Revista Sociedade Militar, todos os direitos reservados.

País vizinho envia gigante destroyer, helicóptero e mais de 200 militares ao UNITAS, exercício que reúne 24 países, 26 navios e cerca de 5.300 militares no Peru

Felipe Alves da Silva
Por Felipe Alves da Silva 14/09/2026 às 13:39
Compartilhar
País vizinho envia gigante destroyer, helicóptero e mais de 200 militares ao UNITAS, exercício que reúne 24 países, 26 navios e cerca de 5.300 militares no Peru
Destroyer ARA Almirante Brown representa a Armada Argentina no UNITAS LXVII 2026, exercício multinacional realizado no Peru.

A Argentina colocou no Pacífico o ARA Almirante Brown, destroyer de 125,9 metros e 3.600 toneladas, acompanhado por helicóptero Fennec, Infantes de Marinha e especialistas em ciberdefesa para uma das maiores manobras navais multinacionais do continente

Um destroyer de quase 126 metros de comprimento, um helicóptero naval e mais de 200 militares argentinos passaram a integrar uma força multinacional que concentra navios, submarinos, aeronaves e milhares de militares no Peru. A Armada Argentina iniciou sua participação no UNITAS LXVII 2026 com o ARA Almirante Brown, um dos principais navios de combate de superfície do país vizinho.

O tamanho do destacamento argentino ganha outra dimensão quando comparado ao conjunto mobilizado para o exercício. A edição de 2026 reúne 24 países, aproximadamente 26 navios, 21 aeronaves, veículos aéreos não tripulados, submarinos e milhares de participantes, distribuídos por diferentes cenários no território peruano.

As atividades começaram em 10 de setembro e seguem até 24 de setembro, tendo El Callao como um dos principais pontos de concentração, mas com operações previstas também em Ancón, Salinas, Junín e na região amazônica de Iquitos. A Marina de Guerra do Peru havia confirmado ainda durante o planejamento que o exercício empregaria componentes navais, aéreos, submarinos, anfíbios e de ciberdefesa.

Para a Argentina, porém, a história não se resume a enviar uma tripulação para acompanhar uma grande manobra internacional. O país colocou no exercício um navio de guerra de grande porte equipado para atuar contra alvos de superfície, ameaças aéreas e submarinas.

O “gigante” argentino tem 125,9 metros, 3.600 toneladas e chegou ao Peru com um Fennec embarcado

Argentina envia destroyer ARA Almirante Brown, helicóptero e mais de 200 militares ao UNITAS 2026, grande exercício naval realizado no Peru. Imagem: Divulgação/wikipedia

O ARA Almirante Brown (D-10) pertence à classe MEKO 360 e aparece nos documentos oficiais peruanos como um destroyer com 125,9 metros de comprimento, 15 metros de boca e deslocamento de 3.600 toneladas.

A autorização peruana para o ingresso da unidade registra 245 tripulantes no navio. Separadamente, o helicóptero AS-555SN Fennec aparece com oito tripulantes em sua ficha própria.

Isso ajuda a dimensionar o emprego argentino no UNITAS. Não se trata apenas de observadores ou de um pequeno grupo de Estado-Maior: Buenos Aires levou ao Pacífico uma unidade de combate completa, acompanhada de seu componente aeronaval.

A ficha técnica divulgada pelo Peru também revela o arsenal do navio. O Almirante Brown dispõe de dois lançadores de mísseis antinavio Exocet MM-40, sistema de mísseis superfície-ar Aspide, um canhão OTO Melara de 127 mm, quatro canhões Breda Bofors de 40 mm e lançadores de torpedos.

O conjunto eletrônico inclui radares de alerta, navegação e controle de tiro, além de sonar de casco.

São características que explicam por que um navio dessa categoria interessa particularmente em um exercício que simula operações simultâneas contra ameaças na superfície, debaixo d’água e no espaço aéreo.

O AS-555 Fennec amplia essa capacidade ao permitir que o destroyer trabalhe de forma integrada com uma aeronave embarcada. Segundo a Armada Argentina, o destacamento inclui ainda pessoal de Infantería de Marina, especialistas em Ciberdefesa e integrantes do Estado-Maior.

Argentina chegou ao UNITAS depois de treinar guerra antissubmarino no Pacífico

A viagem do Almirante Brown não começou no UNITAS.

Antes de ingressar na grande manobra multinacional, o destroyer argentino participou do SIFOREX XIV, exercício voltado especialmente para guerra antissubmarino e operações antissuperfície realizado entre 6 e 9 de setembro nas proximidades de El Callao.

Ali, a tripulação argentina treinou ao lado de unidades da Marina de Guerra do Peru e da Marinha dos Estados Unidos.

Encerrado o SIFOREX, o Almirante Brown praticamente passou de um treinamento especializado para outro cenário consideravelmente maior.

A sequência é importante porque permite à tripulação aproveitar o mesmo deslocamento de longa distância para realizar dois níveis diferentes de adestramento: primeiro, um exercício particularmente concentrado no ambiente submarino; depois, uma operação multidomínio envolvendo dezenas de meios de diferentes países.

