Um homem que, segundo vítimas, se apresentava como “tenente aposentado da Marinha” foi preso no Maranhão sob suspeita de estelionato envolvendo um curso de marinheiro mercante. A Polícia Civil estima cerca de 200 possíveis vítimas somente em Arari, enquanto registros oficiais localizados pela RSM revelam um detalhe central: Waldenir Duarte Reis realmente pertenceu à Marinha do Brasil, mas aparece na documentação militar como suboficial, não tenente.
Curso custaria R$ 10 mil e nunca começou
Waldenir foi preso no Maiobão, em Paço do Lumiar, após o avanço da investigação iniciada a partir de denúncias de moradores de Arari. A prisão preventiva foi autorizada pela Justiça, segundo o Imirante.
Segundo as vítimas, ele oferecia um curso de seis meses para marinheiro mercante, com custo total de aproximadamente R$ 10 mil. Para reservar uma vaga, interessados fizeram pagamentos antecipados de R$ 1 mil, R$ 2 mil ou valores superiores.
Os primeiros contatos teriam ocorrido em novembro de 2024. O curso era divulgado nas redes sociais e por indicações atribuídas a antigos alunos, mas as aulas sofreram sucessivos adiamentos e não começaram.
De acordo com o delegado Henrique Tanaka, os valores eram cobrados antecipadamente. Depois, o início das turmas era adiado e o contato com os interessados acabava interrompido. A Polícia Civil estima cerca de 200 possíveis vítimas somente em Arari, com casos semelhantes também investigados em Miranda do Norte e São Luís.
Vítimas relatam uso do nome da Marinha
A ligação com a Marinha do Brasil é um dos pontos centrais do caso.
Moradores afirmam que Waldenir se apresentava como tenente aposentado da Marinha. Também relatam que receberam a informação de que as aulas começariam após a conclusão de um suposto processo de credenciamento junto à Marinha e à Capitania dos Portos do Maranhão.
A própria Marinha informou que Waldenir não possui vínculo, credenciamento ou autorização para representar a instituição ou a Capitania dos Portos. A Força acrescentou que analisaria o caso e poderia adotar medidas diante de eventual uso indevido de seu nome.
A resposta, contudo, não significa que ele nunca tenha pertencido à Marinha.
Registros militares apontam graduação de suboficial
A Revista Sociedade Militar localizou registros oficiais que ajudam a reconstruir a trajetória militar de Waldenir e mostram uma diferença importante em relação à graduação relatada pelas vítimas.
Em registro oficial consultado pela RSM, seu nome e matrícula militar aparecem como “SO-ES 80.4108.39 WALDENIR DUARTE REIS”. A sigla SO identifica a graduação de suboficial, a mais elevada entre as praças da Marinha, e não o posto de tenente, pertencente ao oficialato.
A passagem pela Força também encontra respaldo em documentação oficial do Tribunal de Contas da União. Waldenir aparece em processo relacionado à reforma de militares, tendo o Comando da Marinha como órgão de origem, conforme documento oficial do TCU.
O achado, portanto, não aponta para alguém que tenha inventado toda a sua relação com a Força. Waldenir realmente teve carreira na Marinha, mas os registros militares localizados pela RSM o identificam como suboficial, não como tenente.
Experiência como instrutor também era real
A ligação de Waldenir com a formação marítima também tinha um antecedente verdadeiro.
As vítimas afirmaram que o nome de um instituto particular de São Luís era associado ao curso. A instituição confirmou que ele trabalhou como instrutor no local há mais de dez anos, mas esclareceu que atualmente não mantém qualquer vínculo com Waldenir, segundo a apuração publicada pelo Imirante.
Isso acrescenta uma particularidade ao caso: tanto a passagem pela Marinha do Brasil quanto a experiência anterior como instrutor eram reais. A investigação apura a oferta do curso que não começou, os pagamentos recebidos e as circunstâncias em que a formação foi apresentada aos interessados.
O episódio ocorre meses depois de outro caso envolvendo irregularidades no setor náutico acompanhado pela RSM. Em março, o Superior Tribunal Militar manteve a condenação de um ex-militar por 36 licenças náuticas fraudulentas, em um esquema que envolvia dados inseridos no sistema da própria Marinha e que pode ter movimentado até R$ 180 mil, conforme mostrou a Revista Sociedade Militar.
Polícia investiga casos em outras duas cidades
A dimensão final do caso ainda não está definida.
Além das cerca de 200 possíveis vítimas em Arari, a Polícia Civil identificou ocorrências semelhantes em Miranda do Norte e São Luís. O número total investigado, portanto, pode aumentar.
A corporação orientou outras pessoas que tenham realizado pagamentos nas mesmas circunstâncias a procurar a Delegacia de Arari e apresentar documentos que possam contribuir com a investigação.
Waldenir permanece à disposição da Justiça. O caso continua sob investigação e não há, até o momento, condenação pelos fatos que motivaram a prisão.