A mecanização militar reduziu em mais de 90% o número de equinos do Exército Brasileiro, mas não encerrou sua criação. Em São Borja, uma propriedade de 15.362 hectares prepara cavalos durante até cinco anos para atividades de guarda, patrulhamento, cerimônias e formação equestre.
O Exército Brasileiro tinha 22.810 cavalos no início da Segunda Guerra Mundial, em 1939 e 1940. Hoje, são 2.181 animais, uma redução de aproximadamente 90,4% em pouco mais de oito décadas. Os cavalos perderam espaço para tanques, veículos blindados e unidades mecanizadas, mas continuam fazendo parte da estrutura militar brasileira.
Em São Borja, no Rio Grande do Sul, uma propriedade com mais de 15 mil hectares mantém viva essa tradição. A Coudelaria e Campo de Instrução de Rincão entregou 170 cavalos preparados para o serviço militar em 2025, destinados a atender diferentes necessidades do Exército.
A fazenda reúne aproximadamente mil equinos e é responsável por uma atividade que começa muito antes de um animal aparecer montado por um soldado durante uma cerimônia. Entre o planejamento da criação, o nascimento, a seleção genética e o treinamento, podem transcorrer cinco anos.
Os números foram apresentados em reportagem da Gazeta do Povo, publicada em março de 2026, que acompanhou a atividade da coudelaria gaúcha.
De 22.810 para 2.181 cavalos: como a mecanização transformou o Exército

Durante boa parte da história militar brasileira, os cavalos eram indispensáveis para deslocamentos, reconhecimento, patrulhamento e operações de cavalaria.
A mudança começou a ganhar força ao longo do século XX, especialmente com a introdução de veículos motorizados e blindados. A Segunda Guerra Mundial demonstrou a crescente importância das forças mecanizadas, e os exércitos passaram a reorganizar suas unidades em torno de novas tecnologias.
No Brasil, essa transformação ocorreu gradualmente.
Durante as décadas de 1950 e 1960, unidades hipomóveis, que utilizavam cavalos, ainda coexistiam com formações mecanizadas. A substituição ganhou maior intensidade nas décadas seguintes, acompanhando o desenvolvimento da indústria de defesa e a modernização dos equipamentos militares.
O resultado aparece na comparação histórica: dos 22.810 animais registrados em 1939 e 1940, o efetivo caiu para 2.181, segundo os números apresentados pela reportagem.
A redução corresponde a 20.629 cavalos.
Essa transformação não significou o desaparecimento da Arma de Cavalaria. O Exército preservou sua organização em regimentos e esquadrões, mas a maior parte de suas atividades passou a utilizar veículos blindados sobre rodas e lagartas.
O cavalo deixou de ser o principal meio de mobilidade militar e permaneceu em funções específicas, nas quais suas características ainda oferecem utilidade.
Uma fazenda de 15.362 hectares mantém a criação de cavalos militares no Rio Grande do Sul
A Coudelaria de Rincão funciona em São Borja, município localizado na fronteira do Brasil com a Argentina.
Receba nossas notícias independentemente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
A propriedade ocupa 15.362 hectares, uma área equivalente a aproximadamente 15 mil campos de futebol. Ali são mantidos animais de diferentes raças, selecionados de acordo com as características necessárias para cada atividade.
A criação de cavalos militares na região tem raízes antigas. Em 1922, o Rincão de São Gabriel foi oficialmente transformado na Coudelaria de Rincão.
Décadas depois, a própria estrutura de criação passou por uma reorganização.
Em 1950, o Exército possuía nove coudelarias distribuídas pelo país, incluindo instalações no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo.
Com a redução do número de equinos, essa estrutura deixou de ser necessária.
Em 1975, o Exército concentrou os plantéis remanescentes na unidade de Campinas, em São Paulo. A expansão urbana e a necessidade de uma propriedade maior levaram a uma nova mudança.
Em 1987, o Ministério do Exército decidiu retomar a criação em Rincão. Desde janeiro de 1988, a propriedade gaúcha funciona como a única coudelaria da Força.
