O Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Marcelo Kanitz Damasceno, defendeu no plenário do Senado Federal que a frente parlamentar mista de defesa anunciada pelo senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) saia do campo das intenções. “Acho que isso é premente sair do mundo das promessas e termos algo mais palpável”, afirmou o oficial na sessão especial de 21 de outubro de 2026, dedicada a comemorar os 120 anos do primeiro voo do 14-bis, ao Dia do Aviador e ao Dia da Força Aérea Brasileira.
A sessão foi convocada por um requerimento de autoria do senador Dr. Hiran e outros parlamentares, e presidida pelo senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP), oficial da FAB na reserva. Compuseram a mesa o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro Filho, a secretária-geral do Ministério da Defesa, Cinara Wagner Fredo, e o próprio Damasceno.
Acompanharam a cerimônia cadetes da Academia da Força Aérea, seis cadetes da Academia da Força Aérea dos Estados Unidos (Usafa) e quatro da Escola Militar de Aviação da Colômbia, além de representantes diplomáticos da China, da França, da República Dominicana e da Rússia.
Mourão anuncia frente mista e um instituto de defesa
Em seu discurso, Mourão informou que está sendo lançada no Congresso uma frente parlamentar mista da defesa, da soberania e da segurança. Segundo o senador, o objetivo é levar o tema à sociedade “de forma mais dinâmica” e apoiar a indústria de defesa com a criação de um instituto de defesa.
O general da reserva vinculou a iniciativa à meta de que o orçamento da Defesa seja o necessário para preparar as Forças Armadas e mantê-las em condições de emprego. “Acho que a sociedade brasileira precisa acordar para isso”, disse. Mourão afirmou que essas ações serão a prioridade da segunda metade de seu mandato.
O senador também destacou o peso da Força Aérea na região amazônica, onde serviu no Comando Militar da Amazônia e no comando da 2ª Brigada de Infantaria de Selva. “Sem a Força Aérea, não se faz nada na Amazônia”, afirmou, citando a mobilidade estratégica e tática garantida pela FAB.
Damasceno associa a frente à busca de recursos de Múcio
Ao cumprimentar o ministro da Defesa, Damasceno disse que José Múcio tem sido, “durante esses quatro anos, um homem de fibra”, e apontou como destaque a “busca incessante por orçamento”. O comandante afirmou ter certeza de que esse esforço se somará à frente parlamentar “que haverá de ser criada”.

A formulação indica que, na data da sessão, a frente ainda não estava formalmente constituída. Mourão falou em lançamento em curso; Damasceno, em criação futura. Mourão, por sua vez, já havia se referido a Múcio como “um gigante na busca dos recursos tão necessários para as nossas Forças Armadas”.
No discurso oficial, o comandante citou o cargueiro KC-390 Millennium e os caças F-39 Gripen como exemplos de uma força que, segundo ele, converte conhecimento em poder operacional e “investimentos, em capacidades indispensáveis para enfrentar os desafios do futuro”. Damasceno também listou o transporte de órgãos, as evacuações aeromédicas e o apoio em calamidades entre as missões permanentes da FAB.
Marcos Pontes pede investimento contínuo e previsível
O presidente da sessão reforçou a pauta orçamentária. “A nossa Força Aérea precisa de investimento contínuo, previsível, para continuar defendendo o nosso espaço aéreo”, declarou Marcos Pontes. Ele estendeu a cobrança ao programa espacial, que, segundo o senador, precisa de continuidade “para que não fique só na comemoração”.
Pontes rebateu o argumento de que o país não corre risco de guerra. “Se não ficar preparado, podem ter certeza que o risco vem e passa por cima da gente”, disse. Em seguida, dirigiu-se a Mourão e afirmou que ambos têm a responsabilidade de “proteger o orçamento” e a estrutura das Forças Armadas. O senador classificou os dois como “a bancada da defesa” no Senado.
O parlamentar também mencionou as agências reguladoras, usando a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) como exemplo, e disse que elas enfrentam dificuldades de orçamento e de pessoal.
Senado homenageia Damasceno por 50 anos de serviço
A sessão terminou com a entrega de um certificado de reconhecimento do Senado a Damasceno. Natural de Canoas (RS), ele ingressou na Força Aérea em 8 de março de 1976 e acumula mais de 6 mil horas de voo nas aviações de patrulha, transporte e helicóptero.
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Ao longo da carreira, comandou a Base Aérea de Brasília e o Grupo de Transporte Especial, foi adido de Defesa e Aeronáutica na França e na Bélgica e chefiou o Estado-Maior da Aeronáutica antes de assumir o Comando da Força. Pontes e Damasceno foram contemporâneos na Academia da Força Aérea. Dirigindo-se aos cadetes, o comandante leu um trecho do poema “Se”, de Rudyard Kipling, e disse falar “no final da minha carreira”.
Pontes também recebeu de Mourão um certificado pelos 20 anos da Missão Centenário. Em 30 de março de 2006, ele decolou de Baikonur, no Cazaquistão, na Soyuz TMA-8, e retornou em 8 de abril na Soyuz TMA-7, após quase dez dias no espaço, tornando-se o primeiro astronauta brasileiro.
Três aviadores indicados ao Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria
Durante a sessão, Pontes lembrou projetos de sua autoria que tramitam na Câmara dos Deputados para incluir três nomes da aviação no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. O primeiro é o Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho, criador do Centro Técnico Aeroespacial (CTA) e idealizador do ITA.
Os outros são o Comandante João Ribeiro de Barros, que cruzou o Atlântico a bordo do hidroavião Jahú, e o Tenente Alberto Martins Torres, que afundou um submarino alemão na costa brasileira e realizou 100 missões no 1º Grupo de Aviação de Caça durante a Segunda Guerra Mundial. Outro projeto do senador, sobre Ayrton Senna, já foi sancionado.
Minuto de silêncio pelos aviadores da PM de Minas Gerais
O plenário guardou um minuto de silêncio pelos três aviadores da Polícia Militar de Minas Gerais mortos em 9 de outubro, durante um voo de treinamento em Ipatinga (MG): o Tenente-Coronel Luís Fernando Silvestre, a Tenente Gabriela Emília Soares Lacerda Resende e a Tenente Alice dos Santos Oliveira Almeida.
O Tenente-Coronel Fabrício de Andrade Raymundo, comandante do Batalhão de Aviação Operacional da PMDF, informou que Silvestre tinha mais de 5 mil horas de voo, com missões de transporte de órgãos e socorro de urgência, e foi instrutor da aviação de asa fixa da corporação do Distrito Federal.
Uma pergunta para os próximos 20 anos
No encerramento de seu discurso, Pontes deixou aos colegas uma pergunta que vai além da celebração. “Aonde o Brasil vai chegar daqui a 20 anos? A resposta depende das escolhas que nós fizermos aqui”, afirmou. A frente anunciada por Mourão e cobrada por Damasceno será o primeiro teste dessa resposta.
Daqui a 20anos? Seremos um.pais de terceiro.mundo com classes políticas, juízes e generais no topo da piramide e um vácuo entre esses e a sociedade. Vamos aguardar 20 anos mesmo?