A planta mineira que nasceu para produzir o Guarani amplia o chão de fábrica com o LMV-BR 2, enquanto transforma motores, fornecedores, engenharia e exportações em uma cadeia automotiva que vai muito além de uma encomenda militar
Em Sete Lagoas, Minas Gerais, uma fábrica brasileira que há pouco mais de uma década começava a produzir um novo blindado 6×6 chegou a outra etapa de sua história industrial. Depois de ultrapassar a marca de 700 Guarani fornecidos ao Exército Brasileiro e produzir veículos destinados também ao exterior, a IDV colocou em funcionamento uma nova linha dedicada ao LMV-BR 2 Guaicurus, com uma carteira de 420 unidades para fabricação ao longo de dez anos.
O contrato do Guaicurus, assinado em julho de 2024, vale R$ 1,4 bilhão e determina que os veículos sejam produzidos na própria unidade de Sete Lagoas. As primeiras entregas foram previstas para 2026.
O número ajuda a entender por que essa história cabe menos na lógica de emprego de um blindado e mais na de uma indústria automotiva especializada. Para atender à encomenda, é necessário manter linha de montagem, fornecedores, integração de componentes, mão de obra qualificada e capacidade fabril durante anos.
A nova estrutura também coloca lado a lado dois produtos de gerações e dimensões diferentes: o Guarani 6×6, que transformou Sete Lagoas em endereço conhecido da fabricação de blindados no Brasil, e o Guaicurus 4×4, que abre um novo ciclo produtivo na mesma planta.
O Guarani levou a fábrica de Sete Lagoas da primeira série às mais de 700 unidades
A origem dessa escala está no Guarani.
O programa começou a ganhar forma industrial após o contrato firmado em 2009 entre o Exército Brasileiro e a então Iveco Defence Vehicles. Em 2013, a empresa inaugurou em Sete Lagoas sua primeira fábrica de veículos blindados fora da Europa. Em novembro de 2021, a unidade já comemorava a entrega do 500º Guarani.
A marca continuou crescendo. Em 2025, a própria IDV informou que mais de 700 unidades do Guarani 6×6 já operavam no Exército Brasileiro.
Cada veículo exige uma quantidade de trabalho que ajuda a dimensionar o impacto industrial da série. Segundo dados divulgados pela IDV, a fabricação de um Guarani demanda aproximadamente 3.200 horas de trabalho.
Não se trata simplesmente de colocar casco, rodas e motor numa linha.
O Guarani utiliza arquitetura automotiva própria para um veículo de aproximadamente 20 toneladas, suspensão independente e motor FPT Cursor 9, de 8,7 litros e seis cilindros, configurado para entregar 380 cavalos de potência. A transmissão é automática.
Essa combinação é particularmente interessante quando a viatura é observada como produto automotivo: são componentes de powertrain, transmissão, suspensão, eletrônica e estrutura trabalhando em conjunto num veículo muito mais pesado que um automóvel ou utilitário convencional.
Um blindado de 20 toneladas que também entra na água
O Guarani foi desenvolvido como um veículo 6×6 anfíbio.
Essa característica significa que o produto fabricado em Minas Gerais precisa conciliar exigências que normalmente não aparecem juntas em veículos rodoviários: deslocamento terrestre, suspensão independente, grande massa, proteção estrutural e capacidade de navegação na água.
A IDV informa que a versão de transporte de pessoal utiliza o Cursor 9 de 380 cv e pode levar até 11 ocupantes. A arquitetura modular permite que o mesmo veículo seja transformado em diferentes configurações, sem que seja necessário criar um projeto automotivo inteiramente novo para cada uma delas.
É justamente essa modularidade que ajuda a explicar a longevidade industrial do produto. A plataforma básica pode alimentar diferentes lotes e versões enquanto preserva parte relevante da cadeia de componentes, ferramental e conhecimento acumulado no chão de fábrica.
Na indústria automotiva, escala não é apenas quantidade. É também a possibilidade de repetir processos, manter fornecedores e diluir o conhecimento de produção durante muitos anos.
Das estradas mineiras para as Filipinas
Sete Lagoas não produz apenas para o mercado brasileiro.
As Filipinas encomendaram 28 Guarani, em um contrato no qual a israelense Elbit Systems atuou como contratante principal. A fabricação dos veículos ficou vinculada à planta brasileira.
