Pesquisa da Serasa mostra que quatro em cada dez brasileiros que possuem aplicações financeiras já recorreram aos próprios investimentos para quitar dívidas. Especialistas apontam que juros elevados, custo de vida crescente e orçamento apertado estão levando famílias a utilizar reservas financeiras para evitar o agravamento do endividamento.
O avanço da inadimplência e a pressão do custo de vida estão mudando o comportamento financeiro dos brasileiros. Uma pesquisa da Serasa revelou que 40% das pessoas que possuem investimentos já precisaram resgatar parte das aplicações para pagar dívidas, movimento que reflete o aperto no orçamento de milhares de famílias.
O levantamento mostra que, entre aqueles que recorreram aos investimentos, 52% afirmaram que a necessidade imediata de dinheiro foi o principal motivo para o resgate. O dado evidencia uma realidade cada vez mais frequente: mesmo quem conseguiu formar algum patrimônio financeiro tem utilizado essa reserva para enfrentar dificuldades de curto prazo.
Mais do que um indicador de organização financeira, o cenário também revela o peso que juros elevados e inflação acumulada exercem sobre o orçamento doméstico. Nos últimos anos, investir deixou de ser um hábito restrito às faixas de renda mais altas, mas a capacidade de manter esse patrimônio continua diretamente ligada à renda disponível.
Custo de vida elevado reduz capacidade de formar patrimônio
Segundo o economista e professor da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Rafael Disconzi, o cenário reflete um ambiente de forte pressão financeira.
Na avaliação do especialista, o aumento do custo de vida, o elevado nível de endividamento das famílias e as taxas de juros ainda altas comprometem a capacidade de pagamento e dificultam a formação de poupança.
Esse comportamento costuma aparecer em momentos de maior aperto econômico. Quando despesas básicas passam a consumir parcela crescente da renda, a reserva financeira deixa de ser apenas um instrumento para objetivos futuros e passa a funcionar como uma ferramenta de sobrevivência financeira.
Ainda assim, Disconzi ressalta que manter uma reserva de emergência continua sendo um dos pilares da saúde financeira, ao lado da organização das contas e dos investimentos voltados para objetivos de longo prazo.
Quando usar investimentos para quitar dívidas pode ser a melhor decisão
Embora retirar dinheiro de aplicações financeiras possa parecer um retrocesso, especialistas afirmam que essa decisão pode ser financeiramente correta em determinadas situações.
Segundo Rafael Disconzi, o resgate faz sentido principalmente quando os juros da dívida são superiores ao rendimento do investimento, situação comum em modalidades como cartão de crédito, cheque especial e crédito rotativo.
Nesses casos, quitar a dívida reduz um custo financeiro que dificilmente seria compensado pelos ganhos obtidos com aplicações tradicionais.
O economista alerta, porém, que cada caso exige análise individual. Antes do resgate, é importante considerar fatores como incidência de Imposto de Renda, perda de rentabilidade, liquidez do investimento e necessidade de preservar uma reserva para imprevistos.
Nem toda aplicação deve ser utilizada para pagar dívidas sem uma avaliação cuidadosa do custo-benefício.
Empreendedora utilizou CDB, previdência e fundos para reorganizar as finanças
Foi exatamente essa lógica que levou a empreendedora Ana Paula Lopes, de 43 anos, a utilizar parte dos recursos investidos para reorganizar o orçamento familiar.
Ela decidiu resgatar aplicações em CDB, previdência privada e fundos de investimento para quitar o financiamento do carro, cujas parcelas estavam comprometendo as despesas mensais.
Segundo Ana Paula, a decisão evitou que a família recorresse ao cheque especial, modalidade conhecida pelos juros elevados.
“Na ponta do lápis, não cabe ter o dinheiro guardado e pagar juros ao banco, porque os juros que tu recebes não cobrem. A reserva existe justamente para momentos de emergência”, afirmou.
A empreendedora também mantém um controle rigoroso das despesas domésticas, registrando receitas e gastos para reduzir o risco de voltar ao endividamento.
Serasa vê avanço da educação financeira, mas alerta para baixa folga no orçamento
Para Aline Vieira, especialista em Educação Financeira da Serasa, o levantamento mostra dois movimentos acontecendo ao mesmo tempo.
De um lado, há uma maior preocupação dos brasileiros em organizar a vida financeira e utilizar recursos próprios antes que as dívidas cresçam ainda mais.
De outro, os dados revelam que muitas famílias ainda possuem pouca margem financeira para enfrentar imprevistos sem recorrer às economias acumuladas.
Segundo ela, investir vai muito além da busca por rentabilidade.
Construir patrimônio também significa preservar o poder de compra, planejar objetivos futuros e aumentar a segurança financeira diante de situações inesperadas.
A pesquisa mostra que esse entendimento vem ganhando espaço entre os brasileiros.
43% dos entrevistados afirmaram que sua situação financeira melhorou depois que começaram a investir, enquanto 76% disseram que gostariam de aprender mais sobre investimentos.
Mulheres enfrentam mais dificuldade para formar reserva financeira
Outro levantamento realizado pela Serasa, com foco nas diferenças entre homens e mulheres, aponta que a construção de uma reserva de emergência continua sendo um desafio maior para o público feminino.
Segundo a pesquisa, 81% das mulheres não possuem reserva de emergência, percentual 12 pontos percentuais superior ao observado entre os homens.
Apenas 17% das mulheres conseguem pagar todas as contas e ainda guardar dinheiro. Entre os homens, esse índice chega a 29%.
A renda insuficiente também aparece como um obstáculo relevante.
Enquanto 30,3% das mulheres afirmam que os ganhos não são suficientes para cobrir despesas e permitir investimentos, entre os homens esse percentual é de 21,5%.
Os números ajudam a explicar por que a educação financeira, embora tenha avançado significativamente nos últimos anos, ainda enfrenta um desafio estrutural: para muitas famílias, o problema deixou de ser apenas aprender a investir e passou a ser encontrar espaço no orçamento para começar.
A tendência é que o comportamento dos consumidores continue sendo acompanhado de perto por instituições financeiras e especialistas. Com juros ainda elevados e custo de vida pressionando o orçamento das famílias, a capacidade dos brasileiros de manter investimentos e, ao mesmo tempo, reduzir a inadimplência deve permanecer como um dos principais indicadores da saúde financeira do país nos próximos meses.