Cuba mantém uma extensa rede de escolas militares voltada para a juventude. No sistema de ensino militar do país, que vê suas forças em declínio, a Escola Militar Camilo Cienfuegos, na província de Matanzas, é um dos principais centros de formação pré-universitária das Forças Armadas Revolucionárias (FAR).
Porém, por trás do discurso oficial de civismo e rigor acadêmico, há outras camadas. O modelo combina doutrinação ideológica, regras rígidas e severas restrições que acompanham tanto a rotina dos alunos quanto a vida profissional dos educadores.
Receba nossas notícias independente dos algorítimos das redes sociais, entre no nosso grupo agora
Formação dos “camilitos” e a preparação ideológica
A escola militar Camilo Cienfuegos nasceu em 23 de setembro de 1966 por iniciativa do general do exército Raúl Castro Ruz.
Na escola Cienfuegos, dezenas de adolescentes conhecidos popularmente como “camilitos” recebem formação integral.
Essa rotina combina rigor acadêmico, disciplina, preparação militar básica, desenvolvimento físico e uma sólida educação em valores patrióticos e morais.
“Os ‘camilitos’, com sua preparação e motivação, constituem essa fonte inesgotável de oficiais para o revezamento da nossa gloriosa força revolucionária — e não apenas para as FAR.
Em muitas ocasiões, também muitos dos nossos ‘camilitos’ ocuparam cargos importantes em outras estruturas da administração central do partido, do governo, do Estado, e colocaram sua disciplina e sua preparação a serviço do país.”
A fala acima é do coronel Fermín Castellón Gómez, diretor da escola militar na província de Matanzas.
De acordo com uma reportagem do Canal Caribe, o centro funciona como “um celeiro de futuros oficiais dispostos a defender as conquistas da revolução.”
O papel do ensino militar na estrutura estatal de Cuba
Alguns alunos e alunas da escola militar aparecem na matéria dando seu depoimento à reportagem:
“Aprendi a viver em coletivo, a formar uma pequena família. Criou em mim uma disciplina. Aprendi a ser, aprendi a ser uma moça de valores, aprendi a ser integral para ser uma futura militar das nossas Forças Armadas Revolucionárias.
“Pois nos prepara para a vida e nos formamos como futuros militares, futuros revolucionários; além disso, temos a preparação político-ideológica que recebemos dentro desta instituição.
“O que me inspirou a fazer parte das escolas militares Camilo Cienfuegos de Matanzas foi a grande formação que aqui é oferecida a cada estudante desta instituição.
“Formam-nos como pessoas de bem, dão-nos preparação de todo tipo, formam-nos como um coletivo; aprendemos a viver, a compartilhar, nos tornamos uma grande família.”
Depoimentos: disciplina e rotina nas escolas militares
A entidade conta com um corpo docente de excelência, muitos deles egressos da própria escola ou com ampla trajetória acadêmica.
O processo educativo prioriza o atendimento diferenciado, com cursos, atividades esportivas, culturais e recreativas, além da formação vocacional orientada a carreiras militares e civis vinculadas às FAR.
Uma das fundadoras da escola, Inés María Enrique Domínguez, que também é professora, e já foi aluna, está há 56 anos, formando “ano após ano, futuros oficiais.”
“É uma grande satisfação andar pelas ruas de Matanzas e encontrar o médico ‘camilito’, aquele que defende os direitos dos cidadãos, ‘camilito’, não é? Aquele que trabalha na termoelétrica, ‘camilito’; é o maior orgulho que um professor da Escola Militar Camilo Cienfuegos pode ter.”
Segundo a reportagem, Cienfuegos é “algo mais que um centro de ensino, pois constitui uma verdadeira casa de formação para a vida e a defesa.”
Já de acordo com o jornal Diario las Américas, o ufanismo em torno das escolas militares de Cuba tem um outro lado, bem menos glorioso.
O outro lado: denúncias e o desejo de evasão
O Diario las Américas, sediado nos Estados Unidos, publicou o testemunho de uma professora de uma das escolas militares de Cuba. O sonho dela é encontrar um namorado estrangeiro, casar e sair de Cuba .
“Desde a adolescência, tenho bolsas de estudo em escolas militares. Mesmo no ensino pré-universitário, como muitos dos meus amigos, queríamos sair da vida militar. Mas não é tão fácil.
Quando você estuda para uma carreira na academia militar, se quiser desistir, tem que esperar dois anos antes de poder se matricular em uma instituição de ensino superior”, explica Yamila (nome fictício).
Regras severas, vigilância e o controle econômico das FAR
Devido à escassez de professores, Yamila dá aulas numa escola militar, sendo ela mesma aluna de uma delas.
“As privações são muitas. Existe uma norma nas instituições militares cubanas, a Ordem do Comandante, que nos impede de nos comunicarmos com parentes que moram no exterior, de fazermos amizade com pessoas descontentes com o governo, de lermos jornais ou livros estrangeiros considerados ‘contrarrevolucionários’ e, claro, de termos namorados estrangeiros.
A contraespionagem militar nos vigia de perto. Qualquer violação é punida com prisão ou julgamento em um tribunal militar.”
“Pensando nesse futuro, as Forças Armadas Revolucionárias (FAR) não querem que os estudantes que desejam seguir carreira militar as abandonem.
Para o alto comando, somos nós que supervisionaremos e administraremos os negócios lucrativos do país. Mas para chegar lá, é preciso suportar abusos e cumprir regras ultrapassadas”, diz Yamila, que se imagina bem longe de Cuba.
Atualmente os militares controlam 80% da economia, e a holding GAESA também administra a produção de carvão de marabu, 30.000 quartos de hotel e o Porto de Mariel, a 40 quilômetros de Havana.