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Generais dos clubes militares advertem sobre risco para a nação

Em nota conjunta divulgada nesta segunda-feira, os Clubes Naval, Militar e de Aeronáutica alertam para riscos institucionais, econômicos e morais ao país, citando corrupção, ruídos diplomáticos e a antecipação do debate eleitoral.

Robson Augusto
Robson Augusto
Publicado 03/08/2026 às 13:16h
Generais dos clubes militares advertem sobre risco para a nação
Oficiais generais dos clubes militares se posicionam sobre ameaça de crise - imagem ilustrativa

Os Clubes Naval, Militar e de Aeronáutica divulgaram nesta segunda-feira, 3 de agosto de 2026, uma nota conjunta em tom bastante grave intitulada “Os riscos à Nação“, na qual alertam para um cenário de “falência moral, institucional e econômica” no país. O texto foi assinado pelas presidências das três entidades, que reúnem majoritariamente oficiais da reserva das Forças Armadas.

A nota associa o quadro descrito a fatores internos e externos: da “leniência com a corrupção” e do “descaso com a gestão da coisa pública” à criação de “ruídos diplomáticos desnecessários” e à antecipação do “debate eleitoral” em detrimento de temas que, segundo o texto, exigiriam resposta imediata.

O que diz a nota

O documento, endossado por Alexandre José Barreto de Mattos, Almirante de Esquadra (RM1-FN), Presidente do Clube Naval, Sérgio Tavares Carneiro, General de Brigada (R1), Presidente do Clube Militar e Marco Antonio Carballo Perez, Major Brigadeiro do Ar (R1), Presidente do Clube de Aeronáutica, afirma que o Brasil “perde espaço para economias mais produtivas e competitivas” e se distancia de nações com maior capital tecnológico, financeiro e humano, em um contexto internacional que classifica como “instável, complexo e imprevisível”.

Sobre a política externa, a nota é direta: aponta que “críticas personalistas” e “desalinhamentos políticos com importantes países” comprometeram relações bilaterais construídas ao longo de mais de dois séculos, e que “retaliações comerciais poderiam ter sido evitadas por meio de uma condução mais técnica e pragmática”, uma referência às tensões comerciais e diplomáticas que marcaram a política externa brasileira ao longo de 2025 e 2026.

Os clubes resumem o que classificam como os “riscos concretos”: o Brasil tornar-se “economicamente insolvente, politicamente ingovernável e, por consequência, cada vez mais irrelevante no cenário internacional”. A nota se encerra convocando os brasileiros a refletir “com discernimento, lucidez, conhecimento e espírito público” e defendendo o diálogo como caminho para reverter o quadro descrito.

Quem são os Clubes Naval, Militar e de Aeronáutica

Os três clubes são associações civis privadas, não integram a estrutura oficial das Forças Armadas e apesar de manterem em seus quadros de associados um grande número de oficiais da ativa das Forças Armadas, não falam institucionalmente por Marinha, Exército ou Aeronáutica.

A própria nota descreve os clubes como “entidades compostas majoritariamente por militares e um expressivo número de cidadãos preocupados com o futuro da Nação”.

A distinção institucional importa porque o art. 142, § 3º, inciso V, da Constituição Federal veda ao militar da ativa filiação a partido político e restringe sua manifestação política enquanto em serviço. Reportagem publicada pela própria RSM em novembro de 2024 apurou que, apesar de os clubes reunirem majoritariamente militares da reserva, havia 1.821 oficiais da ativa entre os sócios do Clube Militar, o que já havia levantado, à época, o questionamento sobre até que ponto notas como essa, assinadas pelos presidentes da instituição, falam somente pela reserva ou também se ressoam o pensamento dos quadros da ativa vinculados às agremiações.

Um padrão de manifestações desde 2021

A nota “Os riscos à Nação” não é a primeira intervenção pública dos três clubes reunidos em declaração conjunta. Em agosto de 2021, a Comissão Interclubes Militares divulgou nota defendendo o “voto auditável”, bandeira então encampada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em confronto com o Tribunal Superior Eleitoral.

Em fevereiro de 2024, os clubes voltaram a se manifestar em defesa de “distintos chefes militares” expostos em investigações ligadas a atos contra o Estado Democrático de Direito.

Em novembro do mesmo ano, após a prisão de um oficial-general e outros oficiais superiores do Exército investigados por suposta tentativa de atentado contra o presidente da República, nova nota conjunta, intitulada “Entre Crises e Narrativas: A Defesa dos Valores Militares“, denunciou o que chamaram de “esforço deliberado e coordenado para comprometer a imagem das Forças Armadas”.

