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Colt 5,56 no porta-malas de pré-candidato parao senado pelo RJ, Marcio Canella: o que essa carabina de uso restrito realmente pode fazer em combate

A arma apreendida com o ex-prefeito de Belford Roxo é uma Colt 5,56 da PMERJ. Entenda o poder de fogo, o alcance e a capacidade de penetração da carabina que motivou o Decreto 50.397

Colt 5,56 no porta-malas de pré-candidato parao senado pelo RJ, Marcio Canella: o que essa carabina de uso restrito realmente pode fazer em combate
Carabina apreendida no veículo do ex-prefeito Marcio Canella

Quando a Polícia Federal abriu o porta-malas do veículo blindado ligado ao ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, no dia 7 de julho, o que estava ali não era uma pistola de escolta. Era uma carabina, ou fuzil, Colt calibre 5,56×45mm NATO, arma de uso restrito registrada em nome da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ).

O ex-prefeito é extremament epopular em Belford Roxo e conhecido como o único que conseguiu extinguir as barricadss que no município eram colocadas em comunidades para impedir o trânsido das forças de segurança.

A prisão em flagrante, ocorrida durante a sexta fase da Operação Unha e Carne, dominou o noticiário político. Mas o objeto no centro do caso merece uma leitura técnica. Afinal, o que essa arma de fato faz? Qual o seu poder de fogo, o alcance e a capacidade de penetração?

Uma carabina 5,56: repetição, semiautomática ou automática?

A carabina Colt em 5,56 pertence à mesma linhagem do M4 e da família CAR-15/M16 — o arquétipo do fuzil de assalto ocidental. Não se trata de arma de ação por ferrolho, tampouco de repetição manual. É uma arma semiautomática ou de tiro seletivo, dependendo da configuração de fábrica e do lote adquirido pela corporação.

O funcionamento é por ação a gás, com ferrolho rotativo. A cada disparo, parte dos gases da combustão recarrega automaticamente a câmara. Nas versões militares e policiais de uso restrito, o seletor permite tiro semiautomático (um disparo por acionamento do gatilho) e, em muitos modelos, rajada ou tiro automático contínuo.

A cadência de fogo cíclica dessa família de armas gira em torno de 800 disparos por minuto. O carregador padrão STANAG comporta 30 munições, e o recarregamento é rápido o suficiente para sustentar volume de fogo elevado em curtos intervalos.

Poder de penetração: por que o 5,56 preocupa

O calibre 5,56×45mm NATO é um projétil de alta velocidade. A velocidade de saída do cano, nas carabinas dessa classe, fica entre 870 e 900 metros por segundo, cerca de três vezes a velocidade do som.

Essa energia cinética se traduz em capacidade de perfuração. O 5,56 atravessa coletes balísticos de proteção comum (níveis mais baixos), portas, veículos leves e paredes de alvenaria. É justamente por essa razão que a legislação brasileira o classifica como munição e arma de uso restrito, fora do alcance do cidadão comum e reservado às Forças Armadas e às forças de segurança.

O alcance efetivo com miras metálicas chega a 400 metros, estendendo-se a 550 metros ou mais com equipamentos instalados na arma. O alcance máximo do projétil ultrapassa 2 mil metros. Não é uma arma de defesa pessoal domiciliar é uma ferramenta de emprego tático em confronto aberto.

5,56 x 7,62: por que a PM do Rio migrou de calibre

Um dado institucional relevante: em 2022, a Secretaria de Estado de Polícia Militar (SEPM) investiu cerca de R$ 9 milhões para adquirir fuzis e carabinas 5,56, substituindo parte do arsenal em 7,62.

A justificativa oficial da própria PMERJ foi técnica: o fuzil de calibre 5,56 tem menor potencial de destruição quando comparado com o calibre 7,62, além de maior precisão. O 7,62 é mais pesado, tem maior energia terminal e atravessa obstáculos com ainda mais facilidade, o que, em ambiente urbano densamente povoado como o Rio, aumenta o risco de danos colaterais.

Ou seja: a carabina apreendida com Canella representa exatamente o padrão que a corporação passou a adotar como armamento institucional preferencial. Uma arma de guerra em porte reduzido, pensada para o combate urbano.

Por que foi criada: a linhagem M4/CAR-15

A família Colt em 5,56 nasceu de uma necessidade militar concreta. A partir dos anos 1960, os Estados Unidos buscavam substituir fuzis longos e pesados por uma arma mais curta, leve e controlável, adequada ao combate em selva e, depois, em ambiente urbano.

O resultado foi a plataforma AR-15/M16 e suas variantes encurtadas — as carabinas CAR-15 e, mais tarde, o M4. O conceito: manter o poder de fogo de um fuzil de assalto num pacote compacto, fácil de manejar dentro de viaturas, aeronaves e espaços fechados. É esse DNA que chega às mãos das polícias militares brasileiras.

O desfecho institucional: da tornozeleira ao Decreto 50.397

No plano jurídico, a defesa sustentou desde o início que a arma pertencia a um sargento da PM responsável pela escolta do político, alvo de ameaças de morte. A corporação confirmou ao Supremo Tribunal Federal que o armamento estava acautelado e registrado para o policial designado.

Com base nisso, o ministro Alexandre de Moraes revogou as medidas cautelares e determinou, em 24 de julho, a retirada da tornozeleira eletrônica de Canella.

O episódio, porém, expôs uma fragilidade no controle do arsenal público. Nesta segunda-feira (27/07), o Governo do Estado publicou o Decreto nº 50.397, determinando o recadastramento extraordinário e obrigatório de todas as armas de uso restrito das forças de segurança — fuzis, carabinas e submetralhadoras. As corporações têm 30 dias para apresentar relatório ao governador, apontando o que foi recadastrado, recolhido ou identificado como irregular.

Uma carabina de uso restrito num porta-malas particular deixou de ser apenas um caso político. Virou o estopim de uma revisão em todo o controle de armas institucionais do Rio de Janeiro.

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Robson Augusto

Robson Augusto

Editor da Revista Sociedade Militar - Militar da reserva remunerada, jornalista e cientista social. Especialista em inteligência e marketing. Escreve sobre militares, geopolítica, tecnologia militar, forças armadas, polícia militar, segurança pública em geral e artes marciais, como Jiu-jitsu e MMA. Análises sobre geopolítica e política brasileira. Autor do livro Militares pela Cidadania