O Decreto 3.371, de 7 de janeiro de 1865, criou os Corpos de Voluntários da Pátria com uma lista de vantagens por escrito. O Exército brasileiro tinha 18 mil homens quando a guerra começou.
Em 7 de janeiro de 1865, o governo imperial publicou o Decreto 3.371 e criou os Corpos de Voluntários da Pátria. O texto não pedia sacrifício em nome da bandeira e ponto: ele listava o que cada um receberia. Trezentos réis por dia depois que a guerra acabasse, dois alqueires e meio de terra, baixa ao fim do conflito para quem quisesse sair, pensão vitalícia para a família de quem morresse e soldo dobrado para quem voltasse incapacitado. No primeiro ano, o Ministério da Guerra alistou 10 mil pessoas com essa proposta, segundo levantamento da Gazeta do Povo.
O reconhecimento que chega tarde
O reconhecimento tardio virou um padrão que atravessou séculos. Um veterano da Segunda Guerra veterano mais idoso da FEB, oito décadas depois de voltar da Itália.
Por que o Império precisou fazer isso
O Exército brasileiro tinha cerca de 18 mil homens quando o conflito começou. Era um efetivo de país que não esperava guerra.
Com a convocação da Guarda Nacional, o número subiu para algo entre 60 mil e 70 mil. Ainda era pouco para uma campanha que duraria cinco anos.
O decreto foi a forma encontrada de puxar gente que não tinha nenhuma obrigação legal de ir. Daí o nome, e daí a lista de vantagens.
Quanto valia trezentos réis
A moeda da época era o mil-réis, e mil réis formavam um mil-réis. Trezentos réis por dia, portanto, eram menos de um terço dessa unidade.
O valor só começaria a ser pago depois do fim da guerra, e não durante. Quem se alistava trocava o presente por uma promessa de futuro.
A terra prometida também não era imediata. Dois alqueires e meio saíam de terreno público, o que dependia de demarcação, de registro e de burocracia provincial.
Nada disso era pequeno para quem se alistava. Para um trabalhador rural sem terra, dois alqueires e meio representavam a chance de deixar de trabalhar em terra alheia.
O que aconteceu com a promessa
A guerra terminou em 1870. O pagamento, não.
Por mais de quatro décadas, viúvas, órfãos, soldados mutilados e veteranos continuaram entrando com pedidos de pensão, de provisões, de soldo atrasado e dos lotes de terra prometidos no decreto.
O termo que a pesquisa histórica usa para essa geração é direto: os esquecidos da Guerra do Paraguai.
O Império caiu em 1889 sem ter liquidado a conta, e a República herdou os requerimentos empilhados.
Neste ano foi sancionada a Lei 9.530 aos veteranos militares cariocas.
A conta de quem foi e de quem não voltou
As estimativas de mobilização brasileira na guerra variam entre 120 mil e 150 mil pessoas, e alguns pesquisadores chegam a 200 mil.
Entre 7% e 10% eram pessoas libertas, alforriadas para servir.
O nome oficial dizia voluntário, mas boa parte do recrutamento se fez por pressão, por sorteio e por captura, e é por isso que a historiografia moderna trabalha com o termo involuntários.
As contas apontam não menos que 50 mil mortos, com estimativas que chegam a 100 mil.
A maior parte não morreu em combate. Morreu de doença e de fome, em acampamento, em marcha e em hospital de campanha.
Cólera, varíola e disenteria fizeram mais baixas do que o inimigo, num padrão que se repetiu em quase toda guerra do século XIX.
A guerra durou de 1864 a 1870 e foi a mais longa e a mais mortal da história da América do Sul.
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