Dentro de um submarino, relógio biológico, sono e percepção precisam se adaptar a uma rotina construída pelas necessidades do navio — e estudos mostram que o corpo humano nem sempre acompanha essa mudança
Não existe amanhecer dentro de um submarino submerso. Também não existe pôr do sol, janela para conferir o tempo ou aquela mudança de luminosidade que, em terra, avisa silenciosamente ao cérebro que um dia terminou e outro está começando.
Para o submarinista, horas de trabalho, descanso, alimentação e sono são determinadas principalmente pela rotina de bordo.
Durante uma missão prolongada, isso significa viver semanas em um ambiente fechado, artificialmente iluminado e no qual o relógio da operação pode ter muito mais influência sobre a rotina do militar do que o ciclo natural de dia e noite.
Não se trata apenas de desconforto.
Pesquisas realizadas com submarinistas mostram alterações no padrão de sono, dificuldades de alinhamento do ritmo circadiano e possíveis reflexos sobre fadiga, humor e desempenho cognitivo. Uma revisão publicada em 2023 encontrou justamente esses fatores entre os principais riscos humanos associados aos diferentes sistemas de serviço empregados a bordo de submarinos.
É uma dimensão pouco visível da guerra submarina.
Por fora, o que chama atenção são aço, torpedos, sensores, baterias, propulsão e profundidade. Por dentro, uma das máquinas mais difíceis de administrar continua sendo o próprio organismo humano.
O corpo continua procurando um dia de 24 horas
Um dos estudos mais reveladores sobre essa rotina acompanhou submarinistas durante 67 dias de missão.
Os militares pesquisados trabalhavam em um regime de seis horas de serviço seguidas por seis horas fora do turno. Dependendo do grupo, isso fazia com que parte importante do sono ocorresse durante horários que, biologicamente, não correspondem ao período em que aquela pessoa normalmente descansaria.
O resultado mostrou um sono dividido em dois períodos desiguais: normalmente um descanso mais longo e outro menor.
Os pesquisadores também acompanharam dois hormônios diretamente relacionados ao relógio biológico: melatonina e cortisol.
Ao final da missão, a secreção de melatonina não havia simplesmente se reorganizado para obedecer aos horários operacionais impostos pelo submarino. O cortisol apresentou adaptação diferente.
A conclusão dos pesquisadores resume uma dificuldade fundamental da vida submersa: a fisiologia humana não se ajusta integralmente às necessidades da operação.
Em outras palavras, o submarino pode reorganizar o relógio da tripulação. O cérebro e o organismo não necessariamente aceitam a nova hora com a mesma facilidade.
É justamente por isso que os sistemas de quartos — os períodos em que grupos alternam serviço e descanso — são um assunto muito mais sério do que parece para quem observa uma tripulação apenas de fora.
Dormir não significa necessariamente descansar bem
Uma pesquisa mais recente acompanhou 58 submarinistas da Marinha dos Estados Unidos durante 30 dias no mar, utilizando dispositivos de actigrafia para medir objetivamente o sono.
A média registrada foi de aproximadamente 6 horas e 37 minutos de sono por dia.
Quando perguntados quanto acreditavam ter dormido, entretanto, os próprios militares estimaram uma média ainda menor: cerca de 5 horas e 54 minutos.
O estudo encontrou sinais de progressivo alinhamento do ritmo circadiano ao sistema de serviço utilizado naquela missão, mas também apontou baixa qualidade subjetiva do sono, redução do humor ao final do período no mar e hábitos desfavoráveis relacionados a exercícios e regularidade das refeições.
Isso ajuda a desmontar uma ideia simplista sobre a rotina submarina.
O problema não é apenas conseguir encontrar algumas horas para deitar.
É preciso que aquele descanso aconteça enquanto o restante do submarino continua funcionando, companheiros permanecem em serviço, equipamentos trabalham continuamente e o militar sabe que deverá retornar ao posto assim que seu período de descanso terminar.
Em determinadas marinhas e configurações de submarinos, a limitação de espaço criou ainda uma das tradições mais conhecidas da vida submarina: o chamado “hot bunking”, situação em que mais de um tripulante utiliza o mesmo beliche em horários diferentes.
Um militar deixa a cama para assumir o serviço enquanto outro, que acabou de sair do turno, ocupa o mesmo espaço.
A prática não deve ser tratada como universal em todos os submarinos ou automaticamente atribuída a todas as unidades brasileiras. Ela representa, porém, até onde pode chegar a lógica de aproveitamento de espaço em embarcações nas quais praticamente cada metro cúbico precisa justificar sua existência.
Dentro do casco, o silêncio também faz parte da sobrevivência
Há outro comportamento que distingue radicalmente um submarino de grande parte dos ambientes militares: fazer menos barulho pode ser tão importante quanto operar corretamente um equipamento.
Um submarino procura controlar sua assinatura acústica porque sonares passivos podem detectar ruídos produzidos debaixo d’água. Quanto mais silenciosa a embarcação, mais difícil tende a ser sua localização por sistemas que estejam apenas “escutando” o oceano. A própria Marinha dos Estados Unidos explica que avanços na redução de ruídos tornaram submarinos modernos mais difíceis de detectar por sonar passivo.
