Na hierarquia militar, há cursos que costumam ser reservados aos oficiais de mais alta patente. Um deles é o de altos estudos em Defesa Nacional, feito por quem se prepara para funções de estado-maior e assessoria estratégica.
Foi justamente esse curso que um praça da Marinha do Brasil concluiu na Argentina, num feito inédito. O Suboficial Evaneilmo de Morgado se tornou o primeiro praça das Forças Armadas brasileiras a vencer essa etapa, normalmente destinada a oficiais superiores. A informação foi publicada pelo portal Defesa em Foco.
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Ele é o primeiro praça das Forças Armadas a fazer o curso
Natural de Alagoinhas, na Bahia, com 27 anos de Marinha do Brasil e atuação no Hospital Naval de Salvador, Morgado quebrou uma barreira de carreira. Concluiu o Curso Superior de Defesa Nacional, um estudo de alto nível estratégico.
No Brasil, esse tipo de formação é feito por oficiais superiores. Na Marinha, cabe a oficiais no posto de capitão de corveta. Um suboficial, que é praça, alcançar o mesmo patamar é algo sem precedentes nas Forças Armadas do país.
O curso é feito na Argentina e dura dez meses
A formação foi realizada na Faculdade de Defesa Nacional da Argentina, a FADENA, ligada à Universidade da Defesa Nacional do país vizinho. O curso durou quase dez meses intensos, de fevereiro a novembro de 2025.
A grade reúne disciplinas como geopolítica, estratégia militar, relações internacionais, inteligência estratégica, cibersegurança e planejamento de defesa. É considerado um curso difícil, com seleção criteriosa e exigência de nível superior.
Ele foi o único brasileiro numa turma internacional
Na FADENA, Morgado dividiu a sala com representantes de vários países e foi o único brasileiro da turma. Na prática, representou o Brasil e a Marinha num ambiente acadêmico e militar de alta exigência no exterior.
Além do desafio acadêmico, ele precisou se adaptar ao método de ensino militar-estratégico argentino e a um idioma diferente, o espanhol, exigido nas aulas ao vivo ao longo de todo o ano letivo.
Uma trajetória construída no estudo
A conquista não veio isolada. Morgado acumula uma lista de formações, como bacharelado em Direito, pós-graduação em inteligência estratégica e cursos internacionais na área de direito humanitário e operações de paz.
Foi também o primeiro praça a receber a Medalha Thomé de Souza, a maior honraria da Câmara de Salvador. A soma de títulos desenha o retrato de um militar que fez do estudo a sua principal arma.
No Exército e na Aeronáutica, cursos desse nível dão a oficiais requisitos para subir na carreira. Para um praça, a conquista tem, por ora, mais valor simbólico do que efeito automático na patente, mas amplia o conhecimento que ele pode oferecer à Força.
Uma inspiração para as praças
O caso ganha força porque mexe com a ideia de mérito dentro da caserna. Ele mostra que um militar da base da hierarquia pode alcançar espaços antes restritos aos oficiais, desde que se dedique.
É a mesma lógica de outras histórias de superação que a Sociedade Militar acompanha, como a do policial que saiu da venda de picolé no Sertão até o comando de uma companhia. Trajetórias em que o esforço abre portas que a patente, sozinha, não abriria.
O que vem depois da conquista
Morgado deve passar para a reserva da Marinha nos próximos anos e afirma que pretende seguir na área de educação, ensinando o que aprendeu. O conhecimento trazido da Argentina tende a ser repassado a outros militares e civis.
Para a Marinha, o feito reforça a reputação das Forças Armadas brasileiras no exterior e estreita os laços com a Argentina. E deixa um recado às praças de todo o país: o estudo pode levar mais longe do que a hierarquia sugere.