Antigos integrantes do 38º Batalhão de Infantaria, no Espírito Santo, construíram carreiras em diferentes setores, chegaram a trabalhar no exterior e transformaram os reencontros anuais em uma rede de amizade e solidariedade.
O Exército Brasileiro foi o ponto de partida de uma história que já dura 44 anos. Homens que dividiram alojamentos, instruções militares e a rotina do 38º Batalhão de Infantaria (38º BI), em Vila Velha, no Espírito Santo, seguiram destinos completamente diferentes depois de deixar a farda. Alguns se tornaram empresários, outros construíram carreiras na indústria, na agricultura e na educação. Um deles chegou a trabalhar em universidades de Portugal e dos Estados Unidos.
As profissões mudaram, as famílias cresceram e muitos passaram a viver longe uns dos outros. A amizade, porém, sobreviveu ao tempo.
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No dia 26 de setembro de 2026, os antigos companheiros se reuniram no Clube Álvares Cabral, em Vitória, para recordar a juventude e compartilhar experiências acumuladas ao longo de mais de quatro décadas.
As histórias foram apresentadas em reportagem publicada pela Folha Vitória, em 5 de outubro, assinada pela jornalista Débora Machado, e revelam uma dimensão da experiência militar que raramente aparece nas notícias sobre o Exército: o que acontece com os soldados depois que deixam o serviço ativo.
Um agricultor, um profissional da siderurgia e um empresário: os caminhos depois da baixa do Exército

Entre os veteranos está Amarildo Dardengo, de 64 anos, que trocou a rotina militar pelo trabalho com máquinas pesadas e, posteriormente, pela produção agrícola.
Após sair do Exército, Dardengo passou a prestar serviços utilizando equipamentos pesados. Anos depois, vendeu as máquinas, adquiriu uma propriedade rural e decidiu investir no cultivo de café em Burarama Jacu, na região de Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Espírito Santo.
O retorno ao campo teve um significado particular. Amarildo já conhecia a vida rural antes de ingressar nas fileiras do Exército e encontrou na agricultura uma maneira de retomar suas origens.
Apesar da mudança de profissão, ele atribui grande importância à formação recebida no quartel. Para o veterano, a experiência militar deixou ensinamentos que continuaram presentes em suas decisões pessoais e profissionais.
Outro integrante do grupo, Luiz Carlos Batista, seguiu um caminho diferente.
Depois de deixar a instituição militar, ingressou na antiga Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), atualmente ArcelorMittal Tubarão. Começou como estagiário, tornou-se inspetor de qualidade e chegou à função de supervisor antes de se aposentar.
A trajetória de Batista mostra como a saída do serviço militar pode representar o início de uma longa carreira em outro setor.
Mesmo após a aposentadoria, ele continuou profissionalmente ativo, trabalhando de casa na representação de empresas e exercendo a função de procurador de um antigo gerente residente nos Estados Unidos.
Em seu relato à Folha Vitória, Batista destacou que valores como responsabilidade, disciplina e comprometimento, desenvolvidos durante o serviço militar, acompanharam sua atuação na indústria.
O terceiro exemplo é o de Adelci Evanil Falqueto, de 63 anos, que construiu uma empresa depois de começar a trabalhar como motorista em uma distribuidora de vidros.
Antes de empreender, passou por diferentes funções dentro do estabelecimento. Trabalhou no galpão, conheceu a rotina administrativa e aprendeu os processos necessários ao funcionamento do negócio.
Essa experiência abriu caminho para a criação de sua própria empresa, especializada em manutenção industrial, vidros especiais e esquadrias.
Segundo o veterano, o empreendimento acumula 29 anos de atividade e atende clientes como Vale, ArcelorMittal e Cimec.
São três trajetórias distintas que começaram com uma experiência comum: o período de formação militar no 38º BI.
Da comunicação militar ao empreendedorismo e às universidades internacionais
Outros integrantes do grupo conseguiram transformar conhecimentos e experiências adquiridos durante o serviço militar em oportunidades profissionais na vida civil.
É o caso de Luiz Fernando dos Santos Pirola, de 65 anos.
Diferentemente de colegas que permaneceram por períodos mais curtos no Exército, Pirola acumulou dez anos de serviço militar.
Foram três anos no 38º Batalhão de Infantaria e outros sete no 1º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado, no Rio de Janeiro.
Durante esse período, trabalhou com comunicação militar. Posteriormente, direcionou sua experiência para o setor de sonorização e tornou-se sócio da empresa Ipanema Som.
Sua história apresenta uma relação direta entre a atividade desempenhada no quartel e a profissão desenvolvida depois da saída do Exército.

