Uma exigência apresentada após a reeleição de Lula coloca o Brasil diante de uma situação delicada: atender à pressão palestina poderia atingir fornecedores de armamentos, programas estratégicos das Forças Armadas e relações comerciais bilionárias. O alcance dessa cobrança vai muito além da diplomacia.
O movimento palestino BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) exige que o governo brasileiro encerre os contratos militares com Israel, suspenda as exportações de petróleo e cancele o acordo de livre-comércio entre os países.
A cobrança foi apresentada por Andressa Oliveira Soares, coordenadora adjunta de políticas para a América Latina do Comitê Nacional Palestino do BDS, em declaração publicada em 26 de outubro de 2026, um dia após a vitória eleitoral de Lula.
BDS cobra embargo militar, fim das exportações de petróleo e ruptura comercial
Segundo as declarações publicadas pelo Olhar Sul, o BDS considera a reeleição de Lula uma oportunidade para transformar as críticas diplomáticas brasileiras em sanções efetivas contra Israel.
O movimento também reivindica a interrupção das importações de agrotóxicos israelenses e o rompimento de vínculos acadêmicos, esportivos e culturais.
A organização defende medidas econômicas para pressionar o governo israelense diante de suas operações militares na Faixa de Gaza.
No entanto, atender integralmente a essas exigências envolveria contratos e empresas que participam de projetos estratégicos da defesa brasileira.
Isso porque o Exército e a FAB utilizam equipamentos com tecnologias desenvolvidas por fabricantes israelenses ou por suas subsidiárias instaladas no Brasil.
Exército enfrenta impasse com 36 obuseiros israelenses e FAB mantém tecnologia do país
Um dos casos mais recentes envolve os obuseiros autopropulsados ATMOS 2000, fabricados pela israelense Elbit Systems.
O Exército selecionou o equipamento em 2024 para modernizar sua artilharia. O programa prevê 36 unidades, com investimento estimado em quase R$ 1 bilhão.
A assinatura do contrato inicial para aquisição de dois obuseiros estava prevista para 27 de outubro de 2026. Entretanto, o Comando do Exército cancelou a cerimônia no dia 20, sem anunciar nova data ou esclarecer oficialmente o motivo.
Conforme noticiou a Revista Sociedade Militar, as negociações também envolvem a possível participação da Avibras, embora sua entrada no programa ainda não esteja garantida.
O cancelamento ocorreu antes da nova declaração do BDS. Não há comprovação de relação direta entre os acontecimentos.
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A presença israelense na defesa nacional, porém, ultrapassa essa negociação.
A FAB opera aeronaves remotamente pilotadas Hermes 900, desenvolvidas pela Elbit. Os caças F-39 Gripen também incorporam componentes produzidos pela AEL Sistemas, empresa brasileira controlada pelo grupo israelense.
No Exército, tecnologias vinculadas ao mesmo grupo aparecem em sistemas de armamento utilizados por blindados Guarani.
Essas relações foram detalhadas em reportagem da Revista Sociedade Militar sobre a presença de tecnologia israelense nas Forças Armadas.
Uma eventual ruptura de contratos poderia exigir mudanças no fornecimento de peças, na manutenção e no suporte técnico. Entretanto, isso não significa que todos esses equipamentos dependam exclusivamente de Israel para funcionar.
Comércio de R$ 10,6 bilhões amplia pressão sobre o governo Lula
A exigência palestina também atinge uma relação econômica expressiva.
De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, Brasil e Israel movimentaram US$ 1,9 bilhão em comércio bilateral durante 2025, valor equivalente a aproximadamente R$ 10,6 bilhões pelo câmbio médio daquele ano.
As exportações brasileiras alcançaram US$ 568,6 milhões. Já as importações somaram cerca de US$ 1,3 bilhão, incluindo fertilizantes utilizados pelo agronegócio.
Além disso, os países mantêm um acordo de livre-comércio entre Mercosul e Israel, vigente para o Brasil desde abril de 2010.
O BDS exige o cancelamento desse instrumento. Contudo, os R$ 10,6 bilhões representam o comércio registrado em 2025, não uma perda econômica confirmada. Encerrar o acordo também não significaria interromper automaticamente todas as transações.
O governo Lula já anunciou restrições às exportações de materiais de defesa que possam ser utilizados em graves violações de direitos humanos. Essas medidas, porém, não estabeleceram uma proibição geral de compras de tecnologias israelenses.
Até 30 de outubro de 2026, não foi identificada decisão oficial de Brasília de atender integralmente às novas exigências do BDS.
Assim, enquanto o movimento palestino pressiona pelo rompimento militar e econômico, o Brasil mantém relações comerciais bilionárias com Israel e utiliza tecnologias de empresas ligadas ao país em sistemas estratégicos de suas Forças Armadas.