A origem do SNI costuma ser associada aos militares da Escola Superior de Guerra ou à influência da CIA. Mas a documentação analisada pelo cientista político René Armand Dreifuss em 1964: A Conquista do Estado — ação política, poder e golpe de classe” aponta para uma trajetória mais complexa.
Antes de o Serviço Nacional de Informações ser oficialmente criado, em 13 de junho de 1964, uma rede privada de vigilância política já operava no Rio de Janeiro com apoio de empresários e generais.
A espinha dorsal do serviço de inteligência do regime militar nasceu como uma operação privada, financiada pelo grande empresariado e operada em simbiose com generais da reserva e da ativa entre 1961 e 1964.
Muito antes de o Marechal Castello Branco assinar a lei de criação do SNI, funcionava no Rio de Janeiro uma rede secreta de vigilância, grampos e dossiês que monitorava políticos, sindicalistas, jornalistas e a própria tropa militar.
A institucionalização da vigilância pelo SNI, antes da origem
A criação do Serviço Nacional de Informações (SNI) é um marco documentado da institucionalização do regime militar.
O órgão foi oficialmente instituído pela Lei nº 4.341, de 13 de junho de 1964, como órgão vinculado à Presidência da República.
Sua função era coordenar as atividades de informações e contrainformações relacionadas à chamada Segurança Nacional, atuando também em proveito do Conselho de Segurança Nacional.
Na prática, o SNI tornou-se um dos principais instrumentos de vigilância política do governo militar, reunindo e produzindo informações sobre opositores, movimentos sociais, sindicatos, imprensa e setores das próprias Forças Armadas.
O centro de operações no Edifício Avenida Central: a origem do SNI
Com efeito, de acordo com a obra de Dreifuss, o centro nevrálgico dessa operação ficava no 27º andar do Edifício Avenida Central, na Avenida Rio Branco.
Ali, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) — entidade criada pela elite empresarial multinacional para combater o governo João Goulart — alugava 13 salas.
Quatro dessas salas abrigavam o Grupo de Levantamento da Conjuntura (GLC), a unidade de inteligência e planejamento estratégico da organização.
O comando nacional do GLC estava nas mãos de uma das figuras mais influentes da história política brasileira: o General Golbery do Couto e Silva.
Nessa época, ele já estava na reserva e era contratado de corporações privadas para dirigir a estratégia político-militar do movimento.
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Orçamento milionário, grampos e dossiês em massa
Com um orçamento próprio estimado entre 200 mil e 300 mil dólares por ano, o GLC montou uma estrutura móvel e eficiente de coleta de dados:
- Monitoramento telefônico: o setor grampeou e interceptou cerca de 3.000 linhas telefônicas apenas no Rio de Janeiro.
- Banco de dados massivo: o GLC acumulou arquivos e dossiês detalhados sobre a vida política e pessoal de cerca de 400 mil cidadãos brasileiros — incluindo parlamentares, oficiais, líderes estudantis e sindicalistas.
- Varredura de imprensa: a equipe analisava diariamente jornais de todo o país e revistas nacionais e internacionais, mapeando tendências e alvos.
Infiltração nos quartéis e a pressão sobre a tropa
O foco prioritário da rede era o Setor de Exército e Informação, focado no 1º Exército (Rio de Janeiro) e 3º Exército (Porto Alegre).
Para influenciar a oficialidade de médio escalão, o GLC produzia e distribuía uma circular bimestral mimeografada, sem identificação de autoria.
O boletim mapeava a suposta “infiltração comunista”, detalhava a atuação de sindicatos e incitava a tropa contra as diretrizes do Executivo.
Simultaneamente em São Paulo, o IPES organizou uma estrutura espelhada: o Grupo Especial de Conjuntura (GEC), chefiado pelo general Agostinho Cortes, que operava na área do 2º Exército infiltrando agentes em sindicatos e universidades.
De rede clandestina a aparato oficial do Estado
Golbery cercou-se de jovens oficiais de médio escalão (majores e tenentes-coronéis), que atuavam como operadores da conspiração nos quartéis.
Entre os nomes articulados nessa rede privada estavam figuras que definiriam o futuro do país:
- Tenente-Coronel João Baptista Figueiredo (futuro Presidente da República);
- Major Octávio Aguiar de Medeiros (futuro chefe do SNI);
- Major Danilo Venturini (futuro ministro da Casa Militar);
- Major Leônidas Pires Gonçalves (futuro Ministro do Exército);
- Generais Carlos Alberto da Fontoura e Emílio Garrastazu Médici.
Esses oficiais exerciam pressão sobre seus pares, neutralizavam comandantes legalistas e garantiam a passagem fluida das análises do IPES para o comando das Forças Armadas.
O legado da inteligência privada na estrutura do Estado
Com a queda de Goulart em abril de 1964, a elite empresarial e militar ocupou os postos-chave do Estado.
A criação do Serviço Nacional de Informações (SNI) foi a institucionalização definitiva do aparato testado no setor privado.
Castello Branco nomeou o próprio General Golbery do Couto e Silva como primeiro chefe do SNI.
A transição foi direta e literal. O acervo físico do IPES, com os fichários de 400 mil brasileiros, foi transferido do Rio de Janeiro para Brasília para servir como o banco de dados inicial do SNI.
Ao se despedir da diretoria do IPES em julho de 1964, Golbery dirigiu-se ao líder empresarial Glycon de Paiva e resumiu a mudança.
Em seguida, o general afirmou que, no comando do SNI, continuaria a desempenhar o mesmo trabalho realizado no IPES, porém a partir dali “ampliado em recursos e meios” trazidos pelo Estado.
A herança da inteligência corporativa no Estado
A história da inteligência militar pré-1964 revela que a fronteira entre segurança pública e interesses empresariais intencionalmente sofreu uma diluição. O SNI não nasceu de um “vazio institucional”.
O órgão de repressão do regime foi a encampação de uma estrutura secreta gestada em salas comerciais no centro do Rio de Janeiro, financiada por grandes bancos e multinacionais e gerida por uma elite de generais e executivos civis.
ABNT: DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do Estado: ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis: Vozes, 1981.