O que fica

A nota “Os riscos à Nação” chega em um momento de pré-campanha eleitoral e de tensão nas relações comerciais e diplomáticas do Brasil com parceiros internacionais — temas que o próprio texto cita como agravantes do cenário que descreve. Até a publicação desta reportagem, nem o Palácio do Planalto nem os comandos das três Forças haviam se manifestado sobre o conteúdo da nota.

Como nas manifestações anteriores dos clubes, a repercussão tende a dividir opiniões: de um lado, quem vê a nota como exercício legítimo de associativismo civil e de liberdade de expressão de militares da reserva; de outro, quem questiona o peso simbólico de entidades ligadas às Forças Armadas emitindo avaliações políticas em um momento de polarização eleitoral, e a proximidade entre parte de seus sócios e o serviço ativo.

Íntegra da Nota diculgada pelos 3 clubes militares

‘Os riscos à Nação”

Rio de Janeiro, 03 de agosto de 2026.

Os Clubes Naval, Militar e de Aeronáutica, entidades compostas majoritariamente por militares e um expressivo número de cidadãos preocupados com o futuro da Nação, não se furtam ao dever de reafirmar seus valores e expressar suas opiniões em benefício do bem comum e da Pátria. Assim, vêm a público alertar a sociedade brasileira sobre os riscos que cercam o País neste momento de sua história.

É evidente o inconformismo de uma parcela significativa da sociedade, da qual faz parte a maioria de nossos associados, diante da necessidade de uma reação cívica capaz de reverter a situação em que o Brasil se encontra. Sob essa perspectiva, a leniência com a corrupção, a tolerância com o crime e o descaso com a gestão da coisa pública contribuíram para levar o País a um cenário de crescente falência moral, institucional e econômica.

O atraso brasileiro deixou de ser apenas uma recorrente frustração, com a lentidão do crescimento e do desenvolvimento, para se transformar em um retrocesso alarmante em diversas dimensões do poder nacional. Essa realidade pode ser constatada por indicadores amplamente divulgados e reconhecidos. Enquanto outras nações avançam, o Brasil permanece para trás e em ritmo acelerado.

O País perde espaço para economias mais produtivas e competitivas, distancia-se cada vez mais das nações que concentram elevado capital tecnológico, financeiro e humano e enfrenta um cenário internacional cada vez mais instável, complexo e imprevisível. Soma-se a isso a perda de conquistas construídas ao longo de décadas, o enfraquecimento das instituições e um ambiente político marcado pela polarização, pelo revanchismo e pelo clientelismo.

Em um momento de elevada sensibilidade da economia mundial, a opção por criar ruídos diplomáticos desnecessários, adotar críticas personalistas, antecipar o debate eleitoral e promover desalinhamentos políticos com importantes países, acabou comprometendo relações bilaterais construídas ao longo de mais de dois séculos de cooperação.

As retaliações comerciais poderiam ter sido evitadas por meio de uma condução mais técnica e pragmática, como defenderam diversas entidades durante audiências públicas ao longo do último ano. Enquanto isso, temas fundamentais para o interesse nacional deixam de ser tratados com a prioridade necessária, ao passo que a pré-campanha eleitoral ocupa o centro das atenções, mesmo diante de graves desafios internos e externos que exigem respostas imediatas.

Os riscos à Nação são concretos e podem ser resumidos na possibilidade de o Brasil tornar-se um país economicamente insolvente, politicamente ingovernável e, por consequência, cada vez mais irrelevante no cenário internacional. Os sinais dessa trajetória já se acumulam e não podem ser ignorados.

Neste momento decisivo da vida nacional, parece pouco provável que soluções consistentes surjam de um ambiente político marcado por sucessivas crises. Por isso, conscientes de suas responsabilidades, de seu papel histórico e de sua tradição, os Clubes Naval, Militar e de Aeronáutica conclamam os brasileiros a refletirem sobre os grandes desafios do País com discernimento, lucidez, conhecimento e espírito público. Somente por meio do diálogo, da busca de consensos e da convergência de esforços será possível enfrentar os riscos que hoje pesam sobre a Nação e construir um futuro mais seguro e próspero para o Brasil.

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Robson Augusto

Robson Augusto

Editor da Revista Sociedade Militar - Militar da reserva remunerada, jornalista e cientista social. Especialista em inteligência e marketing. Escreve sobre militares, geopolítica, tecnologia militar, forças armadas, polícia militar, segurança pública em geral e artes marciais, como Jiu-jitsu e MMA. Análises sobre geopolítica e política brasileira. Autor do livro Militares pela Cidadania