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O Brasil encomendou na Inglaterra em 1907 o navio de guerra mais poderoso do mundo, recebeu em 1910 um couraçado de 20 mil toneladas com doze canhões de 305 mm e viu a própria tripulação se revoltar a bordo

O Brasil encomendou na Inglaterra em 1907 o navio de guerra mais poderoso do mundo, recebeu em 1910 um couraçado de 20 mil toneladas com doze canhões de 305 mm e viu a própria tripulação se revoltar a bordo
O couraçado Minas Geraes colocou o Brasil entre as primeiras nações da era dos dreadnoughts e se tornou o principal palco da Revolta da Chibata em 1910. Foto: Reprodução/ Imagem criada pela Revista Sociedade Militar – uso editorial.

O Minas Geraes colocou o país entre as primeiras nações a construir um dreadnought, desencadeou uma corrida naval na América do Sul e se tornou o centro da Revolta da Chibata poucos meses após chegar ao Rio de Janeiro

O couraçado Minas Geraes nasceu para devolver poder e prestígio à Marinha do Brasil. Construído na Inglaterra, o gigante de aproximadamente 20 mil toneladas carregava doze canhões de 305 milímetros e foi apresentado pela imprensa internacional como o navio de guerra mais poderosamente armado do mundo.

A demonstração de força, porém, durou pouco sem ser confrontada por uma contradição interna. Incorporado à Armada em abril de 1910, o dreadnought se tornou, apenas sete meses depois, o principal palco da Revolta da Chibata. A tripulação tomou o navio, matou o comandante e apontou sua artilharia para o Rio de Janeiro enquanto exigia o fim dos castigos físicos.

Em 10 de setembro de 2026, o lançamento do Minas Geraes completa 118 anos. A data recupera a história de um navio que projetou o Brasil na corrida naval mundial, mas também expôs a distância entre a tecnologia adquirida no exterior e as condições impostas aos homens encarregados de operá-la.

(Acervo: Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha)
(Acervo: Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha)

O Brasil entrou na corrida mundial dos dreadnoughts

No começo do século XX, a Esquadra brasileira enfrentava um longo período de perda de capacidade. O quadro começou a mudar com o Plano de Reaparelhamento Naval de 1904, aprovado pelo Congresso e posteriormente reformulado sob a gestão do almirante Alexandrino de Alencar.

A nova versão do programa incorporou o conceito de dreadnought, inaugurado pelo britânico HMS Dreadnought. Esses navios concentravam grandes canhões de calibre semelhante, proteção pesada e velocidade superior à dos encouraçados anteriores.

O projeto brasileiro foi construído pela Armstrong Whitworth, em Newcastle, na Inglaterra. A quilha do Minas Geraes foi batida em 17 de abril de 1907 e o lançamento ao mar ocorreu em 10 de setembro de 1908.

Com o início da construção do Minas Geraes e de seu irmão São Paulo, o Brasil se tornou o terceiro país do mundo a ter dreadnoughts em construção, atrás apenas do Reino Unido e dos Estados Unidos. A encomenda surpreendeu potências europeias e alterou o equilíbrio naval sul-americano, provocando respostas da Argentina e do Chile.

O movimento deu início a uma corrida regional por encouraçados. Buenos Aires encomendaria os dreadnoughts Rivadavia e Moreno, enquanto o Chile contrataria os navios da classe Almirante Latorre. O Brasil havia transformado sua recuperação naval em uma disputa de prestígio e capacidade militar no Atlântico Sul.

Doze canhões de 305 mm fizeram do Minas Geraes uma potência flutuante

O Minas Geraes tinha 165,61 metros de comprimento e deslocava 19.250 toneladas em condição normal, podendo alcançar 21.500 toneladas em deslocamento máximo. Sua propulsão reunia duas máquinas a vapor de tríplice expansão, 18 caldeiras e potência total de 23.500 HP.

A bateria principal era o detalhe que realmente atraía atenção: doze canhões Armstrong de 305 mm, cada um com aproximadamente 14 metros de comprimento, distribuídos em seis torres duplas protegidas por aço Krupp. A bateria secundária acrescentava 22 canhões de 120 mm.

Segundo a Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, o navio tinha lotação prevista de 1.173 homens, entre 48 oficiais, 90 suboficiais e sargentos e 1.035 cabos e marinheiros.

Para dimensionar o salto tecnológico, os dois dreadnoughts brasileiros, Minas Geraes e São Paulo, reuniam 24 canhões de 305 mm e 44 peças de 120 mm. Um estudo publicado pelo Instituto de Geografia e História Militar do Brasil observa que os dois estavam entre os navios de guerra mais poderosos existentes naquela época.

