Ex-oficial de inteligência do Planalto, ele chefiou a Secretaria de Produtos de Defesa de 2019 a 2022, foi indicado embaixador nos Emirados e depois trabalhou para o grupo que comprou a Akaer.
Marcos Rosas Degaut Pontes, secretário de Produtos de Defesa no governo Jair Bolsonaro e depois diretor do Edge Group, estatal de defesa dos Emirados Árabes Unidos, é o favorito para chefiar o Ministério da Defesa num eventual governo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), segundo oficiais da cúpula militar ouvidos pelo jornalista Igor Gielow, da Folha de S.Paulo, em reportagem de 7 de outubro. A campanha de Flávio, que disputa o segundo turno com o presidente Lula (PT) no domingo, 25 de outubro, não fez nenhum anúncio público de nome para a pasta.
O Diário Oficial da União registra a passagem de Degaut pelo ministério. Ele já assinava como titular da Secretaria de Produtos de Defesa, a Seprod, em 2 de julho de 2019, na Portaria nº 2.876, e foi exonerado a pedido pela Portaria nº 944, de 8 de agosto de 2022, publicada no dia 9.
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Letras, Direito e doutorado na Flórida
Degaut se formou em Letras pelo Centro Universitário de Brasília em 1992 e fez mestrado em Relações Internacionais na Universidade de Brasília, concluído em 1999. O doutorado em segurança internacional veio em 2016, pela Universidade da Flórida Central, em Orlando, nos Estados Unidos, segundo o currículo dele publicado no site da Marinha.
O mesmo documento registra a graduação em Direito pelo Centro Universitário do Distrito Federal, em 2005. Na carreira acadêmica, ele deu aula no Instituto de Educação Superior de Brasília de 2003 a 2009 e foi professor adjunto na universidade americana de 2013 a 2016.
Oficial de inteligência no Planalto e passagem pelo STJ
O primeiro posto público listado no currículo é na Presidência da República, de 1994 a 2000, como assessor de assuntos internacionais e oficial de inteligência, função que o texto vincula ao Gabinete de Segurança Institucional. Ele fez o curso de especialização da Escola Nacional de Inteligência em 1995 e foi instrutor convidado da escola de 1996 a 2000.
Entre 2007 e 2010, trabalhou no Superior Tribunal de Justiça. Foi chefe-adjunto da assessoria de assuntos internacionais e depois secretário-geral da Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados, a Enfam, de acordo com o currículo.
Assuntos Estratégicos no governo Temer
Em 18 de setembro de 2017, Degaut falou num painel sobre os Brics na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado. A Agência Senado o identificou como secretário-adjunto especial da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, cargo que o currículo situa entre 2017 e 2018, no governo Michel Temer (MDB).
Nessa fase, segundo o documento, ele integrou a força-tarefa que atualizou a Estratégia Nacional de Defesa e a Política Nacional de Defesa. Também foi membro do grupo executivo da Câmara de Comércio Exterior, a Camex, e diretor nacional da Comissão Nacional de População e Desenvolvimento.
Na Seprod, a agenda com a delegação do Edge
A agenda oficial do secretário, publicada no portal do Ministério da Defesa, mostra o contato com o grupo dos Emirados ainda no governo. Em 25 de outubro de 2021, Degaut acompanhou uma delegação do Edge em três compromissos em Brasília: no Estado-Maior do Exército, com o vice-chefe, general de divisão Flavio Marcus Lancia Barbosa, na ApexBrasil e na Presidência da República.
Segundo o Intercept Brasil, a aproximação começou com uma carta de Degaut, de 3 de agosto de 2021, ao presidente da divisão de mísseis e foguetes do Edge, informação que o ministério deu em resposta a pedido de acesso à informação. A carta convidava uma delegação para visitar empresas da base industrial de defesa, o que ocorreu de 29 de agosto a 4 de setembro de 2021, no Distrito Federal, em Jacareí, Piquete e São José dos Campos.
Grupo de trabalho e visita à sede em Abu Dhabi
Dessa visita saiu a proposta de um grupo de trabalho entre o Ministério da Defesa e o Edge, de acordo com a resposta da pasta citada pelo Intercept. A segunda reunião foi em Abu Dhabi, em 19 e 20 de fevereiro de 2022, e o ministério classificou as atas como de acesso restrito, com base na Lei de Acesso à Informação.