Há ainda uma particularidade para a Argentina. A Zona Militar observa que o treinamento antissubmarino permite à sua Força de Submarinos conservar e atualizar conhecimentos operacionais mesmo em um período no qual a Armada Argentina não dispõe de submarinos próprios em condição operacional.

Esse é o tipo de detalhe que transforma uma participação diplomática em uma necessidade operacional: interoperar com forças estrangeiras também permite manter conhecimentos que seriam mais difíceis de exercitar apenas com os meios atualmente disponíveis no país.

UNITAS reúne navios, aeronaves, submarinos e operações de ciberdefesa

O UNITAS de 2026 é muito maior do que uma formação de navios navegando conjuntamente no Pacífico.

A organização trabalha com operações de guerra antissubmarino, guerra antissuperfície, defesa aérea, operações anfíbias, Forças Especiais, ciberdefesa e resposta a desastres. Também estão previstos cenários marítimos, terrestres, fluviais e lacustres.

A escala inicialmente divulgada apontava para 24 países, 26 navios, 21 aeronaves, mais de seis veículos não tripulados, três submarinos e mais de 5.300 participantes.

Com o exercício já iniciado, números oficiais peruanos passaram a apontar uma concentração ainda maior de pessoal: o Diário Oficial El Peruano informou em 12 de setembro mais de 5.700 participantes, mantendo 24 países, 26 navios e 21 aeronaves, mas registrando dois submarinos na configuração efetivamente apresentada na abertura.

A diferença não é necessariamente uma contradição. Planejamentos militares desse porte são fechados meses antes da execução e a composição efetiva pode sofrer alterações até a chegada das unidades. Para uma reportagem publicada com o exercício em andamento, porém, é importante distinguir a previsão inicial de mais de 5.300 participantes da informação atualizada de mais de 5.700 divulgada pelo Peru durante a abertura.

Sob o lema “Unidos por el Mar”, as forças serão distribuídas nas fases Pacífico, Amazônia e Anfíbia. O Peru também anunciou emprego de veículos não tripulados, ciberdefesa e até atividades de mergulho em altitude superior a 3.000 metros.

UNITAS nasceu em 1960 e hoje vai muito além das operações tradicionais no mar

O UNITAS não é uma criação recente.

Sua primeira edição foi realizada em 1960, e o exercício chegou em 2026 à 67ª edição. O próprio nome deriva do latim e remete à ideia de “unidade”, sintetizando a intenção de colocar forças de diferentes países sob uma estrutura comum de comando e controle.

Ao longo das décadas, o modelo evoluiu.

O que originalmente tinha forte caráter naval passou a incorporar aviação, submarinos, forças anfíbias, tropas de operações especiais, sistemas não tripulados e ciberdefesa.

Essa variedade produz um problema que os militares precisam solucionar durante o exercício: fazer navios, aeronaves e tropas de países diferentes, com equipamentos, idiomas, doutrinas e procedimentos distintos, funcionarem como parte de uma mesma força.

É justamente aí que está uma das maiores utilidades do UNITAS. A capacidade individual de um destroyer, submarino ou caça importa, mas uma crise real pode exigir que esses meios compartilhem informações, coordenem movimentos e tomem decisões dentro de uma estrutura multinacional.

Argentina já olha para 2027, quando receberá o UNITAS

Para a Armada Argentina, a experiência deste ano também serve como preparação para algo maior.

O comandante do ARA Almirante Brown, Capitão de Fragata Pablo Damián Moyano, classificou o UNITAS como o principal exercício naval multinacional do ano para a Armada Argentina e destacou que a participação no Peru permitirá acumular experiência para a edição seguinte.

Isso porque a Argentina deverá ser a anfitriã do UNITAS em 2027.

O país deixa, portanto, de ser apenas participante para começar a observar também como uma estrutura de grandes proporções é organizada, comandada e sustentada logisticamente.

O Almirante Brown e sua tripulação permanecerão envolvidos em um exercício que atravessa diferentes ambientes e reúne forças de quatro continentes. Para a Argentina, cada procedimento realizado no Peru — do planejamento em Estado-Maior às operações no mar — também pode funcionar como preparação para receber essas marinhas em suas próprias águas no próximo ano.

Há, porém, uma informação que ainda merece acompanhamento do lado brasileiro. O Brasil aparece entre os países ligados ao UNITAS 2026, mas, até o momento, as fontes oficiais abertas consultadas não detalharam com clareza quais meios, unidades ou efetivos brasileiros participam desta fase operacional no Peru. A Revista Sociedade Militar seguirá acompanhando as informações divulgadas pelas forças envolvidas para atualizar esse ponto assim que houver uma confirmação mais precisa.

Enquanto isso, o exercício deixa uma questão relevante para quem acompanha as Marinhas sul-americanas: até que ponto manobras multinacionais como o UNITAS conseguem compensar limitações de frota ao permitir que militares continuem treinando guerra antissubmarino, defesa aérea, operações multidomínio e interoperabilidade com meios que seus próprios países nem sempre têm disponíveis durante todo o ano?

guest
0 Comentários