Já Leopoldino Vieira Neto, de 64 anos, levou sua carreira para além das fronteiras brasileiras.
O veterano seguiu a área acadêmica, acumulando experiências em instituições de ensino do Brasil e do exterior.
Sua trajetória inclui passagens pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), pelo Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e por universidades portuguesas, entre elas a Universidade Lusófona e a Universidade Fernando Pessoa, na cidade do Porto.
Atualmente, segundo a reportagem da Folha Vitória, Leopoldino trabalha como professor e coordenador de uma universidade localizada na Flórida, nos Estados Unidos, que também possui polos no Espírito Santo.
A distância não interrompeu a ligação com os antigos companheiros de farda.
O professor procura retornar ao Brasil todos os anos para participar das confraternizações e mantém um número de telefone brasileiro ativo para facilitar o contato com os amigos.
Sua trajetória ilustra uma realidade frequentemente pouco explorada quando se fala em serviço militar: a experiência no Exército representa apenas uma etapa da vida de muitos brasileiros, que posteriormente desenvolvem carreiras em setores sem relação direta com a atividade militar.
A amizade começou em 1982, mas os reencontros ganharam força décadas depois

A história do grupo começou em 1982, quando os jovens serviram no 38º Batalhão de Infantaria.
Naquele período, dificilmente imaginariam que continuariam se encontrando mais de quatro décadas depois.
Com o passar dos anos, o contato entre muitos antigos companheiros diminuiu. Alguns se mudaram, outros constituíram famílias e seguiram suas atividades profissionais.
A reaproximação ganhou força em 2018, quando os veteranos criaram um grupo no WhatsApp.
A ferramenta passou a reunir antigos militares que haviam perdido o contato e facilitou a organização das confraternizações.
Embora pequenos encontros já acontecessem anteriormente, o primeiro reencontro geral foi realizado em 2020.
Desde então, as reuniões se tornaram uma tradição, com a participação de familiares, amigos e integrantes que vivem até mesmo fora do Brasil.
O encontro de setembro de 2026, realizado no Clube Álvares Cabral, reuniu diferentes gerações em torno das lembranças do período militar.
As atividades também preservam elementos simbólicos da rotina do quartel. Entre elas estão as flexões de braço comandadas durante as confraternizações, uma referência às instruções físicas que marcaram a juventude dos participantes.
As recordações são acompanhadas por conversas sobre aposentadoria, trabalho, filhos e as mudanças vividas por cada integrante ao longo dos anos.
Veteranos transformaram os reencontros em uma rede de solidariedade
A ligação entre os antigos integrantes do 38º BI não ficou restrita às confraternizações.
Com a retomada do contato, os veteranos também passaram a organizar iniciativas de apoio a pessoas que enfrentavam dificuldades.
Uma das ações foi a arrecadação de recursos para comprar uma cadeira de rodas destinada a um integrante do grupo que enfrenta uma doença degenerativa.
Em 2026, os participantes também realizaram a doação de cinco quilos de alimentos e fraldas para uma família.
As iniciativas mostram que a aproximação entre os antigos militares passou a ter uma função prática, além da preservação das memórias.
O grupo tornou-se um espaço de convivência e ajuda mútua.
Para quem acompanha a rotina das Forças Armadas, a história também chama atenção por outro aspecto: a passagem pelo serviço militar não produz uma trajetória profissional única.
Depois da baixa, antigos soldados podem seguir para pequenas empresas, grandes indústrias, atividades rurais ou carreiras acadêmicas. O que permanece em comum, neste caso, é a referência ao período de formação no Exército e às relações pessoais construídas naquele ambiente.
Quarenta e quatro anos depois, o 38º BI permanece como parte da história desses brasileiros
O reencontro realizado em Vitória não representa uma cerimônia oficial de passagem para a reserva, tampouco uma reunião de militares ainda vinculados profissionalmente à instituição.
Trata-se de uma iniciativa de antigos integrantes do Exército que decidiram preservar uma experiência compartilhada na juventude.
A diferença é importante: os personagens construíram suas vidas profissionais fora da instituição militar, mas continuam reconhecendo o papel que aquele período teve em suas trajetórias.
Quatro décadas depois, alguns comandam empresas, outros estão aposentados, trabalham na agricultura ou exercem funções acadêmicas no exterior.
Não há informação divulgada sobre a quantidade total de participantes da confraternização nem sobre uma data já definida para o próximo encontro.
O que a reunião de setembro deixou evidente é que, para esses antigos soldados, o vínculo construído em 1982 continuou existindo muito depois do último dia de serviço no quartel.
Fonte: Reportagem de Débora Machado, publicada pela Folha Vitória em 5 de outubro de 2026.