O Itamaraty precisou administrar simultaneamente duas tensões com países vizinhos depois que declarações de Javier Milei, na Argentina, e de Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil, provocaram reações oficiais ao longo da última semana de julho.
Os episódios tiveram origens diferentes, mas colocaram o Ministério das Relações Exteriores diante do mesmo desafio: responder às críticas sem transformar divergências políticas e históricas em rupturas com parceiros centrais do Mercosul.
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Segundo a CNN Brasil, a crise com Buenos Aires levou à convocação do embaixador argentino em Brasília e ao retorno temporário do representante brasileiro na Argentina, enquanto o desgaste com Assunção resultou em uma nota de repúdio e em novas cobranças pela devolução de objetos levados durante a Guerra do Paraguai.
Milei atacou Lula e Moraes no Brasil
A tensão com a Argentina começou durante a convenção nacional do PL, realizada em 25 de julho, em São Paulo, para oficializar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
Convidado para discursar no evento, Milei chamou Lula de “presidiário”, acusou o governo brasileiro de prender opositores e atacou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, com a expressão “lixo careca”.
O presidente argentino também defendeu a candidatura de Flávio Bolsonaro e afirmou que o senador seria capaz de derrotar Lula na eleição presidencial.
A presença de um chefe de Estado estrangeiro em uma convenção partidária brasileira já carregava significado político, mas o uso do evento para atacar diretamente autoridades nacionais ampliou a reação em Brasília.
De acordo com a CNN, o Palácio do Planalto considerou especialmente grave que as declarações tenham sido feitas em território brasileiro durante uma agenda acompanhada pela comitiva oficial argentina.
O embaixador da Argentina no Brasil, Guillermo Daniel Raimondi, foi chamado ao Itamaraty para prestar esclarecimentos.
Raimondi é um diplomata de carreira com experiência em negociações do Mercosul e assumiu a representação argentina em Brasília em 2024.
Embaixador brasileiro permanece em Brasília
Além de convocar o representante argentino, o governo brasileiro chamou o embaixador Julio Bitelli de volta a Brasília para consultas.
Bitelli participou de reuniões com o chanceler Mauro Vieira e com Lula para apresentar sua avaliação sobre o relacionamento com a Casa Rosada.
A convocação de um embaixador brasileiro para consultas não significa automaticamente o rompimento das relações ou o fechamento da representação diplomática.
Trata-se de um gesto político que permite ao governo ouvir seu representante, revisar a estratégia bilateral e demonstrar publicamente insatisfação.
O Brasil já havia utilizado o mesmo recurso em 2024, após outra participação de Milei em um evento conservador no país, quando Bitelli também retornou temporariamente a Brasília.
Até o momento, não havia indicação de que Milei ou o governo argentino preparassem um pedido oficial de desculpas.
Lula respondeu com “coisa” e “patacoada”
Lula evitou mencionar Milei pelo nome ao comentar o episódio, mas chamou o discurso do argentino de “patacoada” e se referiu ao presidente vizinho como “aquela coisa”.
O brasileiro afirmou que, como chefe de Estado, não pretendia manter uma troca permanente de ataques e voltou a defender que autoridades estrangeiras não interferissem nas eleições do país.
A reação preservou a crítica política, mas também demonstrou que a rivalidade pessoal entre os dois presidentes continua interferindo no ambiente diplomático.
Brasil e Argentina, entretanto, mantêm relações econômicas, produtivas e institucionais que ultrapassam as diferenças entre Lula e Milei.
Os dois países fazem parte do Mercosul e possuem cadeias industriais integradas, especialmente nos setores automotivo, agrícola, energético e de infraestrutura.
Paraguai reagiu à versão de Lula sobre a guerra
Enquanto o Itamaraty tentava conter o desgaste com a Argentina, uma declaração de Lula sobre a Guerra do Paraguai provocou nova reação regional.
Durante visita à Avibras Aeroco, em Jacareí, Lula afirmou que o Paraguai decidiu invadir o Brasil, ocupou Corumbá e também teria invadido Argentina e Uruguai, dando início a uma guerra que durou aproximadamente cinco anos.
