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Avião de origem militar usado por contrabandistas foi apreendido no Brasil e acabou incorporado à própria FAB; o antigo bombardeiro virou transporte de passageiros e cargas

Um bombardeiro B-26 Invader foi apreendido por contrabando no Aeroporto de Brasília em 1966. Após quatro anos, tornou-se o FAB 5176 e passou a transportar pessoas e cargas no Recife até sua retirada de serviço em 1975.

Marcos
Por Marcos 29/10/2026 às 20:35
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Avião de origem militar usado por contrabandistas foi apreendido no Brasil e acabou incorporado à própria FAB; o antigo bombardeiro virou transporte de passageiros e cargas
Douglas B-26B Invader de matrícula N4974N, apreendido em Brasília em 21 de junho de 1966. Quatro anos depois, foi incorporado à Força Aérea Brasileira como C-26B FAB 5176. Foto: Arquivos do autor / INCAER. Copiar

Um avião construído para atacar alvos de guerra acabou apreendido pela Polícia Federal no Aeroporto de Brasília em 21 de junho de 1966, envolvido em contrabando. Quatro anos depois, o Douglas B-26 Invader entrou para a Força Aérea Brasileira como transporte de passageiros e cargas, não como bombardeiro.

A aeronave tinha matrícula americana N4974N quando foi detida e acabaria recebendo a designação C-26B FAB 5176. O caso reúne uma apreensão policial, um processo judicial e a adaptação de um veterano militar para trabalhar no apoio logístico da própria FAB.

Polícia Federal apreendeu antigo bombardeiro e reteve avião na capital federal

Segundo o Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica (INCAER), o avião foi apreendido em 21 de junho de 1966. Com auxílio da FAB, as autoridades constataram a prática de contrabando no Brasil. A aeronave permaneceu no Aeroporto de Brasília, à disposição da Justiça.

A documentação identifica o aparelho como um Douglas B-26B Invader, um modelo que havia participado de missões de ataque e bombardeio na Segunda Guerra Mundial. O exemplar apreendido era de matrícula civil americana, não integrando naquele momento a frota militar brasileira.

O registro histórico individual do avião aponta o número de série 44-34134 e sua passagem pelo grupo empresarial R. G. LeTourneau, no Texas, nos Estados Unidos. O cadastro também confirma o envolvimento em contrabando, a apreensão em Brasília e a posterior incorporação à Força Aérea.

A apreensão interrompeu os voos daquele aparelho. Ele permaneceu sob responsabilidade da Justiça até ser entregue à FAB, em 1970, já com uma cabine transformada para o transporte de pessoas e carga.

Douglas B-26B Invader N4974N apreendido em Brasília em 1966, aeronave que posteriormente recebeu a matrícula FAB 5176. Copiar
Douglas B-26B Invader de matrícula N4974N, apreendido em Brasília em 21 de junho de 1966. Quatro anos depois, foi incorporado à Força Aérea Brasileira como C-26B FAB 5176. Foto: INCAER.

Compartimento de bombas virou espaço para bagagens e cabine ganhou assentos

O B-26 original possuía compartimento destinado ao carregamento de bombas. No avião detido pela Polícia Federal, esse espaço, conhecido como bomb-bay, havia sido transformado em compartimento de carga e bagagem. O interior foi adaptado com poltronas para passageiros e equipamentos modernos de navegação e comunicação para a época.

Empresas civis aproveitaram antigos Invader militares em operações de transporte e deslocamentos de passageiros. O aparelho retido em Brasília já estava convertido, com instalações adequadas ao transporte de pessoas, e não apresentava a configuração de ataque usada pelos esquadrões.

A Revista Aeronáutica, na edição de número 225, registrou uma cabine capaz de transportar até nove passageiros. Essa capacidade, somada ao espaço para cargas, seria aproveitada pelo Parque de Aeronáutica do Recife quando o avião finalmente entrou em serviço militar brasileiro.

Processo judicial terminou e FAB recebeu aeronave como C-26B 5176 em 1970

Após a conclusão do processo judicial, em 1970, o avião foi entregue à FAB. O antigo Invader seguiu para o então Parque de Aeronáutica do Recife (PARF), onde passou por revisão e pintura de acordo com o padrão usado nas aeronaves de transporte da instituição.

As muitas modificações realizadas durante os anos de emprego civil haviam descaracterizado o modelo. O INCAER registra que a aeronave não possuía mais condições de atuar como bombardeiro ou avião de ataque. A solução adotada foi usá-la em missões de apoio, deslocando pessoal, equipamentos e materiais.

Douglas C-26B Invader, matrícula FAB 5176, aeronave apreendida por contrabando em Brasília, em 1966, e incorporada à Força Aérea Brasileira em 1970. Imagem: recriação digital com inteligência artificial, baseada em fotografia histórica. Fonte das informações: INCAER
Douglas C-26B Invader, matrícula FAB 5176, aeronave apreendida por contrabando em Brasília, em 1966, e incorporada à Força Aérea Brasileira em 1970. Imagem: recriação digital com inteligência artificial, baseada em fotografia histórica. Fonte das informações: INCAER

Com a nova configuração, o avião recebeu a designação C-26B e matrícula militar 5176. Foi o último exemplar da família Invader incorporado à FAB, numa época em que os demais aviões do modelo já enfrentavam dificuldades de manutenção e envelhecimento.

Antes da apreensão, FAB já tinha comprado 28 Invader e enfrentava rachaduras

A história da frota brasileira começara bem antes. Em 1957, a Força Aérea adquiriu 28 Douglas B-26 de versões B e C para treinamento, ataque e bombardeio. Os quatro primeiros chegaram à cidade de Natal naquele setembro, e entregas adicionais foram concluídas até fevereiro do ano seguinte.

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O Invader era um projeto veterano. Seu protótipo voou em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial. As versões militares utilizavam dois motores Pratt & Whitney com cerca de 2.000 cavalos cada e possuíam envergadura próxima de 21,34 metros. Mesmo com a potência dos motores, a idade das células e a manutenção causariam problemas à FAB.

A escassez de peças prejudicou a operação dos B-26. Em 1963, o modelo deixou de ser usado para treinamento. Já em 1966, foram descobertas rachaduras nas longarinas das asas, componentes fundamentais para a segurança estrutural dos aviões.

No ano seguinte, 16 aeronaves seguiram para os Estados Unidos, onde passaram por reparos na Hamilton Aircraft. O histórico da frota reunido por Rudnei Cunha detalha esse período e a retirada gradual dos Invader brasileiros de serviço até 1975.

Após transportar pessoas e cargas no Recife, Invader 5176 foi vendido a museu

O C-26B FAB 5176 permaneceu em atividade no Recife até 1975. No mesmo período, os últimos Invader de combate também deixaram o serviço militar. Depois de desativado, o avião apreendido nove anos antes foi colocado à venda no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro.

Seu novo destino foi o Museu de Armas, Veículos e Máquinas Eduardo André Matarazzo, em Bebedouro, no interior de São Paulo. A publicação histórica do INCAER, de 2021, registra o avião entre as peças do acervo após uma carreira marcada por mudanças radicais.

O Douglas B-26 havia sido projetado para combater. A aeronave de matrícula N4974N terminou envolvida numa apreensão por contrabando, aguardou decisão judicial, ganhou a matrícula FAB 5176 e passou a apoiar projetos da Aeronáutica. Depois de nove anos entre a apreensão e o fim do serviço militar, a aeronave foi encaminhada ao museu de Bebedouro.

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