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Grupo sul-coreano vence contrato de milhões para construir navio militar americano em estaleiro da Filadélfia: embarcação será destinada a levar fuzileiros navais e equipamentos militares até áreas costeiras

Um grupo sul-coreano foi escolhido para construir nos Estados Unidos um navio da marinha de desembarque médio. Conheça o estaleiro, a frota americana planejada e o cronograma até 2030

Bassani
Por Bassani 03/11/2026 às 21:05
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Grupo sul-coreano vence contrato de milhões para construir navio militar americano em estaleiro da Filadélfia: embarcação será destinada a levar fuzileiros navais e equipamentos militares até áreas costeiras
Um grupo sul-coreano foi escolhido para construir nos Estados Unidos um navio da marinha de desembarque médio. Conheça o estaleiro, a frota americana planejada e o cronograma até 2030

Um estaleiro da Filadélfia que produziu navios para formar futuros oficiais da marinha mercante americana vai construir uma embarcação destinada a levar fuzileiros navais e equipamentos militares até áreas costeiras. A escolha foi anunciada pela TOTE Services em 30 de outubro: a Hanwha Defense USA, ligada ao grupo industrial sul-coreano Hanwha, venceu a seleção para construir um navio de desembarque médio da Marinha dos Estados Unidos por US$ 269 milhões. O acordo prevê opções para outras três unidades; a encomenda inicial confirmada é de um navio.

A novidade combina dois movimentos. É a primeira seleção da Hanwha Defense USA para fabricar um navio da Marinha americana e ocorre quando Washington procura ampliar a capacidade de seus estaleiros sem depender exclusivamente dos tradicionais construtores de grandes combatentes. A produção está prevista para começar no último trimestre de 2027, com entrega do primeiro navio do programa estimada para 2030, segundo o comunicado mais recente. A construção ficará em solo americano, mas sob um grupo de origem sul-coreana que comprou a instalação industrial em 2024.

O contrato de US$ 269 milhões é para um navio; a frota planejada tem 35

O nome do projeto é Medium Landing Ship, abreviado LSM, ou navio de desembarque médio. Trata-se de uma embarcação militar destinada a transportar tropas, veículos, combustível e suprimentos entre bases e locais de desembarque. Diferentemente de um porta-aviões ou grande navio anfíbio, o objetivo é chegar a costas pouco preparadas, descarregar a força e seguir para outra posição. Esse tipo de mobilidade ganhou peso no planejamento americano para as ilhas e áreas litorâneas do Indo-Pacífico.

O anúncio envolve números que não podem ser colocados na mesma conta. Os US$ 269 milhões correspondem à construção da primeira unidade atribuída à Hanwha, com até três navios adicionais previstos como opções. Separadamente, a TOTE recebeu da Marinha um contrato de US$ 2,2 bilhões para gerenciar uma etapa inicial que pode reunir até oito embarcações. O planejamento de longo prazo é de uma frota de 35 LSM. Não existe, nesses documentos, autorização para afirmar que a Hanwha já venceu a fabricação dos 35 navios.

Em julho de 2026, quando anunciou a contratação da TOTE, a Marinha identificou a Bollinger Shipyards e a Fincantieri Marinette Marine como estaleiros direcionados a participar da produção inicial. A TOTE posteriormente abriu uma concorrência para outros espaços de construção e escolheu a Hanwha como sua primeira vencedora desse procedimento. O resultado mostra como o programa foi dividido entre várias instalações, em vez de concentrar todos os cascos em um único estaleiro.

Por que um navio relativamente pequeno virou prioridade para os fuzileiros americanos

O Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA passou a dar mais importância a unidades capazes de se mover entre ilhas, usar posições temporárias e trocar rapidamente de local. Em uma região de longas distâncias e arquipélagos, um navio enorme pode entregar uma grande quantidade de material de uma só vez, mas também representa um alvo relevante e exige portos ou estruturas mais complexas. O LSM foi pensado para uma tarefa diferente: sustentar a movimentação frequente de unidades menores em lugares sem infraestrutura portuária completa.

Isso explica o interesse em uma embarcação capaz de encostar em uma praia e utilizar uma rampa para descarregar veículos. O projeto-base escolhido pela Marinha americana deriva do LST 100, da construtora naval holandesa Damen, uma família de navios concebida para levar equipamentos diretamente do mar à terra. A configuração divulgada para orientar o LSM tem aproximadamente cem metros de comprimento e deslocamento próximo a quatro mil toneladas. Esses dados são referências do projeto-base, não a confirmação das dimensões definitivas de cada unidade que será construída na Filadélfia.

Em sua análise publicada após a seleção, o Naval News aponta exigências do programa que incluem capacidade de transportar mais de 500 toneladas de carga militar, velocidade sustentada em torno de 15 nós, autonomia mínima de 3.400 milhas náuticas e espaço de pouso na popa para aeronaves de asas rotativas ou de decolagem vertical. São requisitos e características do conceito de embarcação; não equivalem a resultados de testes de um navio que ainda não foi construído.

Na prática, um LSM deve transportar o que mantém pequenas forças em funcionamento: combustível, munição, comida, equipamentos de manutenção e veículos. Seu valor está na repetição dessas viagens, em vez de funcionar como a principal plataforma de combate de uma frota. A ideia de operar distribuído faz sentido apenas se as unidades em terra puderem continuar recebendo recursos e se os navios conseguirem se deslocar com segurança entre as posições.

