O documento de 333 páginas, publicado em março de 2026, detalha os avanços da Marinha na renovação da Esquadra, na construção de submarinos e no desenvolvimento da propulsão nuclear, sob um cenário de reprogramação de despesas e metas adiadas
A Marinha do Brasil avançou em 2025 na renovação de sua Esquadra, na construção de submarinos, no desenvolvimento da propulsão nuclear e na ampliação da capacidade de vigilância da Amazônia Azul. Os resultados foram alcançados sob severas restrições orçamentárias, que obrigaram a Força a reprogramar despesas, adiar metas e concentrar recursos nos projetos considerados prioritários.
Segundo o Relatório de Gestão 2025 do Comando da Marinha, publicado em março de 2026, o documento reúne informações sobre operações militares, projetos estratégicos, atendimento à população, segurança da navegação, gestão de pessoal e execução financeira. A Força é responsável por uma área marítima de aproximadamente 5,7 milhões de quilômetros quadrados, uma região de busca e salvamento superior a 14,1 milhões de quilômetros quadrados e uma malha hidroviária com cerca de 63 mil quilômetros de rios navegáveis. Não é um território qualquer: por ele passam aproximadamente 95% do comércio exterior brasileiro e 99% das comunicações internacionais do país, que dependem dos cabos submarinos distribuídos ao longo do litoral.
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PROSUB entrega o Tonelero e lança o Almirante Karam
O Programa de Desenvolvimento de Submarinos concentrou alguns dos principais marcos do ano. O Tonelero (S42), terceiro submarino brasileiro da classe Scorpène construído no país com apoio do Naval Group, realizou sua primeira imersão dinâmica em janeiro de 2025, a primeira imersão em profundidade em março e um lançamento de armas em julho, antes de ser formalmente entregue ao setor operativo em 26 de novembro, na base naval de Itaguaí.
Na mesma data, a Marinha lançou ao mar o Almirante Karam (S43), quarta unidade convencional da classe Riachuelo — o navio havia concluído o embarque das baterias em junho e recebido a primeira carga completa no mês seguinte. O PROSUB prevê a construção de quatro submarinos convencionais derivados do projeto francês Scorpène, a implantação de infraestrutura industrial e de apoio em Itaguaí e, como objetivo de maior complexidade, a obtenção do primeiro Submarino Nuclear Convencionalmente Armado (SNCA) brasileiro. O relatório destaca que a transferência de tecnologia associada aos contratos busca capacitar o país a projetar, construir e manter submarinos convencionais e nucleares, reduzindo a dependência de fornecedores estrangeiros.
A infraestrutura também avançou. Na Base de Submarinos da Ilha da Madeira, foram entregues o prédio do comando, a subestação dos cais 3 e 4 e a estação de tratamento de efluentes, esta última ainda com pendências. Os tanques de óleo combustível e o prédio administrativo do Centro de Instrução e Adestramento Almirante Áttila Monteiro Aché estavam em fase final de execução. No Estaleiro de Manutenção da Ilha da Madeira, foi entregue uma oficina de apoio à manutenção dos motores diesel, enquanto seguiam em andamento a montagem e o comissionamento das bancadas da sala limpa destinada aos serviços especializados nos submarinos. O ano também trouxe o terceiro período de manutenção atracado do submarino Humaitá e o início da primeira docagem de rotina do Riachuelo. Ao final de 2025, a Marinha registrava cerca de R$ 2,7 milhões inscritos em restos a pagar, relacionados principalmente à compra, no exterior, de sobressalentes para os submarinos da classe Riachuelo.
Não é a primeira vez que um programa estratégico de defesa reporta avanço físico abaixo da meta sem que isso signifique atraso real de execução — no caso do SNCA, o relatório atribui parte da diferença a uma mudança de metodologia recomendada pelo próprio Tribunal de Contas da União, que deixou de contabilizar a transferência de tecnologia como ativo incorporado ao programa e passou a tratá-la como despesa do exercício.
No projeto do futuro submarino nuclear, o relatório destaca a conclusão da parametrização das máquinas semiautomáticas de soldagem e da fabricação de ferramentas e gabaritos empregados na produção do casco, além de etapas de consultoria técnica relacionadas aos sistemas e equipamentos especiais. Em junho de 2025, a Marinha assinou dois contratos para aquisição de pacotes de materiais importados destinados ao SNCA e realizou os pagamentos iniciais necessários para que os instrumentos entrassem em vigor — as entregas começam nos próximos anos.
