Seul já abriu o estudo conceitual que deverá definir requisitos, arquitetura e tecnologias da aeronave; projeto mira a década de 2040 e prevê furtividade avançada, motores adaptativos e integração com sistemas não tripulados
A Coreia do Sul começou a preparar o caça que pretende colocar no centro de sua força aérea nas próximas décadas. Enquanto os primeiros KF-21 Boramae entram na fase de incorporação operacional e os F-35A garantem a capacidade furtiva atual do país, Seul já olha para a geração seguinte: uma aeronave de combate de 6ª geração, projetada para atuar em conjunto com plataformas tripuladas e não tripuladas e, no futuro, ocupar o espaço hoje preenchido pelos F-16.
Segundo a publicação espanhola Defensa.com, a proposta sul-coreana é pensar uma aeronave capaz de operar ao lado da frota de F-35 e assumir progressivamente as missões dos F-16 nas próximas duas décadas. O movimento não significa que o novo caça já tenha entrado em desenvolvimento pleno. Neste momento, o país está definindo o que pretende construir e quais tecnologias precisará dominar para chegar lá.
A Administração do Programa de Aquisição de Defesa da Coreia do Sul, a DAPA, abriu em 21 de agosto de 2026 uma solicitação de propostas para o chamado Korean Next-Generation Fighter Concept Study. O trabalho terá duração prevista de 14 meses e orçamento de aproximadamente 900 milhões de won, cerca de US$ 650 mil. O valor reduzido para os padrões da aviação militar deixa clara a natureza desta etapa: não se trata da fabricação de protótipos, mas da definição do conceito da futura aeronave.
O novo caça ainda está no papel, mas Seul já definiu tecnologias que quer dominar
Os estudos iniciais trabalham com configurações bastante diferentes dos caças sul-coreanos atualmente em serviço. Entre as possibilidades examinadas aparece uma aeronave sem superfícies verticais de cauda, solução que pode reduzir a assinatura radar e que também surge em projetos internacionais de próxima geração.
Os requisitos estudados incluem materiais absorventes de radar e baixa observabilidade em diferentes bandas, incluindo L, S e X, além de compartimentos internos para armamentos. Manter mísseis e bombas dentro da fuselagem é uma característica fundamental de aeronaves furtivas porque reduz elementos externos capazes de aumentar sua assinatura radar.
Outro ponto especialmente ambicioso está na propulsão. O conceito considera dois motores de ciclo adaptativo, tecnologia projetada para alterar o fluxo interno do motor conforme a necessidade da missão e buscar uma combinação melhor entre eficiência, alcance e desempenho.
Também está prevista capacidade de voo supersônico sustentado, enquanto inteligência artificial, comunicações avançadas e integração com aeronaves não tripuladas aparecem no horizonte tecnológico do programa.
Não são detalhes menores. Um país que até poucos anos atrás dependia fortemente de aeronaves de combate desenvolvidas no exterior agora tenta estabelecer, com duas décadas de antecedência, quais tecnologias precisará controlar para não chegar aos anos 2040 novamente dependente de uma solução estrangeira.
Antes do caça de 6ª geração, existe um degrau chamado KF-21
A estratégia sul-coreana não começa do zero.
O KF-21 Boramae representa o principal degrau industrial entre a atual frota e a ambição de desenvolver uma aeronave de próxima geração. Seu desenvolvimento formal foi concluído em julho de 2026 depois de aproximadamente 1.600 voos de teste, e as primeiras entregas à Força Aérea sul-coreana estão previstas para 2026.
O planejamento estabelece a incorporação de 40 KF-21 entre 2026 e 2028, seguida por mais 80 aeronaves até 2032, chegando a uma força prevista de 120 unidades. O caça deverá substituir principalmente plataformas antigas como F-4 e F-5, enquanto evoluções posteriores ampliarão suas capacidades de combate.
Isso ajuda a entender por que o projeto de 6ª geração não deve ser visto simplesmente como um substituto do KF-21.
A Coreia do Sul trabalha com uma transição muito mais ampla. O KF-21 cria conhecimento industrial, cadeia de fornecedores, experiência de integração de sensores, armamentos, software e produção seriada. O futuro caça poderá aproveitar parte desse ecossistema, mas deverá representar uma mudança de geração bem mais profunda.
F-35 continuará na força enquanto novo caça é preparado
A existência de um projeto nacional de próxima geração também não significa abandono do F-35A Lightning II.
