O Brasil chegou a projetar uma das maiores expansões navais de sua história, com investimentos estimados em US$ 84,4 bilhões, dois porta-aviões, 30 navios de escolta, 15 submarinos convencionais e seis submarinos de propulsão nuclear. Dezesseis anos depois, em 2026, a distância entre aquele planejamento e a capacidade efetivamente alcançada pela Marinha impressiona.
O projeto, elaborado em 2009, integrava o Plano de Equipamento e Articulação da Marinha do Brasil (PEAMB 2010–2030). Uma análise publicada pelo portal Poder Naval em 20 de outubro de 2026 recuperou o documento e revelou a dimensão das ambições que não se concretizaram.
O contraste é evidente: o país pretendia operar dois porta-aviões com caças embarcados, mas atualmente não possui nenhum navio com essa capacidade operacional. A construção de uma segunda Esquadra também permaneceu no planejamento.
US$ 84 bilhões para transformar completamente a Marinha brasileira
Conforme o estudo publicado na Revista Marítima Brasileira em 2010, o PEAMB previa investimentos de US$ 84.438,76 milhões, distribuídos entre embarcações, aeronaves, armamentos, infraestrutura e equipamentos de apoio.
Desse montante, aproximadamente US$ 68,8 bilhões estavam previstos para o período de 2010 a 2030. Outros US$ 15,6 bilhões correspondiam a investimentos posteriores.
É importante esclarecer que esses valores representavam estimativas de investimentos, não dinheiro efetivamente gasto ou recursos integralmente aprovados. O projeto estabelecia necessidades e objetivos que dependeriam de decisões orçamentárias futuras.
A intenção era ampliar a capacidade de proteger as reservas petrolíferas, as rotas comerciais e a chamada Amazônia Azul, área marítima estratégica para a economia e a soberania brasileira.

Dois porta-aviões e 48 caças: o projeto que nunca se concretizou
Uma das maiores ambições do planejamento era a obtenção de dois novos porta-aviões até 2032, acompanhados de 48 aeronaves de interceptação e ataque de alto desempenho.
O Brasil pretendia manter capacidade de combate aéreo embarcado e ampliar sua presença no Atlântico Sul. Entretanto, o caminho percorrido foi completamente diferente.
Em 2017, a Marinha decidiu desmobilizar o porta-aviões São Paulo, diante dos custos elevados, das dificuldades técnicas e das incertezas envolvendo sua modernização.
No ano seguinte, incorporou o Atlântico, adquirido do Reino Unido. Embora seja uma embarcação importante, capaz de operar helicópteros e apoiar operações anfíbias, não substitui a capacidade de operar caças convencionais que os futuros porta-aviões deveriam proporcionar.
Brasil queria 30 navios de escolta, mas a renovação avançou lentamente
O PEAMB também projetava uma força de 30 navios de escolta até 2034. Essas embarcações seriam responsáveis por proteger unidades maiores, combater ameaças submarinas e defender áreas marítimas estratégicas.
A distribuição prevista era de 18 escoltas para a Primeira Esquadra e outras 12 para uma nova Segunda Esquadra, cuja provável sede seria São Luís, no Maranhão.
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Na prática, a ampliação nunca ocorreu nas proporções imaginadas. A modernização passou a depender de programas menores, como o das fragatas classe Tamandaré.
Somente em 24 de abril de 2026, a Marinha incorporou a primeira fragata Tamandaré, integrante de um programa inicialmente contratado para quatro embarcações.
A incorporação representa um avanço tecnológico importante, mas também evidencia como a renovação da frota permaneceu distante da escala inicialmente concebida.
Seis submarinos nucleares previstos, nenhum operacional em 2026

Outro contraste significativo aparece na força de submarinos. O planejamento estabelecia a necessidade de 15 submarinos convencionais até 2037 e seis unidades de propulsão nuclear até 2047.
O desenvolvimento dos submarinos convencionais apresentou resultados concretos. Riachuelo, Humaitá e Tonelero foram incorporados, enquanto o Almirante Karam entrou na fase de testes.
Segundo a Marinha do Brasil, a incorporação do Almirante Karam está prevista para o segundo semestre de 2027.
Já o primeiro submarino brasileiro de propulsão nuclear, Álvaro Alberto, continua em desenvolvimento. Em março de 2026, o almirante Alexandre Rabello de Faria informou à BBC News Brasil que a previsão de lançamento havia passado para 2037.
A situação contrasta com o estudo de 2010, que mencionava a entrega do primeiro submarino nuclear em 2021. Entretanto, é necessário distinguir lançamento ao mar de entrega operacional, além de reconhecer que o horizonte previsto para as seis unidades se estende até 2047.
A segunda Esquadra brasileira também permaneceu no papel
Além das embarcações, o PEAMB pretendia modificar a própria distribuição territorial da Marinha.
A criação de uma Segunda Esquadra no Norte ou Nordeste permitiria ampliar a presença naval nas proximidades da foz do Amazonas e reduzir a concentração de grandes meios no Sudeste.
O projeto exigiria bases, instalações de manutenção, infraestrutura aeronáutica, pessoal especializado e novos navios.
Passadas quase duas décadas, essa estrutura não foi implantada. O Brasil continua sem a segunda grande Esquadra que integrava o planejamento original.
O problema financeiro já estava identificado antes mesmo do projeto começar
O aspecto mais revelador é que as dificuldades não surgiram inesperadamente.
Em 2010, o pesquisador Eduardo Italo Pesce já alertava que a execução do PEAMB dependeria de recursos contínuos durante décadas, em um cenário sujeito a contingenciamentos e mudanças de prioridades.
Construir embarcações seria apenas parte do desafio. Operá-las exigiria tripulações, manutenção, combustível, armamentos e investimentos permanentes.
A experiência brasileira demonstrou que planejar uma frota bilionária é muito diferente de garantir os recursos necessários para construí-la e mantê-la operacional.
O que restou da Marinha de US$ 84 bilhões?
O PEAMB não terminou sem resultados. O PROSUB, a infraestrutura de Itaguaí e o programa das fragatas Tamandaré demonstram que o Brasil conseguiu preservar iniciativas estratégicas.
Entretanto, a transformação completa imaginada em 2009 não aconteceu. A força naval brasileira não recebeu os dois porta-aviões planejados, a Segunda Esquadra não foi instalada e os seis submarinos nucleares continuam como objetivo de longo prazo.
Nem todos os prazos originais venceram, mas a diferença entre a estrutura pretendida e os resultados acumulados já é significativa.
Dezesseis anos depois, o PEAMB permanece como um retrato do contraste entre a grandeza das ambições militares brasileiras e as dificuldades de transformá-las em capacidade naval efetiva.