malvinas. Londres rejeitou a iniciativa e reafirmou que considera legítimas as atividades econômicas realizadas no arquipélago sob administração britânica.

Um dos principais focos da crise atual é o projeto Sea Lion, um empreendimento de petróleo em águas profundas ao norte das Malvinas, desenvolvido pela israelense Navitas Petroleum em parceria com a britânica Rockhopper Exploration, com um investimento estimado em US$ 2,2 bilhões.

Para a Argentina, a exploração autorizada pelo Reino Unido constitui uma apropriação unilateral de recursos naturais em uma área cuja soberania está em disputa, violando o direito à soberania sobre sua plataforma continental.

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Segundo reportagem do jornal britânico The Guardian, autoridades britânicas reafirmaram o apoio aos habitantes das ilhas alvo de disputa no Atlântico Sul e indicaram medidas para proteger empresas contra consequências extraterritoriais das ações argentinas.

Londres sustenta o argumento considera legítimas as licenças emitidas pelo governo das ilhas e afirma que os habitantes locais têm direito de desenvolver seus recursos econômicos.

O Reino Unido também invoca o princípio da autodeterminação dos habitantes, que votaram em 2013, por ampla maioria em referendo, pela manutenção do status de território britânico ultramarino.

Reino Unido realiza movimentações militares

Em meio ao agravamento das tensões diplomáticas e econômicas com a Argentina, o Reino Unido realizou um exercício militar envolvendo cerca de 150 paraquedistas britânicos e aproximadamente 100 reservistas da Força de Defesa das Ilhas Malvinas.

A operação, denominada Cape Upholder, durou seis dias e simulou ações de combate para defender o arquipélago de uma eventual invasão. Entre as atividades estavam um desembarque anfíbio, uma marcha noturna de cerca de 32 quilômetros e exercícios de combate em curta distância.

Segundo indicaram jornais britânicos, o treinamento reproduziu elementos da Operação Sutton, quando forças do Reino Unido desembarcaram em San Carlos para retomar as ilhas ocupadas pela Argentina em 1982 durante a Guerra das Malvinas, um dos momentos mais tensos da América do Sul no século XX.

O Ministério da Defesa britânico afirmou que mantém presença militar permanente nas ilhas e classificou o treinamento como uma atividade rotineira, mas para analistas, a operação foi vista como uma demonstração de força em um momento em que a Argentina volta a contestar o domínio britânico sobre o arquipélago.

Do outro lado, Londres demonstra que possui tropas treinadas para reagir a uma tentativa de alterar pela força o controle das ilhas. O Reino Unido mantém uma estrutura militar nas ilhas, incluindo a Base Aérea de Mount Pleasant, caças Eurofighter Typhoon, defesa antiaérea terrestre e presença naval.

Inglaterra mantém “domínio inegociável” sobre as ilhas

Em 1982, Argentina e Inglaterra travaram um sangrento conflito pelo arquipélago, que resultou na morte de 649 militares argentinos, 255 britânicos e 3 civis das ilhas, segundo os números oficiais.

O embate é muito mais antigo do que a guerra travada com recursos modernos no século XX. Depois de tomar posse das ilhas na década de 1820, a Argentina, já independente da Espanha, viu suas autoridades expulsas do arquipélago pelos britânicos em 1833.

Quase 150 anos depois, os argentinos lançaram a Operação Rosário com o objetivo de retomar o controle do território, dando início à Guerra das Malvinas. Em resposta, o governo britânico mobilizou cerca de 28 mil militares e uma extensa frota naval para confrontar os argentinos.

Após cerca de dois meses de conflitos no mar e em terra, as forças argentinas se renderam. Desde então, o Reino Unido tem reforçado seu posicionamento sobre a posse das ilhas.

Londres considera a soberania das Ilhas Malvinas inegociável e defende o direito à autodeterminação da população local. Os britânicos rejeitam qualquer exigência de transferência de controle para a Argentina.

Já o governo de Milei, após eleito, reiterou sua disposição de retomar as negociações bilaterais com o Reino Unido a respeito da disputa de soberania sobre as Ilhas Malvinas, embora até o momento, nenhum diálogo tenha avançado.

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