A Força Aérea Brasileira recorreu a uma solução temporária em 2016 para recuperar uma capacidade que havia ficado comprometida desde a retirada dos antigos KC-137. Em vez de comprar imediatamente um novo avião pesado, a FAB assinou um contrato de US$ 19,777 milhões para arrendar um Boeing 767-300ER por três anos, com manutenção e seguro incluídos.
O avião recebeu a designação C-767 e a matrícula FAB 2900, entrou em serviço no segundo semestre de 2016 e foi operado pelo Esquadrão Corsário, no Rio de Janeiro. O contrato tinha vigência até junho de 2019. Naquele mesmo período, a Aeronáutica chegou a tentar comprar um Boeing 767 para manter a capacidade de transporte estratégico, mas o processo foi suspenso por falta de recursos e acabou revogado.
O arrendamento surgiu depois que a FAB ficou sem um avião pesado de longo alcance
A lacuna começou após a retirada dos KC-137, versão militar do Boeing 707 usada pela FAB em transporte e reabastecimento em voo. Um acidente em Porto Príncipe, no Haiti, em 2013 levou à suspensão e depois ao encerramento da operação da frota.
Sem aquelas aeronaves, a Força perdeu uma parte importante da capacidade de deslocar grandes contingentes e cargas em rotas de longa distância. O TCU registra que essa restrição operacional permaneceu até junho de 2016, quando foi firmado o contrato para a locação do Boeing 767-300ER.
Contrato de US$ 19,777 milhões previa três anos de uso, manutenção e seguro
O acordo foi assinado em 8 de junho de 2016, em Washington, pela Comissão Aeronáutica Brasileira. A vencedora da licitação foi a Colt Transporte Aéreo S.A., e o valor total previsto foi de US$ 19,777 milhões.
O contrato cobria 36 meses de operação, além de suporte logístico e seguro. A vigência formal ia de 8 de junho de 2016 a 7 de junho de 2019. A solução foi tratada pela própria Aeronáutica como emergencial e provisória, destinada a preencher rapidamente a lacuna deixada pelo fim dos KC-137.

C-767 ampliou o alcance da FAB para transportar pessoal e carga em missões estratégicas
O Boeing 767-300ER oferecia uma capacidade muito superior à de aeronaves táticas menores. Na apresentação do projeto, a FAB informou capacidade para até 254 passageiros e cerca de 43,8 toneladas de carga útil, dependendo da configuração.
A proposta era empregar o avião em transporte de contingentes militares, missões humanitárias, resgate de brasileiros em áreas de conflito, apoio a atividades científicas e deslocamentos que exigissem alcance intercontinental. O Esquadrão Corsário, sediado no Galeão, ficou responsável pela operação.
Aeronave entrou em serviço em 2016 e retomou uma atividade que o Esquadrão Corsário havia perdido
O FAB 2900 chegou ao Brasil em julho de 2016 e rapidamente começou a cumprir missões logísticas. Na estreia operacional, transportou militares da FAB e da Marinha que reforçariam a segurança dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.
A entrada do C-767 também devolveu ao Esquadrão Corsário uma aeronave de grande porte depois da saída dos KC-137. Embora o 767 arrendado não tivesse capacidade de reabastecimento em voo, ele recuperou parte importante da função de transporte estratégico de pessoal e carga.
Em 2018, a FAB tentou transformar a solução temporária em uma compra definitiva

O uso do Boeing 767 levou a Aeronáutica a buscar uma solução permanente. Em outubro de 2018, o Grupamento de Apoio Logístico lançou uma concorrência internacional para comprar uma aeronave Boeing 767-300ER com suporte logístico por 36 meses.
Segundo o TCU, o Consórcio Cloud Aria apresentou a proposta vencedora, no valor global de US$ 28,044 milhões. O plano indicava que a FAB pretendia manter uma aeronave pesada de longo alcance mesmo depois do encerramento do contrato de leasing.
Falta de recursos interrompeu a compra poucos meses antes do fim do leasing
O processo de aquisição não avançou. Em 21 de fevereiro de 2019, o Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica determinou a suspensão imediata da licitação porque não havia garantia da integralidade dos recursos necessários ao investimento.
Uma semana depois, em 28 de fevereiro, a concorrência foi revogada. O contrato do C-767 arrendado seguiu até junho de 2019, encerrando o ciclo de três anos iniciado em 2016.
FAB ficou novamente sem o 767 e só anos depois recebeu outra solução de grande porte
O fim do contrato mostrou o caráter provisório da escolha feita em 2016. A FAB conseguiu recuperar rapidamente capacidade de transporte intercontinental sem comprar a aeronave, mas a tentativa de transformar essa experiência em uma aquisição definitiva não se concretizou naquele momento.
Anos depois, a Força voltaria a operar aeronaves de grande porte com a chegada dos Airbus A330-200 do projeto KC-X3. O C-767, porém, ficou como um caso particular na história recente da aviação militar brasileira: um avião alugado por três anos para cobrir uma lacuna operacional imediata, usado em missões estratégicas e retirado quando o contrato chegou ao fim.