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Copiloto da Flydubai confessou plano inspirado no 11 de Setembro contra o aeroporto de Tel Aviv, diz procurador dos Emirados

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 10/10/2026 às 10:57
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Copiloto da Flydubai confessou plano inspirado no 11 de Setembro contra o aeroporto de Tel Aviv, diz procurador dos Emirados
Boeing 737 MAX 8 da Flydubai decola do aeroporto de Pisa, na Itália, em 2024. Foto: Marcxosm, Wikimedia Commons, CC BY 4.0.

Segundo a investigação, a radicalização começou em 2017, em Melbourne, e ele usou dois voos anteriores para estudar a rota até o Ben Gurion.

O copiloto omanense de 29 anos que atacou o comandante de um voo da Flydubai confessou que queria jogar o avião contra o aeroporto Ben Gurion, de Tel Aviv, inspirado nos atentados de 11 de setembro de 2001, segundo o procurador-geral dos Emirados Árabes Unidos, Hamad Saif Al Shamsi. Pela confissão, ele seguiu a carreira de piloto justamente para repetir aquele tipo de ataque.

O procurador anunciou o resultado da investigação na sexta-feira, 9 de outubro, nove dias depois do voo, e descreveu o caso como um plano terrorista para causar mortes em massa no aeroporto israelense, segundo o jornal The National, de Abu Dhabi, que cita o anúncio sem reproduzir a íntegra da nota. Na primeira manifestação, no dia 3, ele tinha falado em tentativa de ato terrorista, sem apontar motivação, como registrou a Al Jazeera.

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O golpe de machado no voo FZ1073

O ataque aconteceu na quarta-feira, 30 de setembro, no voo FZ1073, de Dubai para Tel Aviv. Segundo o procurador-geral, o copiloto golpeou o comandante indiano Smit Machchhar com o machado de emergência da cabine, e o avião foi desviado e pousou em Tabuk, na Arábia Saudita.

O laudo médico-legal do comandante encontrou ferimentos concentrados na cabeça, compatíveis com o horário do ataque, informou o The National com base no anúncio da Procuradoria. O copiloto segue sob investigação nos Emirados.

Sinais de radicalização desde 2017, em Melbourne

Os investigadores situam o início da radicalização em 2017, quando o copiloto estudava em Melbourne, na Austrália. O procurador-geral falou em “sinais de sua deriva rumo ao extremismo e ao terrorismo” surgidos naquele ano, segundo a emissora australiana ABC.

De acordo com a Procuradoria, ele foi influenciado pela ideologia takfiri radical por meio de literatura extremista e de conteúdo na internet que exaltava grupos terroristas e ataques suicidas. O The National acrescenta que, segundo a investigação, ele frequentava uma mesquita ligada ao Instituto Real de Tecnologia de Melbourne, o RMIT, onde teria tido contato com pessoas de um centro religioso local.

A polícia australiana abriu a própria investigação

A Polícia Federal Australiana, a AFP, confirmou que investiga o período do copiloto no país e possíveis ligações extremistas, segundo a ABC. No domingo, 4 de outubro, um porta-voz da Equipe Conjunta de Contraterrorismo de Victoria, que reúne polícia e inteligência, confirmou à Al Jazeera que o grupo conduz uma apuração.

A agência Reuters, citando fontes ouvidas sob anonimato, informou que ele estudou no RMIT cerca de uma década atrás, segundo a Al Jazeera. Um perfil no LinkedIn com a mesma informação foi apagado, diz a ABC. Nenhuma das duas reportagens traz declaração pública da ASIO, o serviço de inteligência australiano.

De Omã a Dubai, passando pelo Marrocos

Pela linha do tempo da Procuradoria, o copiloto voou pela Oman Air de 2020 a 2024 e passou rapidamente pela Royal Air Maroc em 2025. Entrou na Flydubai em janeiro de 2026.

Segundo o procurador-geral, ele cumpria os requisitos profissionais e de segurança da empresa, com licença de piloto, certificado de boa conduta e as verificações exigidas, e nenhum desses procedimentos revelou visões extremistas. A ABC registra, com base em relatos anteriores, que ele teria sido afastado pela companhia aérea de seu país por causa dessas visões.

Em Israel, o caso expôs uma brecha. As regras israelenses proíbem tripulantes de países sem relações diplomáticas com Israel, como Omã, de voar de e para Tel Aviv, e políticos israelenses pedem a renúncia da ministra dos Transportes, cuja pasta deveria apontar riscos entre tripulações, segundo a ABC.

Dois voos para estudar a rota e treino de boxe

Segundo o procurador-geral, o copiloto usou dois voos anteriores para Tel Aviv para estudar a rota e o aeroporto. Antes do ataque, aumentou o consumo de material de propaganda terrorista e passou a treinar boxe com um professor particular, preparando-se para uma luta dentro da cabine, de acordo com o The National.

A confissão foi feita na presença do advogado dele, informou a ABC. O copiloto diz ter agido sozinho, e a Procuradoria afirma que ainda verifica essa versão.

Duas versões sobre quem entrou na cabine

Na versão que circulou na primeira semana, e que a emissora australiana ABC repete na reportagem deste sábado, o comandante ferido destravou a porta para que passageiros entrassem e dominassem o agressor. O anúncio do procurador-geral conta a cena de outro jeito.

Segundo o The National, um piloto que viajava como passageiro notou que a porta da cabine se comportava de forma estranha, conseguiu entrar e, com ajuda de tripulantes e passageiros, conteve o copiloto e socorreu o comandante. O anúncio não detalha como ele conseguiu entrar, e o resultado final, segundo a Procuradoria, sai quando terminarem os procedimentos.

A Procuradoria ouviu o comandante, o copiloto, tripulantes e o piloto que viajava como passageiro, e disse que os relatos são coerentes entre si. Gravações, relatórios técnicos e eventuais ligações com cúmplices ainda estão em análise, segundo o The National.

No Brasil, o exame da ANAC mede a saúde mental

Para voar como piloto comercial ou de linha aérea no Brasil, é preciso ter o certificado médico aeronáutico de 1ª classe, previsto no RBAC 67 da Agência Nacional de Aviação Civil. Para essas categorias, o certificado vale 12 meses, e cai para seis em alguns casos, como o do piloto de transporte público a partir dos 60 anos.

A seção 67.75 lista os transtornos que tornam o candidato inapto, de esquizofrenia a transtorno de personalidade, e exige parecer de psiquiatra nos exames iniciais, depois de acidente ou incidente grave e quando a ANAC pedir. A avaliação psicológica, com laudo sobre personalidade, atenção, memória e raciocínio, ocorre no exame inicial e a cada cinco anos na revalidação, regra dada pela Resolução nº 547, de 2020.

O texto trata de saúde, e não de convicção: o regulamento não menciona extremismo nem ideologia. A mesma exigência alcança os pilotos militares que deixam a FAB pelas companhias aéreas, já que a licença civil depende do certificado.

Um plano de anos que terminou numa pista saudita

Pela versão do procurador-geral, o copiloto passou quase uma década entre a radicalização em Melbourne, três companhias aéreas e dois voos de reconhecimento até o dia em que pegou o machado da cabine. O plano, segundo a Procuradoria, terminou numa pista em Tabuk, longe do aeroporto que ele dizia ter como alvo.

Ainda faltam a acusação formal, a confirmação de que ele agiu sozinho e o resultado da apuração australiana. Até lá, tudo o que se sabe sobre a motivação vem da confissão relatada pelo procurador dos Emirados.

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