O EE-17 Sucuri tinha a receita que parecia perfeita para conquistar exércitos: um canhão de 105 mm, seis rodas, 18,5 toneladas e velocidade máxima anunciada de 110 km/h. A Engesa desenvolveu o blindado no Brasil na década de 1970, quando já vendia veículos militares para o exterior. Só faltou um detalhe que nenhuma indústria consegue ignorar: ninguém comprou o Sucuri.
O projeto chegou a virar um protótipo, passou por avaliações e mostrou que a engenharia brasileira tinha ambições bem maiores do que fabricar veículos de reconhecimento. Entretanto, ficou sem uma única encomenda conhecida. Nem o Exército Brasileiro nem compradores estrangeiros abriram caminho para a produção em série.
Anos depois, a Engesa tentou corrigir a aposta com outro Sucuri, muito mais moderno. A nova versão também terminou sem contratos. Os números impressionantes do primeiro modelo escondiam problemas de projeto, custos e um mercado que ainda não sabia onde encaixar aquele tipo de armamento.
Engesa vendia Cascavel e Urutu, mas o Sucuri ficou sem um único comprador
Na década de 1970, a Engesa já havia conquistado espaço com o EE-9 Cascavel e o EE-11 Urutu. O primeiro era um blindado de reconhecimento e apoio de fogo; o segundo transportava militares e podia atravessar cursos d’água em determinadas condições. Eram produtos relativamente simples de manter e adequados aos compradores que buscavam mobilidade a custos inferiores aos de carros de combate pesados.
Segundo o levantamento publicado pelo portal Forças Terrestres, a fabricante já havia vendido mais de 1.300 viaturas militares entre 1974 e 1981. O sucesso abriu espaço para uma aposta mais ousada: criar um veículo capaz de enfrentar tanques inimigos com um canhão bem maior do que o utilizado no Cascavel.
Apresentado em 1977, o EE-17 aproveitava soluções mecânicas da família Engesa, mas foi alongado e reforçado para carregar uma torre francesa FL-12. O canhão CN-105-57 de 105 mm oferecia uma capacidade anticarro que o distinguia dos veículos de reconhecimento convencionais. A ideia era atacar rapidamente e mudar de posição antes que o adversário reagisse.
Canhão de 105 mm, motor de 300 hp e velocidade anunciada de 110 km/h
O Sucuri tinha configuração 6×6 e motor Detroit Diesel de aproximadamente 300 hp. Nas especificações divulgadas pela fabricante, apareciam uma autonomia próxima de 600 quilômetros e a velocidade máxima de 110 km/h em estrada. Eram dados de catálogo e não uma comprovação de que o blindado manteria esse desempenho em qualquer condição operacional.

O carregamento do canhão também fugia do comum. A torre francesa tinha mecanismo semiautomático com munições prontas para os primeiros disparos, além de equipamentos de observação e pontaria. Para um veículo sobre rodas, carregava um armamento pesado e uma proposta agressiva: sair de uma posição protegida, atacar um alvo blindado e desaparecer antes do contra-ataque.
Mas a proteção do casco era leve quando comparada à de um tanque de batalha. O Sucuri podia ameaçar um adversário com o canhão e, ao mesmo tempo, ficar vulnerável ao fogo recebido. Sua sobrevivência dependia de escolher bem a posição, aproveitar a velocidade e evitar confrontos prolongados.
Torre alta e mecânica pressionada atrapalharam o blindado brasileiro
O tamanho do canhão não resolvia tudo. A torre FL-12 deixava o veículo alto, justamente quando a missão exigia se esconder e aproveitar o terreno para fazer emboscadas. Um caça-tanques que aparece com facilidade oferece ao inimigo mais tempo para localizar e atingir seu alvo.
A suspensão Bumerangue, consagrada nos modelos mais leves da Engesa, também passou a trabalhar com uma massa muito maior. O conjunto precisava lidar com um veículo longo, elevado e equipado com uma arma de grande calibre. Pesquisas históricas apontam que o desempenho ficou aquém do esperado.
Havia ainda uma dúvida incômoda na transmissão. A Tank Encyclopedia registra que a Allison MT 640 era dimensionada nominalmente para cerca de 250 hp, enquanto o motor instalado fornecia até 300 hp. Essa diferença levantava questionamentos sobre a resistência do sistema sob uso intenso, especialmente longe do asfalto.
Somavam-se a isso os custos da torre importada e a necessidade de criar uma estrutura própria de treinamento, manutenção e emprego tático. Vender um blindado fora dos padrões usuais exigia convencer o comprador a mudar também a maneira de operar suas unidades.
Receba nossas notícias independentemente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
Protótipo foi até a Malásia, mas os testes não renderam contrato
O veículo passou por avaliações no Brasil e foi levado à Malásia, onde chegou a ser fotografado durante transporte ferroviário. Essa apresentação no exterior está entre os episódios mais bem documentados de sua trajetória comercial. A viagem, porém, não terminou em compra.

Relatos posteriores citam possíveis contatos com outros países, mas as evidências disponíveis são menos consistentes. O EE-17 ficou restrito a um único protótipo conhecido. Nenhum exército formalizou uma encomenda capaz de levá-lo às linhas de produção.
A própria situação no Brasil pesava. A adoção de um caça-tanques sobre rodas não fazia parte de um programa nacional capaz de garantir demanda inicial à Engesa. Sem cliente doméstico e sem exportação contratada, o protótipo acabou armazenado no começo dos anos 1980.
Engesa tentou de novo com o EE-18, e a falta de vendas continuou
A fabricante insistiu no conceito e desenvolveu o EE-18 Sucuri II, cujo primeiro protótipo ficou pronto no fim de 1987. O segundo projeto não era uma simples atualização visual do EE-17: recebeu uma torre convencional, novas soluções mecânicas e um canhão de 105 mm mais adequado às munições anticarro modernas.
Apesar das melhorias, o EE-18 também terminou sem pedidos firmes. Mais potente e modernizado, o segundo veículo também continuou sem uma linha de montagem abastecida por pedidos.
Enquanto isso, a Engesa carregava dívidas, enfrentava mudanças no mercado internacional e investia em programas caros, como o tanque EE-T1 Osório. A falência veio em 1993, por uma combinação de dificuldades empresariais e comerciais muito mais ampla do que o destino de um único veículo.
O blindado que ninguém comprou terminou desmontado
O destino do EE-17 foi ainda mais amargo do que a falta de contratos. Reconstruções históricas baseadas em fotografias e depoimentos indicam que o protótipo passou anos guardado, recebeu posteriormente uma torre diferente e acabou desmontado após a liquidação dos bens da Engesa. Algumas peças do armamento teriam sobrevivido.
Hoje, a ideia de usar veículos sobre rodas com canhões pesados aparece em blindados de várias forças armadas. O Sucuri brasileiro antecipou parte dessa proposta, mas suas limitações mecânicas e a falta de compradores impediram que saísse da fase experimental. Um projeto de 105 mm e 110 km/h terminou sem uma única venda de série.