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Itamaraty enfrenta duas crises diplomáticas ao mesmo tempo: Milei chama Lula de presidiário, Paraguai acusa presidente de distorcer a história e cobra do Brasil a devolução de canhão e troféus de guerra

Entre insultos de Milei, reação paraguaia e cobranças por objetos da Guerra do Paraguai, o Itamaraty termina a semana tentando conter dois focos de tensão sem permitir que divergências políticas e históricas comprometam relações do Brasil na América do Sul.

Alisson Ficher
Alisson Ficher
Publicado 03/08/2026 às 11:16h
Itamaraty enfrenta duas crises diplomáticas ao mesmo tempo: Milei chama Lula de presidiário, Paraguai acusa presidente de distorcer a história e cobra do Brasil a devolução de canhão e troféus de guerra
Itamaraty tenta conter crises simultâneas com Argentina e Paraguai após ataques de Milei, reação a Lula e disputa por troféus de guerra. (Imagem: Ilustrativa via I.A)

O Itamaraty precisou administrar simultaneamente duas tensões com países vizinhos depois que declarações de Javier Milei, na Argentina, e de Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil, provocaram reações oficiais ao longo da última semana de julho.

Os episódios tiveram origens diferentes, mas colocaram o Ministério das Relações Exteriores diante do mesmo desafio: responder às críticas sem transformar divergências políticas e históricas em rupturas com parceiros centrais do Mercosul.

Segundo a CNN Brasil, a crise com Buenos Aires levou à convocação do embaixador argentino em Brasília e ao retorno temporário do representante brasileiro na Argentina, enquanto o desgaste com Assunção resultou em uma nota de repúdio e em novas cobranças pela devolução de objetos levados durante a Guerra do Paraguai.

Milei atacou Lula e Moraes no Brasil

A tensão com a Argentina começou durante a convenção nacional do PL, realizada em 25 de julho, em São Paulo, para oficializar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.

Convidado para discursar no evento, Milei chamou Lula de “presidiário”, acusou o governo brasileiro de prender opositores e atacou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, com a expressão “lixo careca”.

O presidente argentino também defendeu a candidatura de Flávio Bolsonaro e afirmou que o senador seria capaz de derrotar Lula na eleição presidencial.

A presença de um chefe de Estado estrangeiro em uma convenção partidária brasileira já carregava significado político, mas o uso do evento para atacar diretamente autoridades nacionais ampliou a reação em Brasília.

De acordo com a CNN, o Palácio do Planalto considerou especialmente grave que as declarações tenham sido feitas em território brasileiro durante uma agenda acompanhada pela comitiva oficial argentina.

O embaixador da Argentina no Brasil, Guillermo Daniel Raimondi, foi chamado ao Itamaraty para prestar esclarecimentos.

Raimondi é um diplomata de carreira com experiência em negociações do Mercosul e assumiu a representação argentina em Brasília em 2024.

Embaixador brasileiro permanece em Brasília

Além de convocar o representante argentino, o governo brasileiro chamou o embaixador Julio Bitelli de volta a Brasília para consultas.

Bitelli participou de reuniões com o chanceler Mauro Vieira e com Lula para apresentar sua avaliação sobre o relacionamento com a Casa Rosada.

A convocação de um embaixador brasileiro para consultas não significa automaticamente o rompimento das relações ou o fechamento da representação diplomática.

Trata-se de um gesto político que permite ao governo ouvir seu representante, revisar a estratégia bilateral e demonstrar publicamente insatisfação.

O Brasil já havia utilizado o mesmo recurso em 2024, após outra participação de Milei em um evento conservador no país, quando Bitelli também retornou temporariamente a Brasília.

Até o momento, não havia indicação de que Milei ou o governo argentino preparassem um pedido oficial de desculpas.

Lula respondeu com “coisa” e “patacoada”

Lula evitou mencionar Milei pelo nome ao comentar o episódio, mas chamou o discurso do argentino de “patacoada” e se referiu ao presidente vizinho como “aquela coisa”.

O brasileiro afirmou que, como chefe de Estado, não pretendia manter uma troca permanente de ataques e voltou a defender que autoridades estrangeiras não interferissem nas eleições do país.

A reação preservou a crítica política, mas também demonstrou que a rivalidade pessoal entre os dois presidentes continua interferindo no ambiente diplomático.

Brasil e Argentina, entretanto, mantêm relações econômicas, produtivas e institucionais que ultrapassam as diferenças entre Lula e Milei.

Os dois países fazem parte do Mercosul e possuem cadeias industriais integradas, especialmente nos setores automotivo, agrícola, energético e de infraestrutura.

