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Documento secreto de 1958 revela que EUA discutiram equipar porta-aviões Minas Gerais para preservar relação militar com Brasil e acesso à estação de mísseis americana

Memorando do Departamento de Estado mostra pressão da Defesa e da Marinha dos EUA para incluir equipamentos do Minas Gerais em ajuda militar, com Fernando de Noronha e a guerra antissubmarino no centro da negociação.

Noel Budeguer
Por Noel Budeguer 02/10/2026 às 07:12
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Documento secreto de 1958 revela que EUA discutiram equipar porta-aviões Minas Gerais para preservar relação militar com Brasil e acesso à estação de mísseis americana
NAeL Minas Gerais (A11) navegando no Atlântico Sul em 1996, com o convés de voo angulado visível. Crédito: Rob Schleiffert / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.

Um memorando secreto do Departamento de Estado dos Estados Unidos revela que o porta-aviões Minas Gerais provocou uma disputa interna em Washington antes mesmo de entrar em serviço na Marinha do Brasil. Em maio de 1958, diplomatas americanos ainda resistiam a entregar gratuitamente equipamentos ao navio, enquanto o Departamento de Defesa e a própria Marinha dos EUA pressionavam pela ajuda.

O documento mostra que a discussão estava longe de ser apenas técnica. Autoridades americanas temiam que uma recusa irritasse a Marinha brasileira, prejudicasse as relações militares entre os dois países e colocasse em risco a cooperação do Brasil em uma estação de rastreamento de mísseis considerada estratégica pelos Estados Unidos.

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O antigo HMS Vengeance havia sido comprado do Reino Unido em dezembro de 1956 e rebatizado Minas Gerais. Enquanto o navio passava por uma grande modernização na Holanda, Washington discutia se radares e outros equipamentos deveriam entrar em um programa de ajuda militar sem custo para o Brasil.

Marinha dos EUA pressionou para equipar o porta-aviões brasileiro

O memorando, datado de 15 de maio de 1958, registra um choque de posições dentro do governo americano. O Departamento de Estado vinha tentando impedir que itens destinados ao porta-aviões fossem incluídos no programa de ajuda militar. A resistência, porém, encontrou forte oposição dentro do Pentágono.

Em 9 de maio, o subsecretário interino de Defesa Spruille Irwin disse que sua opinião se aproximava da posição do Departamento de Estado e que tentaria convencer outros setores, principalmente a Marinha. No dia seguinte, o contra-almirante Charles Libby, então vice-chefe de Operações Navais, procurou pessoalmente o diplomata Robert Murphy.

Libby levou uma carta já assinada pelo Departamento de Defesa defendendo a revisão da política contra o apoio ao Minas Gerais. O autor do memorando escreveu que a movimentação mostrava a força da posição da Marinha americana e mencionou também o interesse pessoal do almirante Arleigh Burke, então chefe de Operações Navais dos Estados Unidos.

O problema colocado aos diplomatas era direto: manter a oposição à entrega gratuita dos equipamentos ou ceder à pressão do Departamento de Defesa. A documentação mostra que, naquele momento, a segunda opção começava a ganhar espaço.

NAeL Minas Gerais (A11) fundeado no Rio de Janeiro, com o Pão de Açúcar ao fundo. O porta-aviões brasileiro esteve no centro de discussões em Washington sobre o fornecimento de equipamentos militares pelos Estados Unidos. Crédito: U.S. Navy / Wikimedia Commons, domínio público.

Washington temia perder cooperação brasileira em estação de rastreamento de mísseis

O argumento mais sensível envolvia a estação americana de rastreamento de mísseis em Fernando de Noronha. O Departamento de Defesa sustentava que negar os equipamentos poderia gerar ressentimento suficiente para prejudicar as negociações militares com o Brasil e até a utilização da instalação pelos Estados Unidos.

O memorando registrou cinco argumentos apresentados pela Defesa. Além da relação política e da estação de rastreamento, os militares americanos afirmavam que o porta-aviões brasileiro seria útil na guerra antissubmarino, uma missão importante para a estratégia naval dos Estados Unidos no Atlântico Sul durante a Guerra Fria.