Esse princípio desce até detalhes aparentemente banais da rotina.
Material histórico da Marinha norte-americana sobre operação submarina registra a necessidade de conduzir atividades da maneira mais silenciosa possível quando existe risco de detecção e menciona até ferramentas preparadas para reduzir ruído. Outro material educativo naval observa que submarinistas precisam limitar sons produzidos pelo próprio navio enquanto procuram contatos pelo sonar.
Existe inclusive registro histórico de testes acústicos indicando que pancadas e a queda de equipamentos pesados dentro de submarinos podiam ser percebidas a distância por sistemas de escuta da época.
Isso não significa que qualquer chave inglesa caída automaticamente revele as coordenadas de um submarino moderno. Alcance e possibilidade de detecção dependem de inúmeros fatores, como distância, profundidade, condições do oceano, intensidade e frequência do ruído e capacidade dos sensores adversários.
Mas explica a lógica por trás da frase que atravessa gerações de submarinistas: dentro de uma plataforma cujo maior trunfo pode ser permanecer desconhecida, ruído desnecessário não é apenas inconveniência. É informação acústica sendo lançada ao mar.
Confinamento transforma pequenos hábitos em questões coletivas
Há outra característica difícil de reproduzir em terra: praticamente não existe maneira de abandonar aquele ambiente.
Num navio de superfície, mesmo sob limitações operacionais, ainda há céu, horizonte e referências externas.
Dentro de um submarino mergulhado, o mundo da tripulação termina na parede do casco.
O espaço para dormir está perto do espaço de trabalho. O corredor utilizado por uma pessoa é o corredor de todos. Sons, odores, horários, refeições e hábitos individuais passam a fazer parte da experiência coletiva.
A literatura científica classifica o submarino como um ambiente isolado, confinado e extremo, justamente porque reúne confinamento físico, afastamento do ambiente externo e necessidade de manter uma operação contínua.
Não significa que todo submarinista desenvolverá problemas psicológicos ou que uma missão submersa seja necessariamente uma experiência de sofrimento.
A seleção, o treinamento, a disciplina e a organização da tripulação existem justamente para permitir que pessoas funcionem nesse cenário.
O ponto mais interessante está no inverso: o ambiente é tão diferente da vida humana normal que a adaptação psicológica deixa de ser um detalhe e passa a fazer parte da capacidade operacional do submarino.
Um sensor sofisticado não compensa indefinidamente uma tripulação exausta. Um sistema de armas avançado continua dependendo de alguém capaz de interpretar informações, priorizar ameaças e tomar decisões depois de dias ou semanas vivendo naquela rotina.
Uma revisão de pesquisas sobre submarinistas encontrou justamente maior desalinhamento circadiano em escalas que não seguem 24 horas e observou associação entre períodos maiores fora do serviço e melhor desempenho cognitivo. Os autores destacaram tarefas como solução de problemas, priorização e tomada de decisões entre os pontos que merecem atenção em futuras pesquisas.
A rotina ganha nova dimensão na Marinha do Brasil
Esse universo profissional está passando por uma transformação também no Brasil.
A Marinha do Brasil alterou suas normas para permitir a atuação de mulheres em áreas que antes permaneciam restritas, incluindo a operação de submarinos, atividades de mergulho e formação relacionada a Operações Especiais.
A mudança foi estabelecida pela Portaria nº 270/MB e, segundo a própria Marinha, colocou militares mulheres em condições de acesso a funções classificadas pela instituição como de elevada exigência física, psicológica e técnica.
A abertura não muda as exigências fundamentais da guerra submarina.
Quem estiver naquele casco continuará submetido aos mesmos elementos centrais da operação: confinamento, serviço contínuo, necessidade de descanso disciplinado, convivência próxima, treinamento técnico e exigência permanente de atenção.
O que muda é quem passa a poder disputar esse espaço profissional.
E há uma consequência interessante nessa transformação: ao ampliar o universo de militares que poderão integrar a atividade submarina, a Marinha também coloca ainda mais atenção sobre aspectos de habitabilidade, organização interna, privacidade, treinamento e saúde ocupacional das futuras tripulações.
O desafio que não aparece quando o submarino emerge
Quando um submarino aparece na superfície depois de uma missão, é natural contar quantos dias permaneceu no mar, qual distância percorreu, quais exercícios realizou ou quais sistemas foram testados.
Muito menos visível é o que aconteceu com a percepção de tempo das pessoas que estavam dentro dele.
Durante semanas, alguém precisou acordar porque um relógio determinou que era hora de assumir o serviço — mesmo sem amanhecer.
Precisou dormir quando seu organismo talvez estivesse biologicamente preparado para permanecer acordado.
Precisou dividir um espaço onde privacidade é limitada, controlar comportamentos que em terra seriam banais e permanecer atento a uma regra essencial da guerra submarina: produzir o mínimo possível de pistas para quem estiver tentando encontrar o navio.
A tecnologia consegue criar submarinos progressivamente mais silenciosos. Pesquisas de sono mostram, entretanto, que existe uma fronteira que engenharia alguma elimina completamente.
É possível construir um casco que permaneça submerso por semanas. Fazer o relógio biológico humano esquecer completamente que existe dia e noite é uma tarefa muito mais complicada.