A fala foi utilizada pelo presidente para defender o fortalecimento das Forças Armadas e a necessidade de o Brasil manter capacidade de dissuasão.
Parlamentares paraguaios acusaram Lula de apresentar uma versão incompleta e desrespeitosa do conflito.
O presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre, declarou que o brasileiro tratou com excessiva leveza a maior tragédia da história paraguaia e afirmou que seu país pagou pela paz “com sangue”.
Declaração misturou episódios históricos
A afirmação de que tropas paraguaias invadiram o Brasil está historicamente correta.
As forças de Francisco Solano López entraram na então província de Mato Grosso em dezembro de 1864, depois da apreensão do navio brasileiro Marquês de Olinda.
O Paraguai também invadiu a província argentina de Corrientes em 1865.
A referência feita por Lula a uma invasão simultânea do Uruguai, contudo, é imprecisa.
O Uruguai estava no centro da crise regional porque o Império do Brasil havia realizado uma intervenção militar no país em 1864, apoiando os colorados contra o governo blanco, mas não foi invadido pelo Paraguai nos mesmos moldes de Mato Grosso e Corrientes.
A Guerra da Tríplice Aliança resultou de uma sequência de disputas territoriais, intervenções políticas e rivalidades na Bacia do Prata, não de um único acontecimento isolado.
No Brasil, a narrativa costuma destacar a invasão de Mato Grosso.
No Paraguai, a intervenção brasileira no Uruguai e a destruição sofrida pelo país ocupam uma posição muito mais central na memória do conflito.
Assunção entregou nota de repúdio
O governo paraguaio convocou o embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes de Carvalho, para uma reunião na qual foi entregue uma nota formal de repúdio.
Convocar o embaixador de outro país para esclarecimentos é diferente de chamar o próprio representante de volta.
No primeiro caso, o governo anfitrião exige explicações diretamente ao diplomata estrangeiro.
No segundo, retira temporariamente seu embaixador da capital do outro país para consultas internas.
Segundo a CNN Brasil, Marcondes esclareceu às autoridades paraguaias que Lula não pretendia insultar ou desrespeitar o povo vizinho.
O vice-presidente Pedro Alliana afirmou que o Paraguai havia manifestado sua insatisfação pelos canais diplomáticos mais elevados, mas não desejava aprofundar o confronto.
Canhão Cristão voltou à disputa
A controvérsia também reabriu uma reivindicação histórica paraguaia.
Assunção pediu que o Brasil devolva o Canhão Cristão, documentos e outros objetos retirados do Paraguai durante a guerra.
A peça foi produzida a partir do derretimento de sinos de igrejas paraguaias, empregada em batalhas contra a Tríplice Aliança e capturada pelas forças brasileiras em 1868.
Atualmente, o canhão integra o acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.
O pedido não surgiu exclusivamente por causa da declaração de Lula.
A devolução do armamento já foi discutida em outras ocasiões por governos e parlamentares dos dois países, sem que uma solução definitiva fosse executada.
Em 2010, durante seu segundo mandato, Lula chegou a anunciar disposição para devolver a peça, mas entraves jurídicos e resistências impediram a transferência.
O novo pedido atribui à devolução um caráter de reparação e fraternidade, embora a decisão dependa de avaliações legais, patrimoniais e diplomáticas no Brasil.
Cooperação continuou apesar do desgaste
A tensão surgiu poucos meses depois de Lula sancionar uma lei que autorizou a doação ao Paraguai de seis obuseiros autopropulsados M108 e uma passadeira flutuante pertencentes ao Exército Brasileiro.
A justificativa oficial foi fortalecer a cooperação militar e as relações diplomáticas entre os dois países.
Brasil e Paraguai também compartilham a administração de Itaipu, mantêm uma extensa fronteira e trabalham conjuntamente em segurança, comércio, energia e combate ao crime transnacional.
Em dezembro de 2025, os dois países abriram a Ponte Internacional da Integração entre Foz do Iguaçu e Presidente Franco, criada para ampliar a conexão logística e reduzir a pressão sobre a Ponte da Amizade.
Esses vínculos ajudam a explicar por que os dois governos indicaram preferência pelo diálogo, mesmo após a troca de críticas.