Programa Nuclear avança e fragatas Tamandaré fazem testes de mar
Fonte: Agência Marinha de Notícias
O Programa Nuclear da Marinha também avançou no desenvolvimento do ciclo do combustível nuclear e do Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE), protótipo em terra da planta nuclear que deverá equipar o futuro submarino — ele permite testar reator, sistemas de geração de energia, controles e equipamentos auxiliares antes da instalação em uma plataforma naval. Em 2025, a meta de avanço físico do LABGENE era de 1,5%; o resultado informado foi de 1,7%. Entre as atividades realizadas estão a conclusão de obras civis no Prédio Auxiliar Controlado, a prontificação de painéis e sistemas da sala de controle e a continuidade do licenciamento junto à Autoridade Nacional de Segurança Nuclear. A Marinha também avançou na elaboração dos documentos de segurança do depósito intermediário de rejeitos do ciclo do combustível e concluiu o Curso de Treinamento Básico do LABGENE para parte do pessoal envolvido. Somando ciclo do combustível e LABGENE, o programa alcançou 66,8% de execução física acumulada — abaixo da trajetória inicialmente planejada, o que exigirá compensar a diferença nos exercícios seguintes.
O Programa Fragatas Classe Tamandaré registrou três marcos em 2025: a realização dos testes de mar da primeira fragata, o lançamento da Jerônimo de Albuquerque e o batimento de quilha da Cunha Moreira. As quatro fragatas fazem parte do esforço de renovação dos principais meios de escolta da Esquadra e são apresentadas pela Marinha também como projeto de fortalecimento da construção naval brasileira e de aquisição de conhecimento em engenharia, integração de sistemas e gerenciamento de produção. O processo emprega uma plataforma digital sem papel e um modelo modular, no qual os blocos dos navios são produzidos simultaneamente antes da união final.
Entre os componentes tecnológicos das fragatas estão:
- Sistema de gerenciamento de combate, desenvolvido pela Atech em parceria com a Atlas Elektronik, que integra 22 componentes relacionados a sensores, comunicações e armamentos;
- Sistema integrado de gerenciamento da plataforma, produzido pela Atech em parceria com a L3Harris, que monitora e controla 68 sistemas, incluindo propulsão, geração de energia, equipamentos auxiliares e controle de avarias.
Segundo o relatório, a transferência de tecnologia associada ao programa consolidou no Brasil conhecimentos aplicáveis não apenas aos navios, mas também a futuras infraestruturas terrestres de comando e controle.
Navios-patrulha atrasam, Oiapoque é esperado até o fim de 2026
A construção dos navios-patrulha Mangaratiba e Miramar, de 500 toneladas cada, continuou em 2025, mas foi afetada pelo bloqueio de recursos. No Mangaratiba, houve avanços nos sistemas de propulsão e geração elétrica, nas estruturas e no acabamento; no Miramar, foi iniciada a construção do casco em blocos. A Marinha reconheceu que a restrição orçamentária obrigou a readequar o planejamento e transferir parte das metas físicas para o exercício seguinte — as embarcações serão usadas em patrulha naval, proteção das plataformas de petróleo e gás, fiscalização das águas jurisdicionais e repressão a atividades ilícitas.
O Programa de Consolidação da Brigada Anfíbia do Rio de Janeiro (PROADSUMUS) registrou a entrega de dez viaturas operativas pesadas não blindadas Unimog ao Corpo de Fuzileiros Navais, ampliando a mobilidade logística e a capacidade de pronta resposta em operações militares, apoio à defesa civil e missões humanitárias.
O Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz) prosseguiu na expansão da consciência situacional marítima, com avanços na Unidade de Vigilância de Castelhanos e no fornecimento de dados de radar na região do Albardão, no extremo sul do litoral. O sistema reúne informações de radares, sensores, satélites, aeronaves, navios e órgãos civis para formar um quadro integrado das atividades nas águas jurisdicionais brasileiras.
O relatório detalha ainda a aquisição do futuro Navio-Doca Multipropósito Oiapoque (G350), antigo HMS Bulwark da Marinha Real Britânica. O contrato foi assinado em 2025, e grupos da futura tripulação foram enviados ao Reino Unido para cursos, familiarização a bordo e acompanhamento da preparação do navio, que deverá ser transferido à Marinha na condição “Ready to Sail” até o fim de 2026. O Oiapoque poderá transportar tropas, veículos, equipamentos, embarcações de desembarque e aeronaves, além de receber hospitais de campanha e um centro integrado de planejamento e controle — capacidades que permitirão seu uso em operações anfíbias, proteção de brasileiros no exterior, diplomacia naval e resposta a desastres naturais. A aquisição é feita em parceria com o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional: em 2025, a ação orçamentária registrou dotação e empenho de R$ 1 milhão; o planejamento prevê R$ 150 milhões em 2026 e parcelas anuais de R$ 109,2 milhões entre 2027 e 2031.