Em maio de 2022, o Edge recebeu em sua sede uma delegação chefiada pelo almirante Flávio Rocha, então secretário especial de Assuntos Estratégicos, com Degaut, o deputado Eduardo Bolsonaro e o embaixador Fernando Luis Lemos Igreja, segundo o Gulf Daily News, do Bahrein. Presidentes de 14 empresas brasileiras foram junto, entre elas Embraer, Taurus, Condor, SIATT e Akaer.
A embaixada nos Emirados que não saiu
Em 19 de abril de 2022, Bolsonaro enviou ao Senado a Mensagem nº 193, que indicava Degaut para embaixador nos Emirados. Segundo a Folha, a análise do nome ficou parada no Senado e ele desistiu da indicação, retirada em 10 de agosto de 2022, um dia depois de o Diário Oficial publicar a exoneração dele da Seprod.
Gielow escreve que Degaut é muito próximo de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, e que esteve à frente das tratativas lideradas por Eduardo para estreitar laços de defesa com os Emirados. A mesma reportagem diz que o nome dele chegou a ser lembrado também para o Itamaraty.
Quarentena e um ano como diretor do grupo
Depois da exoneração, Degaut cumpriu quarentena, segundo a Folha, e de maio de 2023 a abril de 2024 foi diretor do Edge Group para o Brasil e a América Latina. O currículo publicado pela Marinha dá como cargo atual, a partir de 2023, o de executivo do grupo para os mercados latino-americanos.
Nesse período, segundo o Intercept, o Edge comprou 50% das ações da SIATT, em setembro de 2023. Em novembro, a SIATT venceu a licitação da Marinha para o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul, o Sisgaaz, contra concorrentes como a italiana Leonardo e a israelense Elbit.
Segundo o Intercept, o grupo dos Emirados afirmava ter aportado US$ 120 milhões, valor nominal de 2023, para desenvolver com a Marinha um míssil antinavio de longo alcance. Pela PTAX de venda de 9 de outubro de 2026, de R$ 4,9892 por dólar, são cerca de R$ 598,7 milhões.
Marinha e Defesa negaram conflito de interesses
O Intercept questionou o Edge, a Marinha e o ministério sobre possível conflito de interesses na atuação de Degaut. A Marinha negou qualquer influência dele e disse que a licitação da SIATT foi “pública e impessoal”, e o Edge respondeu que os procedimentos legais foram respeitados.
O Ministério da Defesa informou que o acordo com a SIATT e o Edge ocorreu depois do período de 180 dias de quarentena recomendado à alta administração federal. Por isso, segundo a pasta, “a situação não se enquadra no conceito de conflito de interesses”, conforme o artigo 3º, inciso I, da Lei nº 12.813, de 2013.
Akaer, a compra mais recente do grupo no Brasil
O Edge seguiu ampliando a presença no país depois da saída de Degaut. Em 4 de setembro de 2026, concluiu a compra da Akaer, empresa de engenharia aeroespacial de São José dos Campos, e informou que a SIATT ficará com uma participação minoritária para preservar o enquadramento como Empresa Estratégica de Defesa, segundo o Gulf Daily News.
O valor do negócio não foi divulgado. O anúncio foi feito por Hamad Al Marar, hoje diretor-gerente e presidente-executivo do Edge, que em maio de 2022 estava entre os executivos que receberam a delegação brasileira, então como presidente da divisão de mísseis e armas.
Um civil para a Defesa, na conta dos generais
Segundo a Folha, oficiais do topo da hierarquia dão como certo que o próximo ministro, num governo Flávio, será um civil, e não um militar, como foi regra da metade do governo Temer até a volta de Lula. No dia seguinte à reportagem, um editorial da Folha defendeu que o cargo fique com civis.
Até 25 de outubro, a cotação de Degaut segue como relato de oficiais ao jornal, sem anúncio da campanha. O nome em discussão é o de um ex-oficial de inteligência do Planalto que cuidou de produtos de defesa de 2019 a 2022 e que, fora do governo, trabalhou para o grupo dos Emirados com o qual a secretaria dele mantinha um grupo de trabalho.