Engenheiros militares, aviadores e médicos concentram as demissões das Forças Armadas entre 1º de junho e 22 de julho. São os perfis formados nas academias mais concorridas do país e os mais disputados pelo mercado civil.
O Exército Brasileiro, a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira publicaram no Diário Oficial da União, entre 1º de junho e 22 de julho de 2026, atos que atestam a evasão de oficiais. Ao todo 48 oficiais, sendo que 40 já foram demitidos e 8 foram agregados por terem pedido demissão, abandonam as forças de 1 de junho a 22 de julho, um período menor que 2 meses.
A Marinha lidera com quinze demissões, seguida pela Aeronáutica, com quatorze, e pelo Exército, com onze.
Vinte e oito pediram para sair, doze foram desligados de ofício
Das quarenta demissões já concedidas, vinte e oito foram a pedido e doze de ofício. Destas, seis ocorreram porque os oficiais passaram a exercer cargo público permanente estranho à carreira, posto que a Constituição só permite prover por concurso; duas decorreram de decisão do Superior Tribunal Militar que declarou os militares indignos para o oficialato; e quatro, todas do Exército, não têm o motivo informado nos atos.
Na Aeronáutica, todas as quatorze demissões foram a pedido. Na Marinha, foram oito a pedido e sete de ofício. No Exército, seis a pedido e cinco de ofício.
Entre os doze desligamentos de ofício, dez seguem o mesmo enquadramento legal: o artigo 115, inciso II, combinado com o artigo 117 do Estatuto dos Militares. Nas seis portarias da Marinha, o texto informa expressamente o motivo, os oficiais passaram a exercer cargo público permanente estranho à carreira. Nas quatro do Exército, a base legal descrita nas portarias é a mesma, mas os atos não descrevem a razão.
Engenheiros são o maior grupo entre os que pedem baixa
Doze dos quarenta demitidos são oficiais engenheiros, o maior contingente por especialidade. São quatro do Corpo de Engenheiros da Marinha, quatro do Quadro de Oficiais Engenheiros da Aeronáutica, três do Quadro de Engenheiros Militares do Exército e um da arma de Engenharia.
O Quadro de Engenheiros Militares é alimentado pelo Instituto Militar de Engenharia, no Rio de Janeiro, cujo concurso é comparado aos vestibulares de engenharia mais concorridos do país. Os três oficiais do QEM que saíram são primeiros-tenentes: J.K.C., demitido a pedido com indenização à União; B.F.G.N., de ofício; e R.N.P., a pedido, sem ter que pagar indenização aos cofres públicos.
Na Aeronáutica saíram o major R.E.J.A., lotado no CISCEA; o capitão F.G.L., da DIRINFRA; e os primeiros-tenentes J.M.J.L., do Instituto de Aeronáutica e Espaço, e S.M.S., do PAMA-GL. Os dois tenentes foram enquadrados no artigo 116, inciso II, que alcança quem tem menos de três anos de oficialato e obriga a indenizar pelos gastos da força com a preparação e formação.
Na Marinha, os quatro engenheiros são os capitães-tenentes P.A.L.D. e H.L.R.B.S., o primeiro-tenente H.S.C.C. e o capitão de corveta L.G.S.L. Todos foram demitidos de ofício por terem assumido cargo público permanente fora da carreira.
Os salários brutos dos oficiais que já foram demitidos variam e vão de R$ 15,3 mil como primeiro tenente a R$ 29,3 mil, pago para o Coronel do Exército Brasileiro que foi demitido.
Seis aviadores deixam a Força Aérea
A FAB perdeu seis oficiais aviadores no período, todos a pedido. Saíram o tenente-coronel F.F.J., do GITE; os capitães T.L.A.P., do 2º/10º GAV, M.C.M., do 1º GTT, e M.T.P.B.C., do 2º/6º GAV; e os primeiros-tenentes Y.M.C.S., do GEIV, e M.A.M., que servia na Academia da Força Aérea.
Os seis se formaram no Curso de Formação de Oficiais Aviadores, único caminho para a aviação militar de asa fixa da FAB. O tenente-coronel era o comandanet da unidade onde servia e estava no penúltimo posto antes do generalato.
Levantamento anterior da Revista Sociedade Militar apurou que a Força Aérea perdeu 21 aviadores apenas no primeiro trimestre de 2026. No mesmo período, a disputa por pilotos se acirrou no mercado civil: em dezembro de 2025, a LATAM passou a oferecer bônus de admissão de R$ 80 mil, conforme noticiado pelo G1.
Médicos, intendentes e infantaria
Atualmente uma das profissões mais procuradas pelas Forças Armadas é a de médico. Entretanto, a evasão é grande entre esses profissionais. Quatro médicos militares foram demitidos: os capitães-tenentes E.B.C. e W.L.A.G., da Marinha, a pedido; o capitão-tenente P.A.C.M., também da Marinha, de ofício; e o capitão G.V.C.F., da Força Aérea, que servia no CINDACTA II.
Outros dois médicos da Marinha têm pedido de demissão em tramitação.
Entre os intendentes, saíram a capitã A.C.S.M.B., da FAB; o primeiro-tenente L.M.F.M., do Exército; e o capitão-tenente H.L.T.P., da Marinha. Três primeiros-tenentes do Corpo de Intendentes da Marinha aguardam o desligamento.
O Exército perdeu ainda o major B.H.S. e os capitães M.P.M.S., A.A.S. e N.L.S.N., todos de infantaria, e o capitão B.L.B., do Quadro de Material Bélico. Na Aeronáutica, saíram o capitão A.H.C., do 1º GDAAE, e o primeiro-tenente J.V.H.M., ambos de infantaria.
O coronel declarado indigno pelo STM
Dois dos doze desligamentos de ofício não decorrem de pedido nem de mudança de carreira. São os únicos que passam pela Constituição.
O coronel da reserva de primeira classe M.P.N.F. foi demitido do Exército por portaria de 29 de junho, publicada em 30 de junho, com fundamento no artigo 142, parágrafo 3º, incisos VI e VII, da Constituição Federal e no artigo 120, inciso I, do Estatuto dos Militares. O ato registra que ele foi declarado indigno para o oficialato, com perda do posto e da patente, por decisão do Superior Tribunal Militar na Representação nº 7000-19419.2022.7.00.0000/DF, transitada em julgado em 26 de maio de 2026.
O salário do Coronel era de mais de 29 mil reais e agora, caso possua um beneficiário instituido, o militar deve ser declarado cmo Morto Ficto, e este deve passar a receber a remuneração.

O segundo caso é da Marinha. O capitão de corveta G.C.S. foi demitido de ofício por portaria de 29 de maio, publicada em 1º de junho, com efeito retroativo a 27 de fevereiro. O fundamento é o mesmo dispositivo constitucional, e a decisão do STM consta do acórdão nos Embargos de Declaração nº 7000656-68.2025.7.00.0000.
O que os atos não informam
Nenhuma das portarias declara o motivo dos pedidos de demissão dos oficiais. O Diário Oficial registra o enquadramento legal, a data e a inclusão na reserva não remunerada, e nada além disso.
Os processos de cobrança administrativa que apuram a indenização ao erário também não são públicos. Nas portarias da Marinha, a fórmula é sempre a mesma: a quitação com a Fazenda Nacional não é requisito para deixar o serviço ativo, e a cobrança segue depois, pela via administrativa ou judicial.