Em dezembro de 1908, a revista Scientific American apresentou o encouraçado brasileiro como o mais poderoso navio de combate à tona. Não se tratava apenas de propaganda nacional: a disposição das torres permitia que dez dos doze canhões principais fossem empregados em uma única bordada.

Era uma concentração de fogo incomum até para as grandes Marinhas do período.

O novo couraçado chegou ao Brasil em 1910

Concluído em janeiro de 1910, o Minas Geraes deixou a Inglaterra no mês seguinte. Durante a viagem, encontrou o cruzador norte-americano North Carolina, que transportava os restos mortais do diplomata Joaquim Nabuco para o Brasil.

O encouraçado foi incorporado à Marinha brasileira em 18 de abril de 1910. A chegada do navio representava o momento mais visível do reaparelhamento da Esquadra: o país recebia uma plataforma de combate comparável às construídas pelas maiores potências navais.

O casco moderno, contudo, escondia uma organização ainda presa a práticas do século anterior.

A capacidade de formação das tripulações, a estrutura de manutenção e as condições de trabalho não haviam avançado no mesmo ritmo da tecnologia embarcada. Marinheiros, muitos deles negros e provenientes das camadas mais pobres da população, conviviam com jornadas pesadas, baixos soldos e castigos corporais.

Essa é a principal contradição da história do Minas Geraes. O Brasil havia comprado uma das máquinas de guerra mais modernas do planeta, mas preservava dentro dela relações disciplinares marcadas pela violência.

A tripulação tomou o navio durante a Revolta da Chibata

A tensão explodiu na noite de 22 de novembro de 1910. O estopim foi o castigo aplicado ao marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes, condenado a receber 250 chibatadas diante da tripulação.

Sob a liderança de João Cândido Felisberto, os marinheiros tomaram o Minas Geraes. O comandante, capitão de mar e guerra João Batista das Neves, e outros militares morreram durante a sublevação.

O movimento se espalhou pelo encouraçado São Paulo, pelo cruzador Bahia e pelo encouraçado Deodoro. Com alguns dos navios mais poderosos da Esquadra sob controle dos revoltosos, as fortificações e as embarcações leais ao governo tinham pouca margem para uma reação sem colocar a capital federal em risco.

Os marinheiros exigiam o fim das chibatadas, melhores condições de trabalho e anistia. Também ameaçavam bombardear o Rio de Janeiro caso suas reivindicações não fossem atendidas.

O Atlas Histórico do Brasil, da Fundação Getulio Vargas, registra que a rebelião ocorreu entre 22 e 27 de novembro. O Congresso aprovou a anistia e o governo declarou abolidos os castigos físicos, levando os marinheiros a devolverem os navios.

A resposta posterior foi diferente da promessa de pacificação. Participantes foram expulsos, presos ou enviados para seringais na Amazônia. Após uma nova sublevação na Ilha das Cobras, centenas foram detidos e muitos morreram. João Cândido sobreviveu à prisão, foi excluído da Marinha e terminou a vida trabalhando como estivador e vendedor de peixes.

O Minas Geraes foi modernizado, virou defesa de porto e acabou desmontado na Itália

O encouraçado continuou em serviço após a revolta. Entre 1920 e 1921, passou por uma ampla modernização no Arsenal do Brooklyn, nos Estados Unidos. Recebeu novos sistemas de direção de tiro, telêmetros, alterações na artilharia e melhorias nas instalações internas.

Outra remodelação foi realizada no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro entre 1930 e 1937. As antigas caldeiras foram substituídas, as duas chaminés deram lugar a uma única estrutura e o navio ganhou armamento antiaéreo.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Minas Geraes permaneceu ancorado em Salvador como parte da defesa do porto. Sua artilharia operava em coordenação com baterias do Exército posicionadas no litoral baiano.

O tempo, entretanto, havia transformado o antigo símbolo de modernidade em uma plataforma ultrapassada. O navio recebeu baixa do serviço ativo em 16 de maio de 1952 e foi desincorporado da Esquadra em janeiro de 1953.

Vendido como sucata a uma empresa italiana, deixou o Brasil em 11 de março de 1954 e chegou a La Spezia, na Itália, em 22 de abril, onde foi desmontado.

O aço desapareceu, mas o significado histórico permaneceu. O Minas Geraes foi, ao mesmo tempo, símbolo da maior ambição naval brasileira do início do século XX e cenário de uma rebelião que mostrou que poder militar não se constrói apenas com navios, blindagem e canhões. A tecnologia colocara o Brasil entre as grandes Marinhas; a revolta revelou tudo aquilo que ainda não havia sido modernizado dentro dela.

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Felipe Alves da Silva

Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com