O caça norte-americano representa atualmente a principal capacidade de 5ª geração da Coreia do Sul e deverá permanecer operacional por muitos anos quando o novo avião começar a aparecer.
A própria lógica do planejamento prevê uma frota com diferentes gerações coexistindo. O F-35 oferece hoje furtividade, sensores integrados e capacidade de operar em ambientes fortemente defendidos. O futuro caça nacional deverá surgir posteriormente, incorporando tecnologias desenvolvidas ao longo das décadas de 2030 e 2040.
Na prática, é perfeitamente possível que F-35, KF-21 e o futuro caça de 6ª geração dividam o espaço aéreo sul-coreano durante determinado período, cada um cumprindo missões e níveis de exigência diferentes.
Essa sobreposição é comum em grandes forças aéreas. Caças não são simplesmente retirados quando aparece uma geração posterior; permanecem em serviço enquanto houver vida estrutural, modernizações disponíveis e missões nas quais continuem economicamente úteis.
O verdadeiro alvo de substituição é o F-16
O planejamento apresentado pela Força Aérea da Coreia do Sul aponta para uma mudança mais clara depois de meados da década de 2040: a substituição dos F-16 por caças de próxima geração.
Em uma apresentação anterior ao Comitê de Defesa Nacional da Assembleia Nacional, a Força Aérea indicou que pretende obter tecnologias de 6ª geração no período posterior a meados dos anos 2040, citando entre elas furtividade avançada, armamentos compactos, motores e comunicações quânticas.
A mesma estratégia prevê uma evolução gradual da cooperação entre aeronaves tripuladas e não tripuladas. No início dos anos 2030, sistemas não tripulados descartáveis poderão ser integrados ao FA-50. Na segunda metade daquela década, aeronaves de combate não tripuladas deverão trabalhar em conjunto com o KF-21. O degrau seguinte seria justamente uma arquitetura de 6ª geração.
Assim, o futuro caça não aparece isoladamente. Ele será apenas a parte tripulada — ou principal — de um sistema de combate muito maior.
Drones poderão deixar de ser apoio para virar parte da formação de combate
Uma das diferenças fundamentais entre os conceitos tradicionais de caça e aquilo que hoje é chamado de 6ª geração está fora da própria aeronave.
O futuro piloto poderá não combater sozinho.
A tendência internacional é que os novos caças trabalhem conectados a aeronaves não tripuladas capazes de carregar sensores, interferidores eletrônicos e armamentos. Algumas poderão avançar para posições mais perigosas sem colocar diretamente uma tripulação em risco.
A Força Aérea sul-coreana já fala em desenvolver capacidades de combate integrado entre plataformas tripuladas e não tripuladas baseadas em inteligência artificial.
Nesse cenário, o caça passa a funcionar não apenas como plataforma de lançamento de armas, mas também como nó de comando, coleta e distribuição de informações.
Para a Coreia do Sul, essa característica tem peso particular. O país precisa considerar simultaneamente a ameaça norte-coreana e um ambiente regional no qual China, Japão, Rússia e Estados Unidos operam ou desenvolvem algumas das aeronaves militares mais avançadas do mundo.
Entrar na corrida da 6ª geração agora evita começar tarde demais
O calendário ajuda a explicar por que Seul abriu um estudo tão cedo.
Projetar uma aeronave dessa complexidade pode consumir mais de uma década entre definição de requisitos, pesquisa tecnológica, protótipos, ensaios, industrialização e entrada em serviço. Esperar os F-16 se aproximarem do fim definitivo da vida operacional para começar a pensar no substituto criaria uma lacuna difícil de resolver.
A Coreia do Sul parece tentar justamente evitar esse cenário.
Ainda há uma enorme distância entre um estudo de 900 milhões de won e um programa completo de caça que provavelmente exigirá investimentos de muitos bilhões ao longo de vários anos. O formato final da aeronave pode mudar, requisitos poderão ser abandonados e até o cronograma poderá sofrer revisões.
O passo dado em 2026 é anterior a tudo isso: decidir que tipo de poder aéreo o país pretende possuir quando seus caças atuais começarem a envelhecer de forma definitiva.
Seul conseguiu transformar o KF-21 de projeto em uma aeronave real. Agora quer descobrir se a experiência acumulada será suficiente para dar um salto ainda maior e colocar a indústria sul-coreana entre o pequeno grupo capaz de conceber um sistema de combate aéreo de 6ª geração.
Fonte: Defensa.com — Coreia do Sul projetará caça de 6ª geração