Ministério da Defesa alemão confirmou episódios durante a instrução, enquanto autoridades estimam centenas de casos no país e ainda não apresentam uma estatística federal consolidada
Soldados ucranianos desertaram durante o período de formação militar na Alemanha, país que já treinou aproximadamente 29 mil integrantes das Forças Armadas da Ucrânia desde o início da invasão russa em larga escala. Somente na Saxônia-Anhalt, o Ministério do Interior estadual tem conhecimento de cerca de 80 casos.
O número nacional pode chegar a algumas centenas, segundo autoridades ouvidas pela imprensa alemã. A dimensão exata, porém, permanece desconhecida: o governo federal ainda não divulgou um levantamento oficial, e não há dados publicamente confirmados dos demais estados alemães.
A revelação transforma uma missão criada para preparar combatentes destinados a retornar à Ucrânia em um problema militar, político e migratório. Depois de aprenderem a manusear armas, aplicar técnicas de camuflagem e prestar primeiros socorros, alguns militares simplesmente deixaram de voltar às suas unidades.
Alemanha confirma deserções, mas chama os casos de isolados
O Ministério da Defesa da Alemanha reconheceu que militares ucranianos se afastaram durante a instrução. Em resposta à investigação do jornal Die Zeit, uma porta-voz do comando de treinamento afirmou que a pasta tinha conhecimento de episódios “isolados”, mas não apresentou números nem detalhes sobre as circunstâncias de cada desaparecimento.
A mesma representante disse que a Bundeswehr não participa da identificação dos desertores. Para Berlim, esses episódios são assuntos internos das Forças Armadas ucranianas e devem ser tratados pelas autoridades de Kiev.
A posição revela um limite delicado da cooperação: a Alemanha fornece território, instrutores e estrutura, mas não assume o controle disciplinar sobre os militares estrangeiros.
Segundo o Die Zeit, os 80 casos conhecidos na Saxônia-Anhalt estão inseridos em uma estimativa de algumas centenas em toda a Alemanha. A ausência de uma contagem federal impede saber quantos efetivamente desertaram, quantos foram localizados e quantos processos foram abertos na Ucrânia.
Cerca de 29 mil ucranianos passaram por formação militar alemã
Desde o início da guerra em larga escala, aproximadamente 29 mil militares ucranianos receberam instrução na Alemanha. Os cursos são distribuídos por diferentes instalações e incluem desde formação básica até preparação para operar equipamentos e sistemas enviados à Ucrânia.
O esforço alemão integra a Missão de Assistência Militar da União Europeia em apoio à Ucrânia, a EUMAM Ukraine. O Serviço Europeu para a Ação Externa informou que mais de 87 mil integrantes das Forças Armadas ucranianas haviam sido treinados desde outubro de 2022, somando as atividades conduzidas pelos países participantes.
Em condições normais, os militares enviados ao exterior concluem a instrução e regressam à Ucrânia para serem empregados em suas unidades. É justamente nesse intervalo — entre o fim do curso e a volta ao país em guerra — que parte dos casos teria ocorrido.
Esse detalhe importa porque não se trata apenas de civis ucranianos que atravessaram uma fronteira em busca de proteção. São militares enviados oficialmente para uma etapa de formação, ainda submetidos às obrigações disciplinares de seu país e com retorno previsto após o curso.
Casos na Alemanha refletem uma crise maior de mobilização
A deserção pode resultar em penas de vários anos de prisão na Ucrânia. Levantamento publicado pelo Die Zeit aponta que ao menos 60 mil militares desertaram desde o começo da guerra e que aproximadamente 250 mil procedimentos envolvem afastamento não autorizado das unidades — categoria mais ampla, que também pode incluir quem retorna com atraso.
Os números mostram que os episódios registrados em território alemão não surgiram isoladamente. À medida que a guerra se prolongou, a Ucrânia passou a enviar para treinamento no exterior não apenas militares experientes e voluntários, mas também recrutas mobilizados.
A mudança altera o perfil de quem chega aos centros de instrução. Nos primeiros anos, a urgência era transmitir conhecimento ocidental a tropas que voltariam rapidamente ao combate. No quinto ano da guerra, a dificuldade de repor efetivos e a resistência à mobilização passaram a acompanhar o soldado até mesmo fora do território ucraniano.
Permanecer na Alemanha não garante proteção automática
Desertar não significa conquistar automaticamente o direito de ficar na Alemanha. O regime simplificado concedido a refugiados de guerra ucranianos não se estende, em princípio, de forma automática aos militares enviados oficialmente ao país para receber treinamento.
Um desertor pode apresentar pedido de asilo, mas a solicitação precisa ser analisada dentro das regras migratórias aplicáveis. A Euronews informou que os países da União Europeia acordaram restringir a proteção automática para homens ucranianos em idade militar, a pedido do governo de Kiev.
Pelas regras relatadas, o interessado deverá demonstrar que deixou a Ucrânia legalmente, que já cumpriu o serviço militar ou que possui dispensa. A comprovação poderá ser feita por carimbo no passaporte ou certificado oficial. Para quem chegou à Alemanha como militar em missão de treinamento e depois abandonou a unidade, esse caminho tende a ser especialmente difícil.
O quadro ainda está incompleto. Berlim confirmou que as deserções existem, mas não revelou o total nacional, o destino dos envolvidos nem quantos solicitaram asilo.
Até que esses dados sejam publicados, permanecem duas contas abertas: quantos militares deixaram a formação e quantos, de fato, conseguirão permanecer em solo alemão.
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