Revista Sociedade Militar, todos os direitos reservados.

De 61 para apenas 17: militares se afastam da política, mas PEC criada para separar quartéis das eleições segue travada desde 2024

Mesmo sem avanço da PEC no Senado, participação de militares da ativa nas eleições despenca em 2026, enquanto cresce o debate sobre neutralidade política, ida obrigatória para a reserva e o futuro da relação entre quartéis e disputas partidárias nacionais.

De 61 para apenas 17: militares se afastam da política, mas PEC criada para separar quartéis das eleições segue travada desde 2024
Candidaturas de militares caem 72% em 2026 enquanto PEC que obrigaria ida à reserva segue travada no Senado e divide parlamentares. - Foto de Arquivo: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

As Forças Armadas chegam às eleições de 2026 com presença significativamente menor de militares da ativa na disputa eleitoral, mesmo sem o Congresso ter aprovado a mudança constitucional criada justamente para ampliar a separação entre quartéis e atividade partidária.

O número de integrantes de Exército, Marinha e Aeronáutica que solicitaram licença para disputar as eleições caiu de 61 em 2022 para apenas 17 neste ano, redução de aproximadamente 72%.

Enquanto esse movimento ocorre dentro das próprias Forças, a PEC 42/2023, que alteraria as regras para militares da ativa interessados em cargos eletivos, continua sem votação definitiva pelo Senado.

A proposta determina que o militar das Forças Armadas seja transferido para a reserva no momento do registro da candidatura.

Na prática, o integrante deixaria de permanecer na ativa enquanto participa diretamente da disputa político-eleitoral.

PEC mudaria regra para militares candidatos

A PEC 42/2023 foi apresentada pelo senador Jaques Wagner (PT-BA) em 2023 e recebeu assinaturas de parlamentares de diferentes partidos.

O texto foi construído após as discussões sobre a presença de militares na política intensificadas depois dos acontecimentos de 8 de Janeiro de 2023.

Segundo o Estadão, a proposta foi articulada dentro do governo Lula e teve participação do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, além do aval da cúpula das Forças Armadas.

O objetivo declarado é preservar a neutralidade político-partidária das instituições militares.

Pelo texto, o integrante das Forças Armadas que registrar candidatura seria transferido para a reserva remunerada ou não remunerada, dependendo de já possuir os requisitos necessários para a inatividade com remuneração.

A mudança atingiria militares da ativa do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

As regras para policiais militares e bombeiros militares não seriam modificadas pela proposta.

Proposta passou pela CCJ, mas não chegou à votação final

A PEC avançou rapidamente durante seus primeiros meses no Senado.

Em novembro de 2023, recebeu parecer favorável na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), sob relatoria do senador Jorge Kajuru.

No início de 2024, chegou ao Plenário do Senado.

A tramitação, entretanto, perdeu velocidade.

Em fevereiro daquele ano, senadores aprovaram a realização de debates temáticos sobre o assunto, adiando a continuidade da discussão.

A proposta permanece oficialmente em tramitação no Senado e ainda não foi submetida à votação necessária para alterar a Constituição.

O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), general da reserva e ex-vice-presidente da República, esteve entre os críticos da mudança e chegou a apresentar requerimento para que a matéria fosse novamente examinada.

Flávio Bolsonaro também se colocou contra a proposta.

Críticos argumentaram que a PEC criaria tratamento excessivamente restritivo para integrantes das Forças Armadas interessados em seguir carreira política.

Defensores sustentam o contrário: para eles, a mudança serviria para separar de maneira mais clara a condição de militar da ativa da atuação político-partidária.

De 61 militares para apenas 17

Enquanto o Congresso não decide o futuro da proposta, a participação dos integrantes da ativa caiu por conta própria.

Em 2022, 61 militares das três Forças solicitaram licença para disputar as eleições.

O Exército liderava naquele momento, com 30 pedidos.

Neste ano, apenas 17 integrantes do Exército, Marinha e Aeronáutica fizeram solicitações semelhantes.

A queda supera 70% em apenas um ciclo eleitoral.

O movimento já vinha sendo observado pelas cúpulas militares e foi recebido positivamente por integrantes do Ministério da Defesa.

Segundo o Estadão, José Múcio e o comandante do Exército, general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, avaliaram a baixa procura por candidaturas como sinal de maior afastamento entre caserna e atividade político-partidária.

Para interlocutores, Múcio chegou a definir esse cenário como uma forma de “pacificação”.

Regras atuais ainda permitem candidatura de militar da ativa

Sem a aprovação da PEC, continuam valendo as regras constitucionais existentes.

Atualmente, a situação do militar candidato varia de acordo com seu tempo de serviço.

Militares com menos de dez anos precisam afastar-se da atividade para concorrer.

Quem possui mais de dez anos de serviço é agregado pela autoridade superior e, caso seja eleito, passa automaticamente para a inatividade a partir da diplomação.

A PEC mudaria justamente esse ponto.

O afastamento definitivo da ativa ocorreria já no registro da candidatura, independentemente do resultado obtido nas urnas.

O militar que ainda não reunisse condições para ingressar na reserva remunerada passaria para a reserva sem remuneração.

Múcio queria avanço da proposta

Apesar da queda espontânea no número de candidaturas militares, José Múcio ainda considera importante estabelecer uma regra constitucional mais rígida.

Segundo o Estadão, pessoas próximas ao ministro atribuem a paralisação não apenas à oposição de parlamentares, mas também à falta de prioridade política dada pelo próprio governo à proposta.

A avaliação entre seus defensores é de que uma redução nas candidaturas em uma determinada eleição não impede uma futura retomada da aproximação entre integrantes da ativa e disputas partidárias.

Os opositores, por outro lado, entendem que as regras atuais já permitem conciliar os direitos políticos dos militares com as exigências de disciplina e hierarquia das Forças.

Assim, 2026 apresenta uma situação peculiar: a participação eleitoral de integrantes das Forças Armadas caiu de 61 para 17 sem que a mudança constitucional criada para afastar ainda mais os militares da ativa da política tenha conseguido avançar no Congresso.

Receba nossas notícias diretamente, clique abaixo e entre no nosso grupo

Entrar no grupo
guest
0 Comentários
Alisson Ficher

Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 13 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com.