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Militares denunciam a Força Aérea no MPF e exigem moradia pronta antes de transferência compulsória

Militares denunciam a Força Aérea no MPF e exigem moradia pronta antes de transferência compulsória
Sargentos controladores de voo conversando sobre PNR em construção em Recife - Imagem ilustrativa

Representação pede que a mudança de controladores de tráfego aéreo só aconteça quando os imóveis funcionais prometidos pela Aeronáutica estiverem concluídos, o que, pela previsão oficial, só deve ocorrer em 2027.

Um grupo de controladores de tráfego aéreo da Força Aérea Brasileira (FAB) está prestes a deixar Maceió rumo a Recife, mas a moradia funcional que a própria Aeronáutica prometeu para recebê-los ainda é um canteiro de obras. Uma representação protocolada no Ministério Público Federal (MPF) pede que a transferência só seja concluída quando esses imóveis estiverem prontos e entregues.

A determinação para a mudança foi oficializada em julho, quando a FAB publicou em boletim interno a transferência dos militares do destacamento de controle de Maceió para o Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo (CINDACTA III), em Recife. A movimentação faz parte do APP Nordeste, projeto que reúne num único edifício, na capital pernambucana, os controles de aproximação hoje espalhados por Recife, Maceió, Fortaleza e Natal.

Captura de tela de DIRAP com ordem de ovimentação de Controladores de Tráfego Aéreo
Captura de tela de DIRAP com ordem de ovimentação de Controladores de Tráfego Aéreo

Moradias ainda no papel

O impasse está na moradia. Segundo a representação, os Próprios Nacionais Residenciais (PNRs), imóveis funcionais destinados aos militares transferidos, seguem em fase inicial de construção. Fotografias registradas em julho mostram um prédio cercado de andaimes, sem acabamento. A previsão de entrega, informada pela própria Aeronáutica em processo no Tribunal de Contas da União (TCU), é para março de 2027.

O detalhe pesa para os militares, segundo relatado por um controlador, que por motivos obvios não quer ser identificado, porque o plano oficial da transferência não tratou a moradia como assunto secundário: previa expressamente a construção das casas em Recife e ações para reduzir o impacto da mudança sobre militares e suas famílias.

Executar a parte mais dura da política, a mudança compulsória, antes de entregar a contrapartida prometida é justamente o que a representação tenta impedir, explica o militar, que menciona ainda a possibilidade de se colocar em serviço controladores de tráfego aéreo com dificuldades por conta da mudança abrupta que afeta toda a família, no meio do ano, além do ônus financeiro causado pela falta de moradias fornecidass pela Força Aérea: “O quadro pode ainda repercutir na continuidade e na segurança do serviço de controle de tráfego aéreo. Pressão financeira, mudança abrupta, separação familiar, dificuldade de moradia e instabilidade psicossocial são fatores capazes de afetar a adaptação profissional“.

Enquanto as obras não terminam, a fila por moradia funcional em Recife não é curta, explica o sargento. A lista oficial da Prefeitura de Aeronáutica local registra dezenas de inscritos e tempo médio de espera de sete meses. Sem PNR disponível, os militares e suas famílias teriam de recorrer ao aluguel, e Recife tem hoje um dos mercados mais caros do país, atrás apenas de São Paulo, segundo o índice FipeZAP de junho.

O que o TCU já havia mencionado sobre o assunto: ausência de análise de custo-benefício

O projeto já passou pelo Tribunal de Contas da União. Em 2025, ao julgar uma denúncia de controladores sobre o APP Nordeste, que alegava “possíveis irregularidades na proposta de centralização dos APPs em Recife com base em aspectos relacionados à infraestrutura e à economicidade da medida“, a instituição considerou a iniciativa parcialmente irregular.

A Força Aérea explicou, entre outros argumentos, que “… o modelo adotado também tem respaldo em experiências internacionais, como o centro MUAC da EUROCONTROL na Europa, e em iniciativas nacionais anteriores, como a consolidação dos APPs de Campinas, São José dos Campos, Santa Cruz e Aracaju, que demonstraram ganhos operacionais, econômicos e ambientais sem comprometer a segurança“.

