Uma investigação da polícia de Hampshire colocou sob suspeita um dos contratos navais mais importantes da história brasileira. Documentos britânicos analisados pelo professor João Roberto Martins Filho mostram que a compra das fragatas Vosper pela Marinha do Brasil entrou no radar policial após surgirem indícios de abatimentos secretos, notas com preços inflados e comissões ligadas ao fornecimento de equipamentos.
O negócio assinado em 1970 previa seis fragatas, quatro construídas no Reino Unido e duas no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. A Classe Niterói marcaria uma virada tecnológica para a Esquadra brasileira, mas anos depois o contrato passou a aparecer em documentos de investigação, memorandos diplomáticos e discussões dentro do governo britânico sobre possíveis perdas financeiras impostas ao Brasil.
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O material consultado pelo pesquisador indica que autoridades do Reino Unido chegaram a considerar a possibilidade de compensar o governo brasileiro. A investigação, porém, esbarrou na resistência brasileira a uma apuração mais ampla em território nacional, e o dossiê acabou arquivado sem esclarecer todas as dúvidas levantadas pelos investigadores.
Polícia apreendeu documentos e encontrou abatimentos que não teriam chegado ao Brasil
A apuração começou a ganhar corpo no fim de 1977, quando a polícia de Hampshire examinou acusações surgidas em meio a uma disputa envolvendo a própria Vosper. Entre os papéis apreendidos estavam cartas e memorandos internos que apontavam para acordos com fornecedores responsáveis por equipamentos destinados às fragatas brasileiras.
Segundo a documentação reproduzida no estudo, fornecedores concediam descontos à Vosper, mas em parte dos casos as notas apresentadas ao comprador brasileiro continuavam registrando valores maiores. Depois do pagamento, o fornecedor entregava o abatimento à companhia por meio de cheque ou nota de crédito sem ligação aparente com o contrato principal.
Os investigadores identificaram três mecanismos que poderiam ter causado prejuízo ao Brasil. Um deles envolvia reduções de preço que deveriam beneficiar o comprador. Outro estava ligado ao cálculo de despesas adicionais do contrato. Havia ainda a cobrança de comissão de 12,5% sobre peças sobressalentes, percentual que poderia ser calculado sobre preços artificialmente elevados quando os abatimentos não eram descontados.
A polícia estimou que cerca de £ 598 mil em abatimentos haviam sido recebidos ao longo de quatro anos. Os investigadores ainda não sabiam qual parcela teria de ser repassada ao Brasil, mas registraram que outras somas poderiam aparecer conforme a análise dos chamados “abatimentos confidenciais” avançasse.

Documentos citaram £ 2,79 milhões em comissões e elevaram a tensão diplomática
Outro conjunto de documentos da Vosper mencionava pagamentos descritos como “comissões” e “comissões especiais” que somavam aproximadamente £ 2,79 milhões. O ofício britânico analisado no estudo dizia que parte dessas quantias poderia estar associada a pagamentos impróprios, hipótese que exigiria depoimentos e acesso a documentos no Brasil para ser esclarecida.
A possibilidade de policiais britânicos ouvirem autoridades e representantes brasileiros criou um problema diplomático. O Foreign Office, o Ministério da Indústria, o Ministério da Defesa e a British Shipbuilders discutiram durante meses como conduzir o caso sem comprometer as relações com Brasília nem provocar danos à indústria naval britânica.
Em uma reunião realizada em Londres em maio de 1978, representantes britânicos informaram à delegação naval brasileira que eventuais perdas poderiam ser reparadas. Registros diplomáticos citados pelo pesquisador mostram que os brasileiros preferiram manter o tema em baixa exposição e aguardar novos dados.
As autoridades brasileiras, porém, não demonstraram disposição para abrir documentos oficiais ou permitir uma investigação policial britânica com ampla liberdade no país. Em agosto de 1978, após consulta interna, o Itamaraty aceitou apenas a possibilidade de uma visita informal dos investigadores, sem assistência oficial e sem acesso a arquivos governamentais.
Reino Unido avaliou compensação, mas investigação perdeu força sem cooperação brasileira
O impasse atingiu diretamente a chance de uma apuração mais profunda. Correspondência diplomática britânica registrou que a falta de cooperação reduziria também a possibilidade de pagamentos compensatórios. Setores do governo britânico temiam reabrir o assunto e prejudicar uma relação militar e comercial considerada importante.
O Ministério da Defesa britânico chegou a reconhecer falhas na auditoria dos fornecimentos e demonstrou disposição favorável a compensações. A decisão final ficou cercada por dúvidas sobre quanto o Brasil realmente havia perdido, quem conhecia o sistema de abatimentos e se autoridades brasileiras consideravam o país vítima de fraude.
No fim de 1978, a Procuradoria britânica concluiu que as investigações deveriam continuar apenas no Reino Unido. Sem respostas brasileiras para pontos considerados essenciais, a possibilidade de avançar com um processo por conspiração para fraudar o governo brasileiro ficou enfraquecida.
Classe Niterói virou símbolo tecnológico enquanto o dossiê permaneceu sem resposta final
A própria Marinha do Brasil registra que a Classe Niterói representou um marco de avanço tecnológico em sistemas de combate e manutenção. A primeira fragata foi incorporada em 1976, e as duas últimas unidades da série foram construídas no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro com material, equipamentos e assistência técnica britânica.
Mais de quatro décadas depois, o estudo baseado nos arquivos britânicos recuperou uma parte pouco conhecida dessa história. O dossiê termina sem explicar por que a cooperação brasileira foi tão limitada, quanto o país poderia ter recuperado e qual foi o destino final das suspeitas de abatimentos e comissões.
O contrato que ajudou a modernizar a Marinha também ficou ligado a uma investigação policial estrangeira que nunca esclareceu todas as suspeitas levantadas em 1978. Se você conhecia essa história das fragatas Niterói, deixe sua opinião nos comentários e compartilhe a matéria.