O Isaac Peral custou uma década de atraso e quase 4 bilhões de euros, e mostrou ao mundo como um submarino pode nascer pesado demais
Em 2013, com o casco do Isaac Peral já em construção no estaleiro de Cartagena, os engenheiros da Marinha espanhola chegaram a uma conclusão constrangedora. O submarino mais avançado já projetado no país estava entre 75 e 100 toneladas pesado demais, o suficiente para que, uma vez submerso, ele talvez não conseguisse voltar à superfície com segurança.
O erro nasceu de uma conta de peso mal fechada, e a correção saiu caríssima. A Espanha precisou alongar o casco, chamar uma empresa americana para ajudar a salvar o projeto e engolir mais de uma década de atraso. É uma história que soa familiar para quem acompanha o submarino nuclear brasileiro e seus próprios atrasos.
O submarino que a Espanha nunca tinha feito sozinha
O S-80 era uma aposta de soberania. Até ele, os submarinos espanhóis saíam de projetos franceses fabricados sob licença. O Isaac Peral seria o primeiro concebido inteiramente na Espanha, a senha para o país entrar no clube fechado das nações que desenham seus próprios submarinos.
No papel, a máquina impressionava. Com 81 metros e cerca de 3.000 toneladas submerso, o S-80 traz um sistema de propulsão independente de ar que converte bioetanol em hidrogênio para alimentar células de combustível, o que permite semanas debaixo d’água sem subir. Tripulação de pouco mais de trinta homens e capacidade de mergulho além dos 300 metros completavam o pacote, num programa cujos números e histórico estão reunidos pela imprensa naval de defesa.
A ambição, porém, dependia de acertar o básico. E foi no mais básico de tudo, o peso, que o projeto tropeçou.
Cem toneladas a mais, e um casco que não fechava a conta
Um submarino vive de equilíbrio fino entre flutuar e afundar. Ele enche tanques de lastro para submergir e os esvazia para voltar, e todo o cálculo depende de o peso da estrutura bater com a reserva de flutuabilidade. No Isaac Peral, esse cálculo saiu errado por até 100 toneladas, e uma máquina pesada demais corre o risco de descer e não conseguir subir.
A saída foi cara e demorada. Os engenheiros decidiram alongar o casco em 10 metros para ganhar volume e flutuabilidade, e a Espanha contratou a americana General Dynamics Electric Boat, uma das maiores construtoras de submarinos do mundo, para avaliar o problema e apontar o conserto. O orgulho do projeto totalmente nacional cedeu diante da urgência de fazer o barco funcionar.
A conta que mais que dobrou
O preço acompanhou o atraso. O programa dos quatro submarinos, orçado em 1,76 bilhão de euros em 2004, chegou a quase 4 bilhões de euros na conta de 2018, perto de 1 bilhão por unidade. A primeira entrega, prometida para 2011, só aconteceu em novembro de 2023, doze anos depois do previsto.
O Isaac Peral acabou entrando em serviço, e a Marinha espanhola hoje o opera com orgulho. Ainda assim, o caso virou estudo obrigatório em qualquer marinha que sonha construir o próprio submarino, um lembrete de que a parte mais difícil raramente é a tecnologia de ponta, e sim acertar cada tonelada antes de mandar o barco para a água.
O espelho do PROSUB
Nenhum país entende esse dilema melhor que o Brasil neste momento. O PROSUB, o programa que constrói submarinos convencionais da classe Riachuelo em Itaguaí com apoio do grupo francês Naval Group, também enfrenta atrasos e custos que sobem, e o futuro submarino de propulsão nuclear, o Álvaro Alberto, acumula adiamentos que já preocupam a Marinha do Brasil.
O caso espanhol mostra por que soberania submarina custa tão caro e escorrega tanto no cronograma. Dominar o casco, a flutuabilidade e a integração de sistemas é um aprendizado que se paga com anos e bilhões, como lembra o esforço para consolidar a Força de Submarinos ao longo de mais de um século.
Para o Brasil, a lição do Isaac Peral é dupla. Serve de alerta sobre o preço de cada erro num programa tão sensível, e serve de consolo, porque mostra que até nações com longa tradição naval tropeçam feio no caminho. A diferença entre um projeto que atrasa e um que fracassa está em corrigir a tempo, e a Espanha corrigiu, mesmo que a conta e o calendário tenham doído.