Navios-escola abriram caminho para a Hanwha entrar na construção militar americana

A fábrica escolhida, Hanwha Philly Shipyard, possui uma experiência recente que pesou no argumento apresentado pelas empresas. Ali foram construídos navios do programa National Security Multi-Mission Vessel, conhecido como NSMV. São embarcações para treinamento de profissionais do mar e apoio em emergências, sob responsabilidade da agência marítima federal americana. Segundo a Hanwha, o estaleiro já construiu e entregou quatro desses navios sob o sistema de gerenciamento utilizado pela TOTE.

Navio de treinamento Patriot State atracado no estaleiro Philly Shipyard em janeiro de 2024
O Patriot State, do programa americano de navios de treinamento NSMV, em fotografia de janeiro de 2024 no estaleiro da Filadélfia; não é um LSM nem foi construído sob o contrato militar anunciado em 2026. Crédito: Oleg Yunakov / Wikimedia Commons. Arquivo original e licença — CC BY-SA 4.0.

Há diferenças importantes entre um navio-escola e uma embarcação para transportar tropas em área de risco. O LSM deverá cumprir requisitos militares próprios de operação e sobrevivência. Mesmo assim, a experiência anterior fornece instalações, pessoal e fornecedores para a produção de grandes cascos. A Hanwha afirma ter investido em trabalhadores, treinamento e tecnologia desde a aquisição do antigo Philly Shipyard, em 2024. A compra pelo conglomerado sul-coreano não mudou o endereço da construção nem transformou o contrato em uma importação de navios prontos da Coreia.

A seleção abre outra frente de trabalho para a indústria naval da Filadélfia. Ao lado dos estaleiros tradicionais de navios de guerra, Washington tenta utilizar estruturas que já sabem produzir embarcações comerciais ou de apoio, desde que consigam atender aos requisitos militares. Para a equipe da Filadélfia, a passagem da produção de navios-escola para o programa LSM exige manter uma linha de montagem ativa até o período previsto para o início do trabalho, no fim de 2027.

Instalações industriais no Philly Shipyard fotografadas em 2016 por SteelMaster Buildings
Fotografia de instalações do mesmo estaleiro na Filadélfia em 2016, anterior à compra pelo conglomerado Hanwha em 2024 e ao contrato de navio militar de 2026. Crédito: SteelMaster Buildings / Wikimedia Commons. Arquivo original e licença — CC BY-SA 2.0.

Marinha mudou o caminho da compra depois de atrasos e custos acima do previsto

O programa LSM não chegou a esse contrato sem dificuldades. Em relatório divulgado em março de 2025, o órgão federal americano de fiscalização de contas, o GAO, avaliou que os planos de projeto anteriores eram pouco realistas e contribuíram para atrasos. Estudos com a indústria mostraram que modelos já existentes precisariam de mudanças importantes para cumprir exigências como capacidade de combustível, aproximação à praia e proteção do navio.

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Naquele diagnóstico, uma análise de custos da Marinha indicou que adaptações para requisitos de sobrevivência poderiam elevar o preço de cada casco em mais de US$ 115 milhões. Uma licitação prevista para o navio inicial acabou cancelada em dezembro de 2024, após propostas consideradas muito superiores ao custo esperado. Esses problemas são anteriores à contratação atual; não significam que o valor de US$ 269 milhões da Hanwha já tenha sofrido esse acréscimo.

Como resposta, a Marinha escolheu um desenho-base considerado mais maduro e mudou a administração da construção. Em vez de negociar toda a produção diretamente com um único estaleiro, a Marinha contratou a TOTE para organizar fornecedores, acompanhar cronogramas e gerenciar subcontratos. A TOTE diz que busca padronizar o projeto entre os construtores e usar compras de materiais em conjunto, tentando reduzir atrasos quando a produção ocorrer em mais de uma fábrica.

A diferença entre previsão e entrega aparece nas próprias datas oficiais. Em julho, ao anunciar o contrato de gerenciamento, a Marinha citava o outono de 2029 como expectativa para o primeiro LSM. No anúncio posterior de outubro, TOTE e Hanwha passaram a apontar 2030. A mudança de calendário não prova novo atraso contratual da Hanwha, que acaba de ser selecionada; evidencia que o programa ainda tem metas de produção e entrega sujeitas a revisão.

No Brasil, construção naval militar segue outra escala e outro tipo de navio

A notícia interessa ao Brasil pelo contraste de modelos industriais, não por uma participação brasileira que não foi anunciada. A Marinha do Brasil constrói em Itajaí, Santa Catarina, as fragatas da classe Tamandaré, em um programa executado em território nacional com transferência de tecnologia e participação de diferentes empresas. A primeira unidade foi incorporada à Esquadra em abril de 2026, enquanto as outras três seguiam em construção, conforme a Marinha. São navios de escolta com uma missão muito diferente da dos LSM americanos.

Nos Estados Unidos, a solução em curso combina um administrador de construção, um projeto-base de origem europeia e estaleiros em território americano, inclusive um pertencente a grupo asiático. No Brasil, o programa Tamandaré procura criar capacidade industrial local para fragatas e manutenção futura. Não se trata de comparar diretamente preços ou quantidade de cascos, pois os navios têm portes, armamentos e finalidades diferentes. O ponto comum é o desafio de manter pessoal especializado, suprimentos e cronogramas em uma indústria que não pode ser reativada da noite para o dia.

A primeira tarefa da Hanwha será preparar as instalações e os fornecedores para iniciar a construção no quarto trimestre de 2027. A previsão de entrega do primeiro LSM é 2030, três anos depois do começo anunciado das obras. Até lá, a Marinha terá de confirmar que o projeto padronizado pode ser produzido em diferentes estaleiros e servir às operações de desembarque para as quais foi escolhido.

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