Um telegrama enviado pela Embaixada dos Estados Unidos em Brasília em 17 de junho de 1974 revela que a venda dos caças F-5E à Força Aérea Brasileira foi vista por Washington como uma oportunidade para recuperar espaço sobre as futuras decisões de compra das Forças Armadas brasileiras.
O documento, hoje disponível no arquivo histórico do Departamento de Estado, afirma que a venda de F-5E e C-130 ao Brasil em 1973, financiada pelo sistema norte-americano Foreign Military Sales, havia melhorado a oportunidade de consolidar os Estados Unidos como principal influência militar estrangeira e fonte de equipamentos para o país.
Receba nossas notícias independente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
O telegrama foi produzido em meio a uma disputa internacional pelo mercado brasileiro. Segundo a Embaixada, cerca de 90% das compras militares externas realizadas pelo Brasil entre 1966 e 1970 haviam sido feitas fora dos Estados Unidos, enquanto fornecedores europeus avançavam sobre contratos relevantes.
Venda dos F-5E virou peça de uma disputa por futuras compras militares brasileiras

O Brasil assinou o primeiro contrato do F-5 em 30 de dezembro de 1973. Segundo a Força Aérea Brasileira, o acordo valia US$ 115 milhões e previa um primeiro lote de 42 aeronaves, formado por 36 F-5E e seis F-5B. As entregas começaram em 1975.
Antes do contrato final, documentos americanos registravam uma negociação ainda maior. Um memorando de 1973 citou interesse brasileiro em 48 F-5E e nove C-130, enquanto o Mirage francês aparecia como principal concorrente. A França oferecia prazos de pagamento mais longos e crédito garantido.
Os Estados Unidos enfrentavam um problema adicional: havia pouco crédito FMS disponível para financiar uma operação desse tamanho. O memorando de 1973 avaliava diferentes formas de acomodar a compra sem atrasar entregas e registrava que uma venda integralmente à vista seria inaceitável para o Brasil.
Para Washington, a disputa seguiria depois da assinatura do contrato. O telegrama de 1974 previa que o Exército Brasileiro buscaria sistemas de defesa antiaérea, equipamentos para duas brigadas de infantaria blindada e modernização de unidades de artilharia, engenharia e comunicações.
A Marinha do Brasil também aparecia nos planos. Os diplomatas esperavam novas compras de sistemas antiaéreos e antissubmarino, além de um possível programa de construção de fragatas de patrulha que poderia movimentar até US$ 500 milhões.
Embaixada americana chamou crédito do F-5E de avanço sobre o planejamento brasileiro
O financiamento teve peso central. A Embaixada descreveu a decisão de conceder créditos FMS para a venda do F-5E ao longo de três anos como um avanço da influência dos EUA sobre o planejamento de aquisições militares do Brasil.
Países concorrentes ofereciam equipamentos sofisticados com apoio financeiro de seus próprios governos. Sem linhas de crédito semelhantes, os fornecedores americanos teriam dificuldade para competir em contratos futuros de grande porte.
O telegrama recomendava elevar os créditos militares destinados ao Brasil. A proposta previa US$ 75 milhões no ano fiscal de 1975, US$ 90 milhões anuais em 1976 e 1977 e US$ 100 milhões por ano entre 1978 e 1980.
O documento também associava o programa de assistência militar a interesses comerciais e estratégicos. Compras brasileiras de fragatas americanas, sistemas de defesa antiaérea e outros equipamentos poderiam ampliar a presença dos EUA como fornecedor de tecnologia, treinamento e material militar.
Sidewinder entrou na negociação e chegou à mesa do presidente dos Estados Unidos
A relação criada pelo F-5E avançou para o armamento do caça. Em maio de 1975, um memorando de Henry Kissinger ao presidente Gerald Ford tratou da venda do míssil ar-ar AIM-9 Sidewinder ao Brasil, uma das principais armas previstas para o F-5E.

O texto recordava que Richard Nixon havia autorizado, em maio de 1973, o uso de crédito para a venda do F-5E a cinco países latino-americanos, incluindo o Brasil, por considerar a operação importante para a segurança dos Estados Unidos.
Segundo o memorando, os brasileiros entendiam que a compra dos F-5E também permitiria adquirir os primeiros Sidewinder em condições de crédito semelhantes. Kissinger recomendou a autorização, e Ford assinou a determinação presidencial em 22 de maio de 1975.
A autorização passou pelo nível mais alto do governo americano porque a legislação dos EUA restringia o uso de crédito para a venda de armamentos sofisticados a países em desenvolvimento. A Casa Branca precisava formalizar que a operação atendia aos interesses de segurança dos Estados Unidos.
F-5 entrou em serviço em 1975 e permaneceu por décadas na linha de frente da FAB

O primeiro lote brasileiro começou a chegar em 1975. Ao longo das décadas seguintes, a FAB adquiriu outros exemplares e chegou a contabilizar 79 aeronaves F-5 em três lotes, segundo registros oficiais.
A frota passou por uma modernização profunda que deu origem ao F-5M, incorporando radar Grifo, aviônicos digitais, sistemas de autoproteção, equipamentos compatíveis com visão noturna e capacidade para empregar armamentos modernos. O caça também recebeu capacidade padronizada de reabastecimento em voo.
Mais de meio século depois do contrato de 1973, os documentos diplomáticos revelam como a compra brasileira era acompanhada em Washington. Os EUA queriam usar o F-5E e o C-130 como porta de entrada para disputar contratos seguintes do Exército, da Marinha e da própria FAB.
O F-5 acabou se tornando um dos caças mais longevos da história da Força Aérea Brasileira. Antes mesmo da chegada das primeiras aeronaves ao país, porém, a venda já fazia parte de uma estratégia americana que misturava crédito, competição industrial, treinamento militar e influência sobre futuras aquisições brasileiras.