Com quase 190 metros de comprimento, os dois novos ASEV serão maiores que os destróieres mais avançados da frota japonesa e concentrarão radares SPY-7, defesa contra mísseis balísticos e espaço para armamentos de longo alcance.
O Japão começou a transformar um sistema antimíssil que originalmente ficaria instalado em terra em dois dos maiores navios de combate já planejados para sua força naval. Com aproximadamente 12 mil toneladas de deslocamento padrão, quase 190 metros de comprimento e 128 células de lançamento vertical, os futuros Aegis System Equipped Vessels — ASEV — foram concebidos para permanecer no mar procurando, acompanhando e, se necessário, interceptando ameaças que se aproximem do arquipélago japonês.
O tamanho explica por que os navios já ganharam comparações com verdadeiras “muralhas flutuantes”. Eles serão consideravelmente maiores que os atuais destróieres Aegis da classe Maya e foram projetados em torno de uma missão que se tornou central para Tóquio: reforçar a defesa contra mísseis balísticos, armas de trajetória mais complexa e outras ameaças aéreas em um ambiente estratégico marcado pelo avanço militar da China e pelo arsenal de mísseis da Coreia do Norte.
A reportagem do Motorpasión destaca justamente a dimensão dos navios e sua enorme quantidade de lançadores. Documentos do próprio Ministério da Defesa japonês confirmam que serão construídas duas unidades e que o programa nasceu para substituir o sistema terrestre Aegis Ashore.
A muralha que deveria ficar em terra acabou indo para o mar
A origem do ASEV está em uma mudança de rumo tomada pelo governo japonês em 2020.
O país pretendia instalar duas posições terrestres do Aegis Ashore, versão fixa do conhecido sistema de defesa Aegis. Depois que o plano foi abandonado, o governo decidiu preservar parte da capacidade pretendida colocando o sistema em dois grandes navios especialmente projetados para a missão.
O Ministério da Defesa japonês registra oficialmente que a aquisição dos dois Aegis System Equipped Vessels foi decidida em substituição ao Aegis terrestre.
Essa mudança fez mais do que simplesmente transferir radares e interceptadores de uma base para um casco. Uma instalação terrestre permanece no mesmo ponto. Um navio pode mudar de posição conforme o cenário estratégico, ser reposicionado para cobrir diferentes setores e operar integrado a outros meios da frota.
É aí que o tamanho do ASEV começa a fazer sentido.
Cada embarcação terá aproximadamente 190 metros de comprimento e 25 metros de boca, com deslocamento padrão em torno de 12 mil toneladas. Para comparação, um destróier japonês da classe Maya mede cerca de 170 metros e desloca aproximadamente 8.200 toneladas em condição padrão.
Mais que um destróier Aegis convencional, portanto, o ASEV foi desenhado ao redor da função de defesa aérea e antimíssil de longa permanência.
128 células Mk 41 transformam o convés em um enorme arsenal vertical
O número que mais chama atenção está debaixo do convés.
Cada ASEV deverá receber 128 células do sistema de lançamento vertical Mk 41 VLS, segundo especificações do programa citadas pela Janes. É uma capacidade superior à encontrada nos atuais destróieres Aegis japoneses.
É importante fazer uma distinção: 128 células não significam necessariamente 128 mísseis de um único modelo. O Mk 41 é um sistema modular. A composição pode variar conforme a missão e os armamentos embarcados.
Entre as armas previstas estão os interceptadores SM-3 Block IIA, voltados principalmente à defesa contra mísseis balísticos, e o SM-6, que amplia as possibilidades de defesa aérea e de enfrentamento de ameaças mais complexas. O Ministério da Defesa afirma que os ASEV deverão possuir capacidades equivalentes ou superiores às dos mais modernos navios Aegis japoneses.
O projeto também foi pensado com margem de crescimento.
O governo japonês cita a possibilidade de integração futura da versão aprimorada do míssil Type 12, além de sistemas destinados ao enfrentamento de veículos planadores hipersônicos. O desenho considera ainda espaço para tecnologias que venham a surgir durante as décadas de serviço dos navios.
Isso altera o papel da embarcação. Ela não será apenas uma plataforma que espera um míssil chegar para tentar derrubá-lo. A política de defesa japonesa vem incorporando também armas de maior alcance, capazes de ampliar as opções de resposta do país.
Japanese are very fast with ship building.
