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Dezoito meses nas trincheiras da França, quatro ofensivas e 17 batalhas depois, Stubby, o vira-lata que entrou de penetra num navio de tropas, pegou um espião alemão desenhando as trincheiras aliadas e virou o primeiro cão sargento dos Estados Unidos

Dezoito meses nas trincheiras da França, quatro ofensivas e 17 batalhas depois, Stubby, o vira-lata que entrou de penetra num navio de tropas, pegou um espião alemão desenhando as trincheiras aliadas e virou o primeiro cão sargento dos Estados Unidos
Stubby com a manta de camurça feita na França: o Y da 26ª Divisão no ombro, os galões de tempo de serviço e as medalhas costuradas no pano. Foto de domínio público.
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O vira-lata apareceu no acampamento do 102º Regimento de Infantaria em New Haven em 1917 e terminou empalhado no Museu Nacional de História Americana, em Washington, depois de atravessar a guerra inteira na França.

No verão de 1917, um cachorro sem dono entrou num acampamento do Exército americano montado em volta do estádio da Universidade Yale, em New Haven.

Era um filhote de rabo curto, sem raça definida e sem nenhum motivo para estar ali.

Dezoito meses depois ele estava na França, com uma graduação militar, uma manta cheia de medalhas e um espião alemão no currículo.

O acampamento no estádio de Yale

A tropa que treinava naquele campo era o 102º Regimento de Infantaria, da 26ª Divisão, conhecida como Yankee Division.

Quem se afeiçoou ao cachorro foi o soldado Robert Conroy, que batizou o animal de Stubby por causa do rabo cortado.

Bicho adotado por unidade não é excentricidade americana, e o Exército Brasileiro mantém a prática até hoje, com um carneiro chamado Nicodemus desfilando em colégios militares.

A diferença é que Stubby não ficou no quartel.

O embarque clandestino

Quando a divisão recebeu ordem de seguir para a Europa, Conroy escondeu o cachorro a bordo do transporte de tropas SS Minnesota.

Foi assim que um vira-lata de New Haven desembarcou na França junto com os soldados de Connecticut.

Não havia previsão regulamentar para aquilo, e o animal seguiu com a unidade mesmo assim.

Dezoito meses de frente

Stubby passou 18 meses nas trincheiras com o 102º de Infantaria.

Nesse período participou de quatro ofensivas e de 17 batalhas.

A rotina da trincheira era feita de lama, ratos, tédio e medo, e a tropa inventava o que podia para atravessar aquilo, inclusive jornais escritos pelos próprios soldados.

O cachorro virou parte dessa engrenagem.

O gás

Ele sobreviveu a um ataque com gás.

O registro do museu americano da Primeira Guerra soma aos estilhaços os ferimentos causados por gás mostarda.

O efeito colateral foi o que deu utilidade militar ao animal: depois daquilo, Stubby ficou extremamente sensível a qualquer traço de gás no ar.

Passou a detectar a nuvem antes dos homens e a dar o alarme, o que valia minutos numa situação em que minutos decidiam quem colocava a máscara a tempo.

Também aprendeu a localizar feridos caídos entre as linhas.

O aviso de gás era um problema prático de toda trincheira, resolvido no braço com sinos, matracas e gongos improvisados.

Um faro treinado chegava antes de qualquer um desses.

O que um cão fazia numa guerra daquelas

Stubby não era exceção de espécie, era exceção de graduação.

Os exércitos europeus já empregavam cães em larga escala quando os americanos chegaram à França.

Eles levavam mensagem entre posições isoladas quando o fio de telefone era cortado pela artilharia.

Faziam sentinela nas linhas avançadas, onde o ouvido humano falhava no escuro.

Caçavam os ratos que infestavam os abrigos e comiam a ração da tropa.

E procuravam feridos na terra de ninguém depois dos ataques, função que ganhou nome próprio nos manuais da época.

O que nenhum deles tinha era ficha de assentamento e graduação.

Stubby também não foi o único bicho a receber tratamento de militar, e na Segunda Guerra um urso virou soldado do Exército polonês, com número de série e posto.

A diferença entre os dois casos está na origem.

O urso entrou por decisão administrativa, para resolver um problema de transporte de munição.

O cachorro entrou por afeto de um soldado e ficou porque passou a ser útil.

Seicheprey, abril de 1918

Em abril de 1918 o 102º atacou a aldeia de Seicheprey, ocupada pelos alemães, e caiu numa chuva de granadas.

Stubby estava no ataque e levou estilhaços na perna e no peito.

Foi tratado e voltou para a linha.

Seicheprey foi um dos combates mais duros enfrentados pela 26ª Divisão, uma tropa da Guarda Nacional formada por unidades da Nova Inglaterra.

O regimento saiu de lá com baixas pesadas e com a reputação feita.

O espião

O episódio que entrou para a história aconteceu quando o cachorro encontrou um homem levantando o traçado das trincheiras aliadas.

Era um espião alemão, e o animal o segurou até a chegada da tropa.

Pela captura, Stubby recebeu a graduação de sargento.

Foi o primeiro cão a receber uma graduação nas Forças Armadas dos Estados Unidos.

A manta de camurça

As mulheres de uma cidade francesa costuraram para ele uma manta de camurça.

Na peça foram costuradas bandeiras dos países aliados, uma divisa de ferimento em combate, galões que marcavam o tempo de serviço e as medalhas que ele foi juntando.

Era, na prática, a farda de um cachorro condecorado.

Distinção militar dada a quem não é da tropa costuma gerar discussão, e no Brasil o assunto reaparece sempre que uma Força condecora uma figura pública.

Três presidentes

De volta aos Estados Unidos, o cão virou celebridade.

Encontrou o presidente Woodrow Wilson e ainda fez duas visitas à Casa Branca, onde conheceu Warren Harding e Calvin Coolidge.

Desfilou em paradas e apareceu em jornais de todo o país.

O status de mascote nacional durou até o fim da vida dele.

Era comum a imprensa da época tratar o animal como veterano de fato, com direito a nome, posto e histórico de campanha.

Georgetown e o museu

Conroy foi estudar direito na Universidade Georgetown e levou o cachorro junto.

Stubby virou mascote dos Hoyas, o time da casa, e passou os últimos anos assistindo a jogos de futebol americano.

Morreu em 1926.

O corpo foi empalhado e está no Museu Nacional de História Americana, do Instituto Smithsonian, em Washington.

A manta de camurça com as condecorações foi preservada junto com ele.

A história voltou ao noticiário em abril de 2018, quando um longa de animação sobre o cachorro chegou aos cinemas e recolocou o nome dele em circulação um século depois do armistício.

O uso militar de animais nunca deixou de existir, e o cão de guerra brasileiro começa a ser treinado ainda filhote.

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Jefferson Silva

Jefferson Silva

Atuo na Sociedade Militar trazendo análises e conteúdos relacionados a Geopolítica, Tecnologia militar, Industria de Defesa e Inteligência Artificial.