Plano da FAB prevê renovar o apoio via Foreign Military Sales, recertificar dois lotes até 2030 e 2033 e revisar a estratégia até 2032, antes de a Marinha dos Estados Unidos deixar de operar a versão aérea do Harpoon, marco que afeta o suporte brasileiro.
A Força Aérea Brasileira (FAB) prevê iniciar ainda em 2026 a renovação do suporte contratado para os mísseis antinavio AGM-84L Harpoon Block II. O contrato complementar BR-P-GVX, responsável por parte da sustentação do sistema, tem vigência financeira prevista até setembro de 2026.
A informação consta no Plano de Suporte Logístico Integrado do Projeto Harpoon, aprovado pela Diretoria de Material Aeronáutico e Bélico. O documento também estabelece que o apoio obtido pelo sistema norte-americano Foreign Military Sales (FMS) ficará comprometido a partir de 2035.
O Harpoon foi incorporado para fornecer aos P-3AM Orion uma capacidade antinavio de longo alcance que essas aeronaves não possuíam. A integração da versão AGM-84L Block II exigiu homologação, treinamento, testes de voo e certificações antes de o armamento ser incorporado ao sistema de armas brasileiro.
Aquisição incluiu 16 mísseis reais e unidades de treinamento

A compra foi realizada pelo FMS, mecanismo usado pelo governo dos Estados Unidos em transferências militares a países parceiros. O Relatório de Gestão do Estado-Maior da Aeronáutica referente a 2015 registra o Case BR-P-ASP no valor de US$ 52.543.207.
O acordo contemplou 16 mísseis reais e quatro unidades destinadas ao treinamento, além da logística associada e de assistência técnica. O armamento foi destinado aos P-3AM empregados em patrulha marítima, vigilância de longo alcance e guerra antissubmarino.
Para empregar o Harpoon, o Orion utiliza sensores e sistemas de missão instalados na aeronave para localizar alvos navais e fornecer os dados necessários ao lançamento. A capacidade, porém, depende de uma estrutura de apoio que permanece parcialmente vinculada aos Estados Unidos.
Em 2021, a FAB assinou o Case BR-P-GVX para sustentar o sistema após a fase inicial do programa. O instrumento abrange assistência técnica, materiais, engenharia, atualização de publicações e outros serviços que não podem ser executados integralmente pela estrutura brasileira.
O plano prevê que a continuidade desse apoio seja financiada com recursos já reservados no sistema do programa e determina o início da renovação via FMS ainda em 2026. A medida permite manter serviços externos necessários enquanto a FAB amplia as atividades que consegue executar no país.
Manutenção foi parcialmente internalizada
Parte da sustentação do Harpoon já é realizada por equipes brasileiras. As atividades preventivas de primeiro nível incluem inspeções das condições de armazenamento e acompanhamento de componentes associados aos contêineres utilizados para acondicionar o armamento.
A FAB também dispõe de pessoal capacitado para trabalhos intermediários de segundo nível, como testes funcionais, identificação de falhas e verificação das condições gerais dos mísseis. Equipamentos específicos para essas atividades foram incorporados à estrutura de apoio da Força.

As intervenções mais complexas permanecem fora dessa capacidade. A FAB não possui manutenção de terceiro nível estruturada para o Harpoon, enquanto os serviços de quarto nível, classificados como industriais, dependem de contratação da fabricante Boeing.
A dependência externa também alcança determinados componentes, serviços de engenharia e intervenções industriais nos próprios equipamentos utilizados durante os testes. Por isso, a disponibilidade do armamento depende de peças, documentação técnica, meios de apoio e serviços certificados, além da existência física dos mísseis.
Dois lotes precisam ser recertificados antes de 2035
Os mísseis reais seguem ciclos de validade que exigem novas certificações. O planejamento da Aeronáutica estabelece que o Lote 89 deverá ser recertificado até 2030 e o Lote 91 até 2033, com antecedência na contratação dos serviços necessários.
A formação de estoques faz parte da mesma estrutura de sustentação. O documento prevê peças de segurança para itens não recuperáveis e estoques de giro para componentes recuperáveis, destinados a reduzir os efeitos dos períodos de fornecimento, reparo e retorno do material ao serviço.
O horizonte mais restritivo aparece em 2035. O plano registra a previsão de que a Marinha dos Estados Unidos deixe de operar naquele ano a versão de lançamento aéreo do Harpoon e relaciona essa retirada às condições futuras do apoio prestado ao Brasil pelo FMS.
A consequência prevista pela própria FAB é que o suporte via FMS ficará comprometido a partir de 2035. Até esse marco, o planejamento combina renovação do apoio externo, internalização das manutenções consideradas viáveis e formação de estoques para reduzir vulnerabilidades na cadeia logística.
A sustentação do míssil também permanece vinculada ao P-3AM. Como o Harpoon foi integrado ao sistema de armas do Orion brasileiro, mudanças de software, procedimentos de instalação, sistemas mecânicos ou programas de extensão da vida útil precisam ser avaliados de forma coordenada.
A Aeronáutica determinou que uma nova análise técnica seja realizada até 2032, três anos antes do marco previsto para a versão aérea do Harpoon nos Estados Unidos. Essa revisão deverá considerar dados operacionais acumulados, obsolescência, cenário geopolítico e alternativas aos instrumentos de suporte empregados no programa.
O plano também relaciona essa reavaliação à futura transição para novas plataformas após a desativação dos P-3AM Orion, fazendo com que a decisão prevista para 2032 alcance não apenas a sustentação dos mísseis existentes, mas também a continuidade da capacidade antinavio associada à patrulha marítima brasileira.