A ajuda também poderia ser defendida como uma troca ligada à urgência americana em manter acesso à instalação de Fernando de Noronha. O próprio documento reconhecia que Washington preferia não apresentar publicamente a negociação dessa forma, mas admitia que a relação poderia ser usada para justificar o apoio se fosse necessário.

A recomendação final do autor foi retirar a objeção e aceitar que os equipamentos específicos fossem fornecidos ao Brasil como grant-aid, modalidade de assistência sem pagamento direto. Ao mesmo tempo, sugeriu deixar claro que aquela seria uma operação única, sem compromisso futuro com manutenção ou novos gastos do porta-aviões.

Ajuda ao Minas Gerais também preocupava o Congresso e outros países da América Latina

A resistência do Departamento de Estado não desapareceu sem motivo. O memorando apontava preocupação com a falta de justificativa econômica para um porta-aviões num país que enfrentava outras necessidades e com possíveis críticas de congressistas americanos aos programas militares dos Estados Unidos na América Latina.

Havia ainda receio de criar um precedente regional. Se Washington ajudasse o Brasil a equipar seu porta-aviões, outros países latino-americanos poderiam alegar desequilíbrio naval e pedir tratamento semelhante. O Departamento de Defesa respondia que uma transferência americana de outro porta-aviões seria extremamente improvável por depender de autorização do Congresso.

Os diplomatas também reconheceram uma dificuldade prática: o Brasil parecia decidido a investir no Minas Gerais com ou sem ajuda americana. Caso Washington recusasse a doação e oferecesse os equipamentos apenas a crédito, o Brasil poderia assumir mais dívida em dólares e reduzir recursos disponíveis para outras necessidades econômicas.

O documento concluiu que manter a oposição por muito tempo seria difícil. A previsão era de que a pressão aumentaria conforme o porta-aviões se aproximasse da entrada em serviço, prevista então para cerca de dois anos depois.

Minas Gerais passou por modernização na Holanda antes de servir por quatro décadas

NAeL Minas Gerais (A11) em dique seco no estaleiro Verolme, em Rotterdam, durante os trabalhos finais de modernização do porta-aviões brasileiro, em julho de 1960. Foto: Herbert Behrens / Anefo / Nationaal Archief — CC0, domínio público.
NAeL Minas Gerais (A11) em dique seco no estaleiro Verolme, em Rotterdam, durante os trabalhos finais de modernização do porta-aviões brasileiro, em julho de 1960. Foto: Herbert Behrens / Anefo / Nationaal Archief — CC0, domínio público.

NAeL Minas Gerais (A11) fundeado no Rio de Janeiro em 1968, poucos anos após entrar em serviço na Marinha do Brasil. Crédito: U.S. Navy / Wikimedia Commons, domínio público.

A compra do HMS Vengeance foi formalizada em dezembro de 1956. Segundo publicação histórica da própria Marinha, em julho de 1957 foi assinado com o estaleiro Verolme, em Rotterdam, o contrato de modernização e reparo do navio que se tornaria o primeiro porta-aviões brasileiro.

O projeto recebeu convés de voo angulado, catapulta a vapor, novos equipamentos eletrônicos e sistemas necessários para operações aéreas modernas. A literatura naval brasileira registra que o Minas Gerais foi concebido principalmente para a guerra antissubmarino e passou a ocupar posição central nos grupos navais da Marinha durante a Guerra Fria.

O detalhe revelado pelo memorando americano muda a leitura daquela modernização: enquanto o casco era transformado na Europa, os Estados Unidos discutiam nos bastidores até que ponto deveriam participar do projeto e quanto valia, estrategicamente, manter a boa vontade da Marinha brasileira.

Não há no documento original preservado pelo Office of the Historian do Departamento de Estado indicação da decisão final de Rubottom sobre as recomendações registradas naquele dia. O texto, porém, deixa documentada a dimensão da disputa: o Minas Gerais não era visto apenas como uma compra brasileira de um navio britânico, mas como peça de uma negociação maior envolvendo defesa antissubmarino, influência militar e uma instalação de mísseis no Atlântico.

Décadas depois, o porta-aviões seria lembrado como um dos símbolos da antiga Esquadra brasileira. O memorando de 1958 acrescenta outro capítulo à história: antes de operar aeronaves no mar, o Minas Gerais já estava no centro de uma disputa dentro do governo dos Estados Unidos.

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