Na decisão o tribunal não suspendeu nem anulou o projeto, apenas advertiu formalmente a Aeronáutica dando-lhe ciência de irregularidades.

“9.2. dar ciência ao Departamento de Controle do Espaço Aéreo, nos termos do art. 9º da Resolução-TCU 315/2020, de que a ausência de análise de custo-benefício para centralização dos controles de aproximação no APP Nordeste configura afronta aos princípios da legalidade, eficiência e impessoalidade, previstos no art. 37 da Constituição Federal, bem como ao disposto no art. 18, § 1º, incisos VII e IX, da Lei 14.133/2021, além de caracterizar inobservância da recomendação feita por este Tribunal no Acórdão 797/2021-TCU-Plenário;”

Já naquela ocasião, o descompasso aparecia nos autos. O edifício onde funcionará o controle centralizado ficou pronto em agosto de 2024, enquanto as casas para o pessoal transferido continuavam no papel. É esse intervalo, obra operacional entregue, moradia atrasada, que a nova representação leva ao MPF como fato novo.

Um pedido com limites

A representação 20260060693, feita em 26 de julho de 2026, pede que o MPF condicione a mudança à entrega efetiva dos imóveis. Caso a FAB alegue necessidade urgente do serviço, o texto oferece uma saída: que nenhum militar seja obrigado a se apresentar em Recife sem uma solução de moradia adequada, para que o custo do atraso da obra não recaia sobre as famílias.

O resumo da solicitação: “Solicito atuação urgente do MPF para que a execução material da movimentação — apresentação definitiva em Recife e mudança de domicílio — seja condicionada à conclusão e regularização dos PNRs, com emissão do “habite-se” e efetiva disponibilização das unidades aos militares transferidos. Subsidiariamente, requer-se que a FAB forneça solução habitacional individual adequada, sem custos adicionais aos militares, até a entrega dos imóveis. Solicito também a requisição de informações e documentos à FAB, à CISCEA e à Prefeitura do Recife, além de inspeção das obras e comunicação do fato superveniente ao TCU.”

O autor da representação, que pediu para ter a identidade preservada alegando risco profissional, faz questão de delimitar o alcance do pedido. Não reivindica que todo militar tenha direito automático a um imóvel funcional, nem pretende travar a reorganização do controle aéreo. Cobra, segundo explica, apenas coerência entre o que a Aeronáutica prometeu no planejamento e o que está prestes a executar.

A Revista Sociedade Militar encaminhou à Força Aérea um pedido de informações sobre o assunto. Até o fechamento dessa reportagem a instituição ainda não havia apresentado a resposta. O espaço está aberto para publicar eventuais notas ou esclarecimentos sobre o tema.

A expectativa relatada é de que o MPF pode recomendar que a FAB retarde a transferência dos militares ou, se o alerta não for atendido, levar o caso à Justiça Federal em Pernambuco. O próximo passo depende da resposta do Ministério Público e das informações que a Aeronáutica apresentar sobre o estágio real das obras e a data em que os controladores deverão se apresentar em Recife.

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Sergio simonsen
Sergio simonsen
28/07/2026 09:54

Nas FFAA é assim: quanto mais baixo o posto ou graduação, mais dificuldades.Veja se faltam aptos para oficiais generais. No rancho a comida começa com S e e peixe
Pros oficiais generais salmão e pros sargentos, sardinha.

Sempre Atento
Sempre Atento
28/07/2026 09:36

A corrupção tomou conta de todos poderes públicos, acabou a época que tinhamos homens de verdade nessas instituições públicas, agora é ladrão em cada mesa.

Robson Augusto

Robson Augusto

Editor da Revista Sociedade Militar - Militar da reserva remunerada, jornalista e cientista social. Especialista em inteligência e marketing. Escreve sobre militares, geopolítica, tecnologia militar, forças armadas, polícia militar, segurança pública em geral e artes marciais, como Jiu-jitsu e MMA. Análises sobre geopolítica e política brasileira. Autor do livro Militares pela Cidadania