A escolha preservou uma atividade histórica em uma região tradicionalmente ligada à criação de cavalos.
Os 170 cavalos entregues em 2025 começaram a ser preparados anos antes
Produzir um cavalo militar não é simplesmente criar um animal até que ele alcance a idade adulta.
Segundo o trabalho descrito pela Gazeta do Povo, a preparação envolve aproximadamente cinco anos, considerando todas as etapas do processo.
Primeiro ocorre o planejamento financeiro e da criação. Depois vem a reprodução das éguas, cuja gestação dura cerca de 11 meses. Os potros passam por um período de desenvolvimento antes de iniciarem a doma e o treinamento.
A equipe técnica observa características físicas, comportamento, desempenho e aptidão para diferentes atividades.
Um cavalo destinado ao patrulhamento precisa apresentar resistência e condições de enfrentar deslocamentos prolongados. Já os animais empregados em cerimônias militares necessitam de treinamento adequado à presença de público, ruídos e movimentações coletivas.
O criatório trabalha com raças como brasileiro de hipismo, puro-sangue inglês, bretão, crioulo e polo argentino.
Em média, a propriedade entrega aproximadamente 150 cavalos anualmente. Em 2025, foram 170, o equivalente a um animal preparado a cada pouco mais de dois dias.
O diretor da coudelaria, coronel Leandro Sicorra Wilemberg, informou à Gazeta do Povo que o custo médio de produção é de aproximadamente R$ 7 mil por animal.
Os cavalos pertencem ao patrimônio público e são destinados aos órgãos atendidos pela coudelaria, sem comercialização.
Para onde vão os cavalos que continuam servindo ao Exército Brasileiro?
Uma das destinações mais conhecidas são as atividades cerimoniais.
Em Brasília, os cavalos participam de solenidades dos Dragões da Independência, ligados ao 1º Regimento de Cavalaria de Guardas, unidade tradicional do Exército Brasileiro.
As unidades de guarda no Rio de Janeiro e em Porto Alegre também utilizam animais nas atividades militares.
Mas a função dos equinos não termina nas cerimônias.
Eles continuam empregados no patrulhamento de áreas militares e campos de instrução, especialmente em terrenos nos quais o deslocamento a pé ou com veículos apresenta dificuldades.
A Escola de Equitação do Exército também recebe animais para atividades de formação e treinamento equestre.
O atendimento ultrapassa os limites do Exército. A Força Aérea Brasileira utiliza cavalos em determinadas atividades de patrulhamento, enquanto polícias militares recorrem a animais para policiamento ostensivo e controle de distúrbios.
É uma distinção importante: embora a cavalaria brasileira seja hoje predominantemente mecanizada, o cavalo não sobrevive apenas como símbolo histórico. Ele mantém aplicações práticas, mesmo representando uma parcela pequena da estrutura militar.
Cavalos criados pelo Exército também chegam à Argentina e ao Paraguai
A atividade da Coudelaria de Rincão inclui cooperação com instituições militares de outros países.
O criatório mantém intercâmbios de animais e material genético com Forças Armadas da América Latina, incluindo Argentina e Paraguai.
A seleção genética procura desenvolver características físicas compatíveis com o trabalho militar e com modalidades esportivas.
Entre os recursos utilizados está a transferência de embriões, com participação de éguas bretãs como receptoras na reprodução de outras linhagens.
O trabalho também permite preservar conhecimentos técnicos relacionados à criação, à reprodução e ao treinamento de cavalos que já não existem na mesma escala dentro da organização militar.
O contraste ajuda a explicar a permanência da fazenda gaúcha. O Exército deixou de depender de dezenas de milhares de cavalos para movimentar suas tropas, mas ainda precisa criar, selecionar e preparar os animais empregados em funções especializadas.
O país que mantinha 22.810 equinos militares no início da Segunda Guerra Mundial hoje possui um efetivo muito menor. Em São Borja, porém, cada nova geração de cavalos representa a continuidade de uma atividade centenária que resistiu à mecanização das Forças Armadas.