Os primeiros cinco foram apresentados em Sete Lagoas em junho de 2022. A encomenda total compreendia 28 veículos.
Em agosto de 2025, nove outras unidades produzidas em Minas Gerais estavam no Porto de Santos para seguir ao país asiático, segundo reportagem local que acompanhou o programa de exportação.
A operação mostra uma característica relevante da fábrica: o mesmo parque industrial criado em torno de uma grande encomenda brasileira passou a permitir que unidades saíssem de Minas Gerais com destino a um cliente do outro lado do mundo.
Há uma diferença importante em relação à Argentina.
Em janeiro de 2023, Brasil e Argentina assinaram uma carta de intenção para avançar nas negociações de 156 Guarani. O documento oficial argentino descreve explicitamente a iniciativa como etapa para negociar um futuro contrato, e não como uma aquisição concluída. Por isso, os 156 veículos não devem ser apresentados como venda já fechada.
Esse detalhe muda pouco a dimensão industrial do projeto, mas muda bastante a precisão da história.
O plano original falava em 2.044 veículos ao longo de vinte anos
Quando o projeto ainda estava entrando na fase de industrialização, a escala desenhada era ainda maior.
O acordo firmado em dezembro de 2009 previa originalmente até 2.044 unidades do modelo-base da nova família de blindados e suporte logístico por aproximadamente vinte anos. A produção deveria ocorrer no Brasil, incluindo motores, apoiada por uma cadeia com mais de cem fornecedores diretos e centenas de fornecedores indiretos.
Documentos do Ministério da Defesa da época também registravam a previsão de fabricação de 2.044 blindados ao longo de vinte anos.
O planejamento original passou posteriormente por ajustes de quantidade e cronograma. Por isso, o número de 2.044 é mais útil hoje como retrato da escala industrial imaginada na origem do programa do que como quantidade que ainda possa ser tratada automaticamente como encomenda vigente a ser entregue.
Mais de uma década depois, porém, uma parte importante daquele raciocínio industrial permanece visível: existe uma fábrica dedicada, conhecimento acumulado, uma cadeia de fornecedores e produção seriada em território brasileiro.
Agora o chão de fábrica ganha o Guaicurus
A próxima fase tem quatro rodas.
Em 2026, a IDV inaugurou em Sete Lagoas uma nova linha destinada à produção seriada do LMV-BR 2 Guaicurus. O veículo faz parte do contrato de R$ 1,4 bilhão para 420 unidades assinado em 2024.
Segundo informações divulgadas sobre o cronograma industrial, a previsão era entregar 15 unidades em 2026 e atingir posteriormente uma média próxima de 55 veículos anuais, com produção seguindo até 2034.
Antes dessa encomenda, a empresa já havia produzido para o Brasil 32 unidades do LMV-BR de primeira geração. Naquele lote, a montagem final também ocorreu em Sete Lagoas, com integração de componentes nacionais.
O salto agora é de escala.
Passar de um lote de 32 veículos para uma carteira de 420 significa transformar um produto de presença relativamente pequena na fábrica em um programa industrial de vários anos.
Guarani e Guaicurus passam, assim, a dividir algo mais importante que a origem militar de seus compradores: ambos dependem da permanência de uma estrutura automotiva altamente especializada em Minas Gerais.
Sete Lagoas virou um endereço de desenvolvimento automotivo, não apenas de montagem
A importância de Sete Lagoas para o grupo também não se resume às linhas de blindados.
O complexo abriga atividades de engenharia e desenvolvimento de produtos. Em 2026, o Iveco Group informou que seu Centro de Desenvolvimento de Produto instalado na cidade contava com uma infraestrutura de testes de aproximadamente 300 mil metros quadrados, inaugurada em 2015, onde já haviam sido executados cerca de cinco mil testes.
É uma diferença relevante.
Uma fábrica pode receber peças e montá-las. Um polo automotivo com engenharia, testes, motores, integração de componentes e linhas dedicadas acumula capacidade para modificar produtos, validar soluções e atender novas encomendas.
Foi esse ecossistema que começou com o Guarani e agora ganha outra frente com o Guaicurus.
O resultado mais visível continua sendo um veículo blindado saindo da linha. A história industrial está no que permanece quando ele deixa o portão: ferramental, profissionais treinados, fornecedores, engenharia e uma fábrica que precisa continuar produzindo o próximo.