Paraguai reagiu à versão de Lula sobre a guerra

Enquanto o Itamaraty tentava conter o desgaste com a Argentina, uma declaração de Lula sobre a Guerra do Paraguai provocou nova reação regional.

Durante visita à Avibras Aeroco, em Jacareí, Lula afirmou que o Paraguai decidiu invadir o Brasil, ocupou Corumbá e também teria invadido Argentina e Uruguai, dando início a uma guerra que durou aproximadamente cinco anos.

A fala foi utilizada pelo presidente para defender o fortalecimento das Forças Armadas e a necessidade de o Brasil manter capacidade de dissuasão.

Parlamentares paraguaios acusaram Lula de apresentar uma versão incompleta e desrespeitosa do conflito.

O presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre, declarou que o brasileiro tratou com excessiva leveza a maior tragédia da história paraguaia e afirmou que seu país pagou pela paz “com sangue”.

Declaração misturou episódios históricos

A afirmação de que tropas paraguaias invadiram o Brasil está historicamente correta.

As forças de Francisco Solano López entraram na então província de Mato Grosso em dezembro de 1864, depois da apreensão do navio brasileiro Marquês de Olinda.

O Paraguai também invadiu a província argentina de Corrientes em 1865.

A referência feita por Lula a uma invasão simultânea do Uruguai, contudo, é imprecisa.

O Uruguai estava no centro da crise regional porque o Império do Brasil havia realizado uma intervenção militar no país em 1864, apoiando os colorados contra o governo blanco, mas não foi invadido pelo Paraguai nos mesmos moldes de Mato Grosso e Corrientes.

A Guerra da Tríplice Aliança resultou de uma sequência de disputas territoriais, intervenções políticas e rivalidades na Bacia do Prata, não de um único acontecimento isolado.

No Brasil, a narrativa costuma destacar a invasão de Mato Grosso.

No Paraguai, a intervenção brasileira no Uruguai e a destruição sofrida pelo país ocupam uma posição muito mais central na memória do conflito.

Assunção entregou nota de repúdio

O governo paraguaio convocou o embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes de Carvalho, para uma reunião na qual foi entregue uma nota formal de repúdio.

Convocar o embaixador de outro país para esclarecimentos é diferente de chamar o próprio representante de volta.

No primeiro caso, o governo anfitrião exige explicações diretamente ao diplomata estrangeiro.

No segundo, retira temporariamente seu embaixador da capital do outro país para consultas internas.

Segundo a CNN Brasil, Marcondes esclareceu às autoridades paraguaias que Lula não pretendia insultar ou desrespeitar o povo vizinho.

O vice-presidente Pedro Alliana afirmou que o Paraguai havia manifestado sua insatisfação pelos canais diplomáticos mais elevados, mas não desejava aprofundar o confronto.

Canhão Cristão voltou à disputa

A controvérsia também reabriu uma reivindicação histórica paraguaia.

Assunção pediu que o Brasil devolva o Canhão Cristão, documentos e outros objetos retirados do Paraguai durante a guerra.

A peça foi produzida a partir do derretimento de sinos de igrejas paraguaias, empregada em batalhas contra a Tríplice Aliança e capturada pelas forças brasileiras em 1868.

Atualmente, o canhão integra o acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.

O pedido não surgiu exclusivamente por causa da declaração de Lula.

A devolução do armamento já foi discutida em outras ocasiões por governos e parlamentares dos dois países, sem que uma solução definitiva fosse executada.

Em 2010, durante seu segundo mandato, Lula chegou a anunciar disposição para devolver a peça, mas entraves jurídicos e resistências impediram a transferência.

O novo pedido atribui à devolução um caráter de reparação e fraternidade, embora a decisão dependa de avaliações legais, patrimoniais e diplomáticas no Brasil.

Cooperação continuou apesar do desgaste

A tensão surgiu poucos meses depois de Lula sancionar uma lei que autorizou a doação ao Paraguai de seis obuseiros autopropulsados M108 e uma passadeira flutuante pertencentes ao Exército Brasileiro.

A justificativa oficial foi fortalecer a cooperação militar e as relações diplomáticas entre os dois países.

Brasil e Paraguai também compartilham a administração de Itaipu, mantêm uma extensa fronteira e trabalham conjuntamente em segurança, comércio, energia e combate ao crime transnacional.

Em dezembro de 2025, os dois países abriram a Ponte Internacional da Integração entre Foz do Iguaçu e Presidente Franco, criada para ampliar a conexão logística e reduzir a pressão sobre a Ponte da Amizade.

Esses vínculos ajudam a explicar por que os dois governos indicaram preferência pelo diálogo, mesmo após a troca de críticas.

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Alisson Ficher

Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 13 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com.