Amplamente rejeitada na Copa do Mundo pelos diversos momentos em que sua torcida protagonizou episódios classificados como racismo, a Argentina tem apresentado um histórico controverso sobre o tema ao longo de 2026. A seleção de futebol do país perdeu a final do campeonato para a Espanha neste domingo, 19 de julho, por 1 a 0.
Sem contar a Copa do Mundo, o mais recente dos emblemáticos episódios ocorreu no dia 9 de abril, no Rio de Janeiro (RJ), durante a 9ª reunião ministerial da Zopacas (Zona de Paz e Proteção do Atlântico Sul), um fórum formado por 24 países do oeste da África e da América do Sul, como Brasil, Uruguai, Argentina, Congo, Camarões, Angola, Cabo Verde, Nigéria, África do Sul e Senegal.
Na oportunidade, todos os países assinaram a chamada Declaração do Rio de Janeiro. Trata-se de uma carta contendo 34 compromissos, reconhecimentos, saudações e decisões, incluindo um parágrafo sobre o peso histórico da rota transatlântica no tráfico de pessoas escravizadas.
“Conclamamos todos os países a cooperar na tarefa essencial de enfrentar as persistentes mazelas decorrentes da escravidão, do colonialismo e do neocolonialismo, bem como a ampliar os esforços de combate ao racismo e de promoção da igualdade racial”, diz o parágrafo 22.
A Argentina, no entanto, fez questão de deixar registrado na Declaração que estava se dissociando das iniciativas e documentos mencionados no parágrafo que, segundo o país, não refletem necessariamente entendimentos atuais ou compromissos universalmente assumidos. O fato foi amplamente noticiado pela imprensa.
Apesar de se dissociar da ampliação do combate ao racismo, a Argentina diz na Declaração que está comprometida com a causa.
“A República Argentina reafirma seu compromisso com a luta contra o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e intolerâncias correlatas, assim como com a promoção da igualdade e da dignidade humana de todos os seres humanos”.
Argentina rejeitou Resolução da ONU sobre racismo
Pouco tempo antes da 9ª reunião ministerial da Zopacas, a Argentina já tinha dado pistas do seu posicionamento atual sobre o tema racismo em março de 2026.
Ao lado de Estados Unidos e Israel, foi o único país do mundo a votar contra a Resolução 80/250 da Assembleia Geral das Nações Unidas que reconheceu a escravização de africanos com base racial como o mais grave crime contra a humanidade. Outros 123 países, entre os quais o Brasil, foram favoráveis à aprovação da Resolução.
Por outro lado, 52 nações, incluindo várias que praticaram diretamente a escravização de africanos e também o tráfico de africanos escravizados, se abstiveram de votar sobre a resolução.
Entre elas estão Portugal, Japão, França, Croácia, Bélgica, Áustria, Austrália, Noruega, Nova Zelândia, Polônia, Paraguai, Suécia, Suíça, Ucrânia e Reino Unido.
“É preciso repudiar e denunciar com firmeza as ações racistas e os cantos dos torcedores argentinos”
Em entrevista ao jornal Alma Preta, publicada neste domingo, 19 de julho, o cientista político argentino Federico Pita – ligado ao movimento negro do país -, disse que é preciso denunciar com firmeza as ações racistas e os cantos dos torcedores argentinos.
“Como venho sustentando no meu trabalho, o racismo não é um jogo, pois a violência racista verbal nos estádios é intolerável porque é precisamente o que naturaliza, legitima e pavimenta o caminho para a violência física e a morte de pessoas negras”.
Segundo ele, as acusações de racismo ao longo da Copa do Mundo despertaram na Argentina uma postura amplamente defensiva, em vez de reflexiva, gerando e alimentando a narrativa de que o país está diante de perseguição internacional ou algum tipo de campanha de ódio anti-Argentina.
“A recepção majoritária na Argentina diante do olhar internacional foi o abroquelamento e o fechamento defensivo. Um amplo espectro que atravessa o nacionalismo, os setores de direita e o próprio progressismo branco local – incluindo muitas vezes pessoas racializadas”.
O especialista ainda disse que a Argentina sofre de um mito fundacional que dissemina a ideia de que o país é exclusivamente branco e europeu quando, na verdade, passou por um processo de apagamento e negação de sua origem – também negra e indígena.
“Os jogadores da seleção e a grande maioria do nosso povo, que é composta por uma população amplamente racializada, são vítimas diretas de um sistemático roubo de identidade. O racismo criollo coloniza a subjetividade e impõe a ilusão da branquitude como o único passaporte para a cidadania plena e o sucesso. É por isso que falar sobre racismo na Argentina se torna um tabu absoluto”.
Ver essa foto no Instagram
Em 1853, a escravidão foi oficialmente abolida pela Constituição da Argentina.
A drástica redução da população negra na Argentina ao longo dos anos é atribuída à alta mortalidade nas guerras de independência (onde escravizados eram alistados em troca de liberdade), epidemias (como a febre amarela em 1871).