Operações internacionais e atendimento à população somam números expressivos
A Marinha manteve ampla agenda de treinamento no Brasil e no exterior. Entre as operações internacionais estiveram a Jeanne d’Arc, com a França; a UNITAS LXVI; a FRATERNO XXXVIII, com a Argentina; e a GUINEX-V e Obangame Express, no Golfo da Guiné. No território nacional, destacaram-se as operações Atlas, Aspirantex, Furnas e os exercícios de lançamento de armas e ADEREX.
Alguns números ilustram a escala dessas operações:
- A Operação Atlas ocupou 94 dias, envolveu 6.379 militares, dez navios, 11 aeronaves e 45 meios do Corpo de Fuzileiros Navais, com 15.271 milhas náuticas navegadas;
- A UNITAS LXVI durou 92 dias, envolveu uma unidade naval brasileira, uma aeronave e 277 militares, com 10.515 milhas náuticas percorridas;
- A Jeanne d’Arc mobilizou 736 militares, quatro navios, uma aeronave e nove meios dos Fuzileiros Navais durante 20 dias.
Nas atividades subsidiárias, voltadas principalmente a regiões ribeirinhas e comunidades de difícil acesso, o balanço de 2025 registrou:
- 26.568 atendimentos médicos;
- 7.696 atendimentos odontológicos;
- 62.929 atendimentos de enfermagem;
- 103.910 exames;
- distribuição de 1.133.793 medicamentos.
Na formação profissional, foram capacitados 17.793 aquaviários, 1.796 trabalhadores portuários e 214 mergulhadores. O Programa Forças no Esporte mobilizou 39 organizações militares e atendeu 5.410 alunos, enquanto o Projeto Soldado-Cidadão profissionalizou 2.301 jovens que haviam concluído o serviço militar inicial. A força de trabalho da Marinha totalizava 69.504 pessoas, distribuídas por 419 organizações militares.
Como Autoridade Marítima Brasileira, a Marinha inspecionou 263.861 embarcações durante o ano. As fiscalizações resultaram em:
- 15.494 notificações;
- 9.627 autuações;
- 2.119 apreensões;
- 732 inquéritos instaurados relacionados a acidentes e fatos da navegação.
A Força emitiu 85.915 habilitações, renovou outras 47.008 destinadas ao esporte e recreio e processou mais de 40 mil inscrições de embarcações. Na segurança da navegação, foram realizadas 254 operações de busca e salvamento, 194 levantamentos hidrográficos, 792 serviços de manutenção de auxílios à navegação e a produção ou atualização de 151 cartas náuticas. O país contava com 803 auxílios à navegação sob responsabilidade da Marinha, 13 radiofaróis e dois sistemas de controle de tráfego marítimo em operação, além de outros 11 sistemas em implantação.
Restrição orçamentária ameaça previsibilidade dos programas estratégicos
Apesar dos avanços, a restrição financeira aparece como preocupação transversal em praticamente todo o relatório. A Lei Orçamentária Anual foi sancionada somente em 10 de abril de 2025, obrigando a Marinha a conduzir os primeiros meses do exercício sob regime restritivo. Depois, a contenção de despesas do Poder Executivo e a limitação permanente do movimento de empenho exigiram sucessivas reprogramações — a recomposição de recursos foi apenas parcial, e a administração naval precisou priorizar despesas ligadas à prontidão operacional, à manutenção dos meios e aos programas considerados estratégicos.
A Lei Complementar nº 221, aprovada durante o exercício, foi classificada como relevante para o financiamento das ações de Defesa. A Marinha observa, porém, que a medida não resolve o problema estrutural da falta de um fluxo regular e previsível de recursos. A avaliação institucional é que a instabilidade ameaça não apenas os cronogramas, mas também a preservação da Base Industrial de Defesa e dos conhecimentos tecnológicos adquiridos ao longo de décadas.
O balanço de 2025 mostra, assim, duas realidades simultâneas: uma Marinha em amplo processo de transformação tecnológica — com o Tonelero entregue, o Almirante Karam lançado, as fragatas Tamandaré em testes de mar e o programa nuclear avançando em etapas industriais — e uma estrutura financeira que ainda não oferece a previsibilidade necessária para sustentar esse ritmo. A execução orçamentária de 2026, e sua eventual estabilização por meio de mecanismos como a Lei Complementar nº 221, deve ser o próximo ponto de checagem para saber se os cronogramas do PROSUB, do programa nuclear e das fragatas Tamandaré conseguem voltar à trajetória originalmente planejada.
Fonte: Poder Naval