— 信濃 Æýà (@Shinano_AEya) August 30, 2026
March 26 and today. ASEV-class destroyer.
190 m hull, SPY-7 Aegis, 128cell Mk 41 VLS. SM-3 for ballistic missiles, SM-6, plus Japan’s long range Type 12 SSM. pic.twitter.com/RQZixtqWwe
Quatro radares SPY-7 serão os olhos do novo sistema
Toda essa quantidade de interceptadores dependerá de sensores capazes de detectar e acompanhar alvos a grandes distâncias.
O principal deles será o AN/SPY-7(V)1, da Lockheed Martin, integrado ao sistema de combate Aegis. Cada navio utilizará quatro grandes faces de radar, oferecendo cobertura ao redor da embarcação.
Em 17 de agosto de 2026, a Lockheed Martin informou ter concluído a validação do primeiro conjunto completamente integrado destinado ao ASEV. O pacote reúne as quatro antenas SPY-7, processamento do radar, sistemas de energia e refrigeração e os computadores e displays do Aegis Combat System.
Segundo a empresa, o equipamento estava sendo preparado para envio ao Japão ainda em 2026, onde passaria pela instalação no navio e pelos testes finais de aceitação.
É um detalhe que mostra em que estágio o programa realmente se encontra: os ASEV deixaram há tempos de ser apenas representações digitais divulgadas pelo Ministério da Defesa. Cascos e sistemas de combate avançam paralelamente.
Os dois gigantes já estão em construção em estaleiros diferentes
Os contratos de construção foram formalizados pelo Ministério da Defesa em 2024.
A Mitsubishi Heavy Industries recebeu o contrato da primeira unidade, enquanto a Japan Marine United ficou responsável pelo segundo navio.
A quilha do primeiro ASEV foi batida em 18 de julho de 2025, no estaleiro da Mitsubishi Heavy Industries em Nagasaki.
A segunda unidade entrou formalmente na etapa de construção em 5 de fevereiro de 2026, no estaleiro de Isogo da Japan Marine United, em Yokohama. Os dois cascos estão, portanto, sendo produzidos simultaneamente em instalações diferentes.
Essa cronologia merece atenção porque algumas publicações recentes descreveram o evento de fevereiro como se o segundo navio já tivesse sido lançado ao mar. Os registros disponíveis sobre o programa apontam para o batimento de quilha, etapa muito anterior ao lançamento.
O primeiro navio tem sua incorporação à Força Marítima de Autodefesa do Japão planejada para o fim da década, seguido pela segunda unidade. Cronogramas divulgados em 2026 apontam para entrada em serviço das embarcações entre 2027 e 2028, embora etapas de construção, testes de mar e integração dos sistemas ainda possam alterar essas datas.
China e Coreia do Norte explicam por que o Japão quer esse poder de fogo
Os navios não estão sendo construídos isoladamente de uma transformação maior na política de defesa japonesa.
O próprio Ministério da Defesa descreve um ambiente regional no qual ameaças aéreas e de mísseis estão se tornando mais numerosas e sofisticadas. A arquitetura atual de defesa japonesa combina oito destróieres equipados com Aegis com baterias terrestres Patriot PAC-3 e uma rede de comando e controle que conecta os diferentes sensores e interceptadores.
A Coreia do Norte continua desenvolvendo e testando diferentes famílias de mísseis balísticos, alguns capazes de alcançar o território japonês.
Ao mesmo tempo, o aumento das capacidades navais, aéreas e de mísseis da China influencia diretamente os cálculos estratégicos de Tóquio, especialmente no Mar da China Oriental e na região das ilhas Senkaku — administradas pelo Japão e reivindicadas por Pequim.
É nesse cenário que os dois ASEV devem operar.
O elemento realmente novo não está apenas nas 12 mil toneladas ou nas 128 células. O Japão está concentrando em dois cascos móveis uma combinação pouco comum de radar de grande capacidade, enorme estoque potencial de interceptadores, sistema Aegis e espaço reservado para armas que ainda estão em desenvolvimento.
A primeira grande prova virá quando o navio construído em Nagasaki deixar o estaleiro e começar a integrar no mar aquilo que hoje está sendo montado separadamente: casco, SPY-7, Aegis e armamento.
Até lá, o Japão estará construindo não apenas dois navios maiores. Estará materializando no mar a resposta encontrada depois de desistir de erguer seu escudo antimíssil em terra.