Escondidos entre a vegetação que descia o Rio Paraguai, atacantes alcançaram os conveses do Lima Barros e do Cabral em março de 1868; tripulações resistiram até a intervenção de outros navios da Esquadra
Por volta das duas horas da madrugada, o guarda-marinha José Roque da Silva percebeu algo incomum na vegetação que descia o Rio Paraguai. Ao se aproximar para examinar aquelas massas flutuantes, descobriu que elas escondiam canoas com soldados armados. Os brasileiros estavam prestes a enfrentar uma tentativa de captura de seus encouraçados.
Era 2 de março de 1868, durante a Guerra do Paraguai. Nas proximidades de Humaitá, os navios Lima Barros e Cabral seriam alcançados pelos atacantes, que subiriam aos conveses e obrigariam parte das tripulações a combater protegida no interior das embarcações.
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O episódio é reconstruído pelo vice-almirante Luiz Edmundo Brígido Bittencourt no estudo Os ataques das canoas paraguaias aos encouraçados fluviais brasileiros, publicado na Revista Marítima Brasileira. A operação reuniu camuflagem, aproximação pela correnteza e confronto a curta distância.
Guarda-marinha descobriu soldados entre as plantas flutuantes
A vegetação oferecia uma cobertura para a aproximação. Conhecidas como camalotes, essas massas de plantas desciam o rio e ajudavam a disfarçar as pequenas embarcações que transportavam os paraguaios.
José Roque da Silva estava em serviço de vigilância quando identificou o perigo. Após reconhecer os homens armados, dirigiu-se aos navios para avisar sobre o ataque.
Outra narrativa do episódio aparece nas memórias do maquinista inglês Frederico H. Sawyer, publicadas com comentários do historiador Francisco José Corrêa-Martins na revista Navigator, da Marinha. Sawyer descreveu o guarda-marinha percebendo lâminas de sabres entre a folhagem ao examinar os supostos camalotes.

O alerta, porém, foi seguido pela chegada dos atacantes. A vigilância havia descoberto a aproximação, mas os paraguaios conseguiram alcançar as embarcações brasileiras.
Relato descreve 24 canoas com cerca de 12 homens cada
Segundo o relato de George Thompson reproduzido na Revista Marítima Brasileira, a força atacante utilizou 24 canoas, com aproximadamente 12 homens em cada uma. Os soldados levavam principalmente sabres, além de granadas de mão e foguetes destinados ao ataque aos encouraçados.
A missão pretendia capturar navios brasileiros. Para isso, os atacantes precisavam sair das canoas, ocupar os conveses e vencer a resistência das guarnições.
A correnteza também interferiu na aproximação. Conforme os relatos reunidos por Bittencourt, parte das embarcações se desviou dos alvos durante o avanço.
Invasores alcançaram os conveses do Lima Barros e do Cabral
Os paraguaios conseguiram subir aos dois encouraçados. O combate passou a ocorrer a bordo, com homens armados circulando pelos conveses enquanto os brasileiros procuravam resistir e alcançar posições protegidas.
Uma característica dos navios fluviais é que seus conveses ficavam próximos da superfície da água, facilitando a passagem de um atacante que chegasse em uma canoa.
No Lima Barros, morreu o capitão de mar e guerra Joaquim Rodrigues da Costa, chefe da divisão. O comandante do encouraçado, Garcindo de Sá, ficou gravemente ferido e conseguiu abrigar-se em uma torre.
Enquanto havia confronto nas áreas externas, parte das tripulações brasileiras continuava resistindo a partir do interior dos navios. A presença dos invasores nos conveses ainda precisava ser enfrentada para impedir a captura das embarcações.
Silvado abriu fogo contra os atacantes nos navios brasileiros
A reação envolveu outras unidades da Esquadra. O Silvado teve participação decisiva no socorro, aproximando-se dos encouraçados abordados para atacar os paraguaios que ocupavam suas áreas externas.
O Herval também participou da resposta. Os navios de apoio dispararam metralha contra os conveses ocupados, enquanto os defensores permaneciam protegidos no interior das embarcações.
A intervenção atingiu os grupos que haviam conseguido embarcar e ajudou a encerrar a tentativa de captura. O registro histórico do encouraçado Brasil, mantido pela Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, também relaciona sua participação no combate de 2 de março.
Lima Barros e Cabral permaneceram em poder dos brasileiros. A operação paraguaia havia conseguido levar soldados até os conveses, mas a resistência das guarnições e o auxílio da Esquadra impediram a tomada dos navios.
Combate deixou mortos e feridos, com divergências nos registros
A madrugada terminou com mortes e ferimentos dos dois lados. A Revista Marítima Brasileira apresenta contagens diferentes conforme os autores consultados, o que exige cuidado ao indicar um total de participantes ou de baixas.
A sequência central do acontecimento está documentada com a aproximação encoberta pela vegetação, a descoberta feita pelo guarda-marinha, a abordagem dos dois encouraçados e a reação brasileira